Coisas e Gentes da Nossa Terra
Agricultura, antigamente lavoura
Casas ou Casais agrícolas importantes de outrora:

Casa agrícola da Quinta dos Aciprestes ou dos Sarmentos: antigamente propriedade do Morgadio dos Aciprestes, mais propriamente denominado por Morgadio de Santo António dos Aciprestes, “e Descendência”, até há poucas décadas com cerca de 70 hectares de área agrícola cultivável e pinhal, cujo último morgado oficial foi António de Morais Sarmento falecido em 1930, casal ainda hoje (2016) na posse da família mas com finalidade totalmente diferente.
A partir da década de 70 do século passado, deixou de ter a importância agrícola de outrora, tendo mesmo sido vendidos pelos novos proprietários em finais da década de 90 ou início de 2000 a maior parte dessas enormes propriedades da lavoura. De tudo isso outrora abundante, resta só o solar requalificado para turismo – rural e a quinta em redor com algumas oliveiras e uma vinha a poente e o velho monte do Crasto que carrega e guarda muita história do tempo dos romanos que por lá se instalaram no passado.
Quinta da Teixogueira: antigamente propriedade do Morgadio da Teixogueira, inicialmente denominado por “Costa Homem Morgadios de Valpaços, da Quinta da Teixogueira e do Nosso Senhor Jesus Cristo Ecce Homo”, cujo último morgado oficial foi João Evangelista da Costa Homem.
Essa quinta agrícola, com mais de 40 hectares de área total, permaneceu na posse dos herdeiros de Dª. Clotilde Augusta Ferreira Sarmento e marido e professor Carolino Augusto Afonso (falecido em 1966, que tinham comprado parte dos 30 hectares da parte nascente a familiares chegados por 360 contos) até por volta de 1974. Depois do falecimento do professor Carolino, a propriedade, juntamente com a enorme habitação senhorial, foi-se degradando progressivamente em todos os sentidos.
Após 1974, data da venda, passou já por mais três ou quatro proprietários, tendo uma parcela a poente com cerca de 10 hectares sido recebida por herança pelo irmão António Sarmento Afonso da Dª. Clotilde Sarmento, cuja maior parte da área agrícola penso já ter sido vendida por ele ainda em vida a outra pessoa não da família.
Para além dessas duas enormes casas de lavoura de antigos morgados, que davam trabalho à jeira e que eram o sustento económico de muita gente pobre, também houve na nossa aldeia outras casas ou casais agrícolas de bastante importância, tais como:
Casa/Casal da Coutada: Fica no caminho para o Gorgoço no lugar denominado “Coutada do Pisão”. A casa de habitação e as dependências encontram-se desabitadas desde 1925, hoje em ruina total, e as cerca de mais de 50 hectares de terreno agrícola circundante está há muitas décadas dividido em pequenas parcelas e vendido pelos inúmeros familiares herdeiros. Em 2016 foi vendida a última parte (1/3) dessa antiga habitação pela proprietária trineta materna oriunda da família Ferreira a Abílio Madaleno do Gorgoço, onde no ano anterior já tinha adquirido a parcela dos 2/3 que já não pertenciam há uns anos a esta parte a descendentes.
Esse enorme casal da lavoura, de nome Coutada, mais concretamente “Coutada do Pisão” mas que a maior parte do povo lhes ainda continua por lapso a chamar por “Coitada”, foi antigamente propriedade por compra de João Evangelista Fernandes, falecido por volta de 1918 com cerca de 85 anos de idade e oriundo de Carção/Vimioso, mais conhecido na redondeza por “ “Cego da Coutada” (por ter perdido uma vista) e esposa Carlota Ferreira, senhora já de posses e oriunda de Tinhela (meus trisavós maternos). Para além desse valioso património eram ainda possuidores em Stª. Valha de mais três casais, um com casa no bairro da Igreja parte dela em ruina total e a restante metade construída de novo, ambas hoje da mesma pessoa mas não da antiga família, e outro no bairro do Sobreiró e ainda um outro em Tinhela também com habitação.
Dizem que esse senhor João Fernandes, falecido por volta de 1918, chegou a ser na altura o séptimo mais rico a nível individual da comarca de Valpaços e que se podia deslocar de Santa Valha a Tinhela sem pisar naquilo que era dos outros. Dizem ainda que nas duas freguesias chegou a possuir mais de 100 hectares de terrenos e montes agrícolas e que, para além de muito ricos, de cevarem anualmente mais de dez porcos para consumo próprio e de terem muitos criados, os mesmos, antes de serem admitidos ao trabalho, tinham primeiro de comer e, se comessem bem, estariam aptos para trabalhar, caso contrário, se não serviam para comer, ainda menos para trabalhar.
Ainda outra das muitas peripécias dele que me contaram: Preferia que lhe morresse um animal de trabalho do que um rato em casa à fome, que seria sinal de casa vazia ou nenhuma abundância da lavoura em casa. Terem sido também boas pessoas, particularmente a esposa Carlota, senhora de grande generosidade que faleceu antes do marido com a bonita soma de 97 anos. Os filhos legítimos que tiveram só herdaram o apelido da mãe “Ferreira”, desconhecendo-se o motivo porque não se vieram a apelidar “Fernandes”, seu pai, como era habitual.
Casa/Casal de Dª. Margarida Sarmento no bairro dos Ciprestes: de nome verdadeiro Margarida Isilda Calvão Ferreira de Macedo Sarmento (filha de Maria Augusta Magalhães Calvão, falecida em 1946 com 84 anos de idade) falecida com 80 anos de idade na Irmandade de Nª. Srª. do Terço e Caridade, do Porto, onde era irmã vitalícia. Essa bondosa senhora conhecida na nossa aldeia por mulher dos pobres e que dava, tal como os restantes casais, muitas jeiras de trabalho a ganhar, foi casada (19/01/1920) com o capitão Luís António Bento Pereira, então Alferes de Infantaria nº.19, natural de Barreiros, sendo seu pai Joaquim Bento Pereira de Barreiros e sua mãe Adelaide Sofia de Encarnação de Gorgoço. Não deixaram filhos.
Hoje a principal propriedade junto à habitação, conhecida por todos por quinta, que vai da habitação até ao lugar acima do Cruzeiro ou capelinha do Senhor da Boa-morte está dividida em três parcelas, assim: herdeiros de Manuel Barreira e esposa Margarida Silva; José Domingues e esposa Conceição e ainda António José Teixeira. Quer a casa e quinta contígua, quer outros terrenos e montes espalhados, foram vendidos a particulares pela própria um pouco antes de falecer e de ter saído de Stª. Valha para o Porto por volta de meados da década de 60 do século passado.
Casa/Casal de Dª. Helena Lobo Fernandes no bairro do Pontão: Dª. Helena, falecida no início da década de 2000 na cidade de Chaves, foi casada com José Clemente Fernandes falecido ainda relativamente novo, advogado de profissão e deputado em/por Vila Real, provavelmente pelo antigo partido Regenerador. Gente de bem e muitas posses de então.
Contou-me, quem ainda conheceu o Dr. Fernandes, que mandou plantar por volta de finais da década de 1930 duas enormes vinhas com cerdeiros nas suas propriedades dos lugares do Cesteiro, que confronta com o caminho que liga o bairro do Pontão à estrada para Pardelinha, e do lugar da Maceira, onde agora está instalado o campo de futebol, plantações essas só para dar trabalho de jeira á gente pobre da aldeia, onde, nessa época, a pobreza e a fome eram terríveis devido acima de tudo à instalada Guerra Civil da vizinha Espanha com gravíssimas consequências para o nosso país. Um pão de centeio de quatro ou cinco arráteis, que equivalia a pouco mais de dois quilos custava nessa altura trinta escudos, equivalente a três jeiras diárias de sol-a-sol um homem. O pombal na propriedade do Cesteiro, hoje em ruínas, foi construído nesse tempo.
Foi a Junta de freguesia com o apoio do Município que em meados da década de 1970 comprou à Dª. Helena a vinha com cerejeiras para construir o actual campo de futebol, vindo a falecer na sua residência senhorial de Chaves onde habitualmente residia que tinha no cimo da rua de Stº. António com esquina para a rua do Jardim do Bacalhau, penso que por volta do início da década de 2000.
Para além do importante património agrícola em Stª. Valha, parte dele já vendido há muitos anos, tinham ainda um casal em Chaves e outro no concelho de Vinhais.
Há ainda quem se recorde de terem duas vacas leiteiras de raça turina que forneciam o leite para venda a uma outra família de mais posses na aldeia, à semelhança da Quinta dos Ciprestes que também dizem ter tido duas nessa época.
A casa e a restante quinta ou cortinha contígua de Stª. Valha ainda se encontra hoje na posse da família herdeira.
De todas essas casas ou casais agrícolas com vários caseiros ou feitores ao longo da existência, só o do “Cego da Coutada” e da Dª. Margarida Sarmento é que foram geridos pelos próprios proprietários enquanto vida, sem bem que o da Dª. Margarida chegou a ter um feitor a residir na sua própria habitação.
Jeiras, Jeireiros e outras peripécias:
Até ao final da década de 1980 havia na nossa terra muito trabalho no campo. As máquinas agrícolas eram ainda muito poucas, e os nossos lavradores mais abastados, davam muitas jeiras a ganhar, não sentindo dificuldade nenhuma em conseguir mão-de-obra barata, havendo, sempre, mais oferta que procura.
Por volta de 1935/1936, o preço da jeira ou jorna diária do homem era cerca de 3$00 ou 6$00 (escudos), a comer ou a seco. A mulher ganhava 1$50 e 3$00. Em 1962, o preço da jeira diária de enxada a seco, era de 20$00 (vinte escudos) para os homens e 17$00 (dezassete escudos) para as mulheres (0,10 e 0,085 cêntimos do euro).
Em 1975, o preço da jeira diária variava entre os noventa e os cem escudos (0,45 ou 0,50 €), e a jeira tinha início no campo antes do nascer do sol, ou seja: os obreiros, jeireiros ou jornaleiros do campo começavam a trabalhar desde o nascer-do-sol e despegavam ao pôr-do-sol, ou ainda mais tarde, quando do “toque das trindades” ou “Ave-Marias” do sino da igreja, de acordo com a exigência do patrão. Também o toque das Trindades era o relógio de ponto dos que não tinham relógio e hora de recolher a casa para os não adultos.
Antes de nascer do sol ou romper da aurora, os trabalhadores tinham que já se encontrar em casa dos patrões com as suas ferramentas de trabalho, para “medir o vinho”, oferta obrigatória do patrão. Esse vinho era medido directamente da pipa para as cabaças ou do tonel quando já nas fundagens antes da limpeza das borras e a medida era uma “canada” (dois litros), por dia completo de trabalho. Se porventura, fosse só meio-dia de trabalho, era dada meia canada (um litro).
Havia alguns patrões menos escrupulosos não tinham vergonha na cara em dar aos jeireiros vinho com gosto a coveiro (madeira podre), vinagre ou até mesmo já prensado das borras das pipas. Essas borras do fundo das vasilhas, já um pouco avinagradas pelo tempo na vasilha, eram normalmente colocadas dentro de sacas de lona ou sisal e penduradas numa trave de madeira à espera que escorressem lentamente para depois esse vinho mais (a)vinagrado ainda ser bebido pelo pessoal da jeira.
O matabicho – agora pequeno-almoço – comido no monte, que pouco mais passava de uma côdea ou cibo de pão centeio com uma “talhada” de carne gorda frita na sertã, ou na melhor, um ovo frito, a maior parte das vezes dividido por mais do que uma pessoa, era comido por volta das 8 horas normalmente quando passava a carreira (autocarro) a caminho de Valpaços, momento de referência horária, já que quase ninguém tinha o privilégio de usar relógio nesse tempo. O almoço, na época mais conhecido por “jantar”, já que à noite se chamava “ceia”, era transportado para o monte pelas mulheres à cabeça dentro de uma cesta de verga. A bucha da tarde ou merenda – agora lanche – era de alguma coisa que sobrava ou deixava ficar do almoço.
Os garrafões de 5 litros de vidro, muito escassos, só começaram a aparecer na nossa aldeia em finais da década de 1960, e o revestimento do vidro era feito em verga, tipo palha; mais tarde, meados da década de 1970, é que apareceram os primeiros com revestimento em plástico.
Anteriormente havia só bilhas de barro para a água e garrafões feitos também de barro para o vinho, normalmente de cor preta, com capacidade equivalente a (+-) uma remeia (6 litros = 3 canadas), e em vidro, com revestimento de verga, com capacidade de 16 litros, equivalente a 8 canadas, ou 32 quartilhos, como se dizia nessa época. Só possuía este tipo de vasilhame a gente com mais posse.
Todavia, o transporte do vinho e azeite para outras localidades era efectuado em obres carregados em cima dos animais de carga, normalmente feitos de pele de cabra. Depois da década de 40 o vinho em pipas começou progressivamente e/ou lentamente a deixar de ser transportado em carros de bois.
Outrora, nos vasilhames de maior capacidade, tais como ânforas feitas de barro e, mais tarde, de chapa de zinco, era colocado um pouco de azeite para o vinho não azedar/vinagrar. O azeite, como é um líquido mais leve do que o vinho, vinha ao cimo da ânfora e revestia/cobria todo o vinho. Este, como não apanhava ar, não envinagrava até se acabar de tirar todo pela torneira do fundo da vasilha.
No nosso meio rural os garrafões de 5 litros eram também conhecidos por outros nomes, como por exemplo: Vergas; Palhinhas; Faustino; Kodak Português, etc. As restantes medidas de capacidade de líquidos, como: cântaros, remeias e regadores, eram todos eles fabricados em chapa de zinco.
Havia alguns patrões que davam o mata-bicho ou desenjoar aos jeireiros/trabalhadores que chegassem a casa deles antes do nascer-do-sol ou romper do dia. Normalmente tratava-se de um copo de aguardente, cachaça como era tradicionalmente falado, e um punhado com meia dúzia de figos secos. Quem chegasse atrasado, ou seja: um pouco depois de nascer do sol, alguns patrões (poucos) já não “mediam” o vinho aos jeireiros. Enfim, sempre os mais frágeis, particularmente os mais pobres e necessitados a serem castigados por esse atraso mínimo.
Ouvi dizer que até chegou a haver na nossa terra um proprietário agrícola (patrão) residente no bairro do Pontão, que por vezes levava a pé (com a rédea) para o monte o cavalo com a albarda aparelhada e ao lado seguia o criado ou jeireiro com a charrua às costas. Também no mesmo bairro, um outro, que por vezes guiava a pé com a rédea o burro(a) para as suas propriedades de Valbemfeito e a albarda em vez de ir em cima do animal, ia encartada às costas do dono. Enfim, tempo de gente pobre e submissa aos mais abastados ou poderosos.
Em 1951, o preço do litro do vinho, variava entre os 2$00, ou 2$50 (pouco mais que um cêntimo). Era costume dizer “2$50”: dois e quinhentos, ou: vinte e cinco tostões, ou: dois escudos e cinquenta centavos.
Havia ainda nesse tempo, alguns (poucos) proprietários menos escrupulosos na nossa freguesia, que na limpeza das pipas do vinho, aproveitavam as borras, metiam-nas dentro de um saco de lona e penduravam-no numa trave para as espremer (prensar, como se dizia). Esse vinho, já por vezes bastante acidulado (envinagrado), era dado aos jeireiros/obreiros, para o dia de trabalho.
Só a partir do final da década de 1970 é que se deixou de trabalhar à jorna (jeira) diária de sol-a-sol. Havia nesse tempo as merendas, que só começavam a 25 de Março por já serem dias de trabalho bastante longos. Esse dia era conhecido na zona rural como o dia da Srª. das Merendas. A partir do dia 3 de Maio havia já duas horas de intervalo para o período do almoço e descanso.
Até por volta de meados da década de 70, houve na realidade bastante miséria, com maior incidência, como é óbvio, nos mais pobres e necessitados, a grade maioria do povo, sobretudo no que diz respeito ao vestuário e alimentação. No tocante à esta última, valia mesmo a carne gorda do porco salgada, oferecida pelos lavradores proprietários mais abastados que sobejava, comida cozida ou em cru, por vezes até já um pouco rançosa (cor amarelada) do tempo, ou outra, como, por exemplo, o “enguião”, que é uma tira grossa de carne “gorda” do lombo porco (suã) de aproximadamente um metro e tal de comprimento e de 6/7 centímetros de espessura, extraída do rabo até ao cachaço do animal, que nesse tempo se costumava pendurar no tecto por causa dos ratos, a fim de ser comida aos bocados, cozida ou até mesmo crua. Se o enguião do porco não tivesse, pelo menos, uma mão-travessa de espessura de carne gorda, diziam que o porco era fraco.
Os chíchar(r)os (feijão frade) cozidos com couve galega no dia-a-dia. Quando a não havia no início do verão, servia mesmo a rama da batateira mais tenra, onde a maioria dos pobres, particularmente com mais filhos, comiam todos do mesma travessa centrada na pequena mesa, não sendo necessário contar pequenas histórias ou contos aos mais pequenos para lhe abrir o apetite. Essa travessa de comida para todos era varrida num ápice. Era quase sempre o filho mais novo da casa que lhe era incumbida a tarefa de ir buscar a pota do vinho à pipa quando havia, mas quando chegava à mesa, já a travessa ia a meio. A maior parte das vezes os chícharros eram peguilhados com pimento, tomate, pepino, feijão-verde, malaguetas, tudo curado no vinagre em talhas de barro, pois não havia outra coisa, mas era os pimentos os demais fartura.
Do mesmo modo acontecia em cima da côdea de pão centeio à merenda, onde também umas areias de sal em cima desse peguilho vinagrado davam melhor paladar. Uma racha (acha) de bacalhau cru salgado quando o havia ou um tomate ou pepino rachado no verão com umas areias se sal para abrir o apetite ao vinho. O colesterol, tensão arterial, ácido úrico e a diabetes não faziam parte das doenças das pessoas, por serem desconhecidas de quase todos, apesar de existirem.
Havia antigamente umas travessas em barro, mais tarde em alumínio e depois já em esmalte, às quais o povo lhe chamava também de “fontes”, por serem fundas e com um rebordo na base para não escorregar na mesa quando as pessoas introduziam os garfos para comer em conjunto, ou seja: todos da mesma fonte. Os garfos eram todos fabricados em ferro e algumas pessoas costumavam alargar-lhes os dentes para carregar mais comida. Enfim, tempos ancestrais que deixaram poucas recordações a muitas pessoas que carregaram às costas esse tempo de pouca ou até nenhuma abundância.
Voltando a alguns ingredientes comestíveis silvestres, até mesmo as pútegas (púrtigas como muitos lhe chamavam), minúsculos frutos adocicados de cor amarela e arredondada que se dava no monte nas raízes dos pés dos charguaços ou estevas de flor branca, fazia parte da alimentação dos mais pobres. Não esquecendo todavia, os “grijós,” também um pequeníssimo tubérculo de um planta que em certa época do ano se dá no monte junto aos lameiros de alimentação do gado; as azedas, as maçacucas, que é flor/fruto ou gomo do carvalho, os colhões (quilhões) de galo das leiturgas e ainda outros sabores de vários outros arbustos e plantas silvestres. Excelentes petiscos (conduto) para o mata-bicho ou merenda dos mais jovens e até de adultos de antigamente, particularmente até meados da década de 70.
Ainda as amoras das seculares amoreiras da minha avó materna, Laudemira Ferreira da Cunha (Cagigal) no cimo do bairro do Sobreiró que ainda hoje existe (2014) e de Francisco (Mofreita Reis?) no início da rua do bairro de Stª. Maria Madalena, antigamente denominado só “Madalena” já derrubada pelo falecido senhor Francisco Mofreita em meados ou finais da década de 70 por influência de um vizinho próximo, Dr. Luís Lopes. Esta última era a mais importante, já que era quase pública, de melhor trepar e ficava mais á mão.
Atendendo que nessa altura os casais tinham muitos filhos, a invernia era longa, dura e com pouco trabalho, e a comida em casa era muito pouca, já com uma sardinha a ser repartida por dois ou até três da casa, a maior parte dos jeireiros do trabalho do campo iam pedindo emprestado aos patrões durante todo o ano vários produtos para beber e comer, tais como: vinho, azeite, cereal, feijão, chicharros, etc.. Enfim, estavam quase sempre penhorados nos lavradores proprietários do empréstimo que lhe davam a maior parte do trabalho ao longo do ano. Para alguns desses mais podres e necessitados e ainda carregados de filhos em casa, até a palha para encher o colchão onde dormiam era dos palheiros dos outros. Mas essas pessoas eram felizes nas suas casas tão modestas quanto elas.
Porem, se havia algum deles que matava um porco (céba), os presuntos, as mãos de carne magra e até parte da pequena ramada de chouriças de carne que esteve pendurada nos lareiros junto à fuga era para vender para comprar um pequeno porco (reco) para o engordar durante todo o ano e ainda para as batatas da semente, a maior parte das vezes semeadas em pequenos terrenos ou poulas (terras menos férteis) de alguns proprietários que os emprestavam com o intuito único de lhe estrumarem alguma terra e até mesmo cobrando-lhe ainda parte dos produtos colhidos. Só havia nessa altura uma industria na aldeia que ia dando umas jeiras durante um curto período de inverno, que era o largar de fazer o azeite, prensa como lhe chamavam, mas era só para uma dezena deles, quase sempre os mesmos a trabalhar na casa.
Sempre houve algumas jeiras específicas mais bem pagas, ou acima da média (do que as de enxada), com as do trabalho de pedreiro, enxertia, ceifa e extracção de cortiça. Recordo aqui alguns bons enxertadores: “Zortor”, João e Arménio Vieira, todos já falecidos, e ainda, Filipe Nascimento “Palheiras” e Agostinho Mosca Pires “Nascimenta”, entre outros.
Hoje (2010), na nossa aldeia, só uma dezena de trabalhadores (jeireiros) sobrevivem destes trabalhos do campo, mas já sem as necessidades económicas desses tempos, e o medir da “canada do vinho”, passou para memórias de outros tempos. O preço da jeira diária (de enxada) é 40 euros, para as mulheres, e 50 €, para os homens.
Quanto ao preço do vinho no lavrador/agricultor, este não tem acompanhado o custo dos produtos agrícolas e, acima de tudo, o valor pago pelas jeiras aos trabalhadores, estando neste momento entre os 5/6 euros o preço do garrafão de 5 litros; motivo pelo qual se tem traduzido num substancial abandono das vinhas por parte dos proprietários agrícolas, não falando ainda, é claro, no valor do preço das uvas pago a estes por parte da Adega Cooperativa, que ainda é bastante inferior ao vinho vendido directamente pelo agricultor.
Resta dizer que não podemos mudar a história desse tempo passado, mas podemos sim torna-la sempre muito melhor.
Apanha da Azeitona:
Esta apanha foi sempre feita com o esforço humano, se bem que havia quem o fizesse de forma diferente.
Até finais da década de 1950, alguns lavradores mais abastados, apanhavam a maior parte da azeitona das oliveiras ripada à mão, com ajuda de escadas de madeira (bem altas) e cestos de verga para não aleijarem ou “ferirem” as corpulentas oliveiras dessa época, muitas delas já milenares. A maioria e de menos posses utilizavam a vara de varejar e varejavam a azeitona para o chão/terra. Contaram-me, que os primeiros toldos feitos de lona (de pequena dimensão:2mx2) para a apanha da azeitona, só começaram a aparecer também em finais da década de 1950, e que os primeiros vistos na Freguesia foram comprados pela falecida Dª. Albertina Cunha, mais conhecida por Dª. Tute, na altura residente no bairro do Pontão. Na casa de lavoura da aminha avó materna Laudemira Cunha ouve nesse tempo alguns feitos de restos de lã de ovelha e estopa mandados fazer por ela no tear da mãe da senhora Marquinhas Pereira (Vila) do bairro dos Ciprestes, assim como também sacos de recolha de produtos agrícolas.
A partir do início da década de 1980, começaram a aparecer as primeiras limpadoras de azeitona fabricadas nas vulgares serralharias em verguinha de ferro num sistema artesanal, que vieram substituir as pás de madeira e que só em dias de algum vento é que podiam funcionar para eliminar ou retirar as folhas da oliveira. Todo esse trabalho foi mais tarde substituído, quer pela Cooperativa dos Olivicultores, quer pelos lagares particulares com as novas tecnologias implementadas, a partir de finais da década de 1990 ou início de 2000.
Por volta do ano 2001, apareceram também as primeiras máquinas a gasolina de varejar. A primeira foi adquirida por Sidónio Costa do Bairro do Sobreiró, e a segunda, um ano mais tarde, por Simão Domingues do Bairro dos Ciprestes. Hoje já existem bastantes na freguesia.
Até finais da década de 1980, era costume em todas as aldeias, após algumas colheitas agrícolas, os mais necessitados, irem pelos campos, fazer um aproveitamento de alguns frutos que ficaram na terra, não apanhados, ou vistos, pelos proprietários; a estas sobras, chamava-se: “Rebusco” e “Galela”. Com o fecho das tavernas/comércios e da melhoria das condições de vida das pessoas, acima de tudo, dos mais pobres e necessitados, este aproveitamento salutar foi-se perdendo.
O “Rebusco”, era a azeitona (bagos) aproveitada nos olivais depois da apanha. Os mais novos, vendiam-na ao quilo a alguns comerciantes/taverneiros, para arranjar uns tostões, ou mesmo escudos, destinados a pequenos gastos pessoais; os mais velhos, ou a vendiam aos mesmos comerciantes para ajudar nalgumas despesas do lar, ou aproveitavam-na para a trocar no Lagar/Prensa, por azeite. Havia comércios nessa época que chegavam a comprar mais de uma tonelada de azeitona só do rebusco, nomeadamente o dos Senhores: António Teixeira, Adelaide Astorga, Xico Volante, e mais tarde, o de Adelino Melo Alves e Domingos Mosca Pires.
Em finais da década de 1960, o preço do quilo de azeitona do rebusco pago pelos comerciantes, variava entre 2$00 e 3$00 (escudos), agora (0,01 e 0,015 €). No início dessa mesma década o quilo do rebusco era pago entre $50 e $70 centavos (0,0025 e 0 ,0035 €).
Também havia o “Rebusco das Castanhas”, que era feito depois da apanha e dos castanheiros “Soutados” pelo proprietário, sempre após o dia 1 de Novembro (dia de Todos -os- Saltos), mas neste caso era só para comer. Santa Valha nunca foi terra de muitos castanheiros. Os poucos soutos que havia, encontravam-se a norte do(s) Outeiro(s) do Abade, mais propriamente nos lugares do Calvo, Sandim, Castelo, Monte Cerdeira e Semuro, termos mais altos e frios da aldeia.
A “Galela”, era (pequenas) uvas que ficavam nas vinhas depois de o agricultor vindimar e que davam, por vezes, para fazer um pipo de vinho aos que não as tinham.
Lagares de Azeite:
Outrora chegaram a existir em Stª. Valha quatro lagares de fazer o azeite, todos eles artesanais. Dois, puxados por animais, ambos no Bairro dos Ciprestes, pertencentes: um, inicialmente a João Evangelista Fernandes, conhecido por Cego da Coutada, herdado mais tarde por dois dos seus filhos João Moura (pai da falecida minha prima Aglai Ferreira Moura, neta de João Evangelista Fernandes), que vieram a vender metade a João José Cardoso, mais tarde só a João Cardoso vulgarmente conhecido por João Ribeiro, amos vizinhos, e, o outro: à casa dos Ciprestes (Sarmentos). Hoje, essa casa solar ou quinta, só já possui 1/10 das propriedades agrícolas de então, nomeadamente olival, vinha e outras poucas de sequeiro. Está actualmente transformada em turismo em espaço rural e/ou de habitação. Ambos faziam o azeite também de lavradores particulares.
No início da década de 1960, os dois puxados por animais, fecharam a actividade; este último, dos Ciprestes, por ter sido destruído por um incêndio, que diziam, ter sido provocado um cigarro de um criado mal apagado. Os restantes dois, já no sistema industrial, um deles de Manuel Nascimento Barreira, no Br. dos Ciprestes e o outro, de Raul Victor Videira, no Br. da Maceira ou Maçaira. O primeiro, o de Manuel Barreira, iniciou a actividade ainda na década de 1940 e encerrou definitivamente por volta de 1966. O segundo, de Raul Videira, iniciou a actividade em meados da década de 1950, vindo a encerrá-la nos finais da década de 1960, ou início de 1970. (Ver Link-Economia).
O preço do almude (25 litros) de azeite no lavrador em finais da década de 1980 variava entre os 24 e 25 contos, equivalente a 120 e 125 €. Hoje, passados trinta anos, o preço é inferior e a qualidade do azeite é muito superior, tendo em conta as novas tecnologias em vigor, quer a nível de higiene, quer no sistema de extracção, incluindo a acidez do produto. Enfim, coisas da nossa actual política agrícola comunitária em que estamos agora inseridos.
Último Lagar de Vinho Artesanal, com Prensa e Fuso de Madeira:
Pertenceu a João Atanázio do bairro dos Ciprestes e datava de 1856, anterior habitação de Maria Ferreira, mais conhecida na aldeia por “Ferreirinha”. A prensa e fuso de espremer o bagaço de madeira foram retirados pelo senhor João em 2007, restando só o lagar em pedra. Até à década de 1960 as uvas sempre foram pisadas pelos pés dos homens. A partir dessa data, Alice Fernandes e Arnaldo Domingues (Augusto Simão), compraram os primeiros esmagadores de uvas manuais, mas, era necessário, muita força humana para os conseguir mover. Hoje, apesar de já haver muitos eléctricos e a Adega Cooperativa para os agricultores associados, ainda se continua a manter a velha tradição de pisar as uvas com os pés dos homens. Até início do século XX, Santa Valha pertenceu à área/zona vinícola demarcada do Douro, tendo em conta a qualidade castas produzidas e o micro-clima existente, contribuindo desse modo, para excepcional qualidade do produto.
Santa Valha marcou desde sempre a diferença no portfólio dos vinhos do nosso concelho.
Alambiques de Destilar:
Esta indústria artesanal caseira foi até final da década de 1980 muito próspera na nossa aldeia. Existiram sempre a laborar muitos “potes de destilar” como eram, e ainda hoje são conhecidos por nós. Eram aquecidos a lenha e quase todos os bons lavradores, tinham esta indústria caseira. Com a adesão progressiva dos nossos lavradores à Adega Cooperativa, e ainda à nova e rígida legislação/lei Comunitária que entrou no país conhecida como: “a lei do álcool,” esta tradição caseira, perdeu-se quase na sua totalidade. Hoje só resta três ou quatro particulares a acender o “pote”, mas só para consumo de casa.
Corticeiros:
Nos montes da nossa terra sempre existiram muitos sobreiros. Hoje já poucos restam, devido aos incêndios que desde a década de 1980 que têm destruído a nossa floresta. Lembro aqui alguns nomes de conterrâneos corticeiros que trabalharam nesta profissão ao longo do século passado: “Ti” Vila Real e filhos, Artur e Toninho Pereira; João Atanázio “Polino”; Luís Pereira e outros mais. No tempo destes, a cortiça era extraída à comissão ou de meias. Mais tarde, os irmãos “Periquitos”: Berto e Toninho Moreiras, Toninho Rodrigues e Zé Moreiras, Artur Rolo, etc., mas com o trabalho já remunerado a dinheiro. Negociantes na nossa freguesia: Manuel Barreira, Domingos Mosca Pires e Gabriel Quintela (Cruz).
Pastores e Rebanhos:
Dizem os mais idosos ainda de boa memória, que nas décadas de 40 e 50 do século passado (XX) chegaram a existir só na nossa aldeia, dezassete rebanhos de ovelhas, carneiros e cabras, todos eles, propriedade de lavradores mais abastados, não falando, é claro, de uma ou duas cabras ou cordeiros para engorda que quase todos os pobres tinham em casa, a maior parte para vender. Há ainda uma ou outra pessoa que diz ter ouvido aos mais velhos, que foram mais e que foram esta forma: vinte e dois rebanhos e uma cabrada, mas que alguns desses não eram mais do que pequenos “tagalhos”. Existem registos de que no tempo do Concelho de Monforte de Rio Livre, em Santa Valha existiram catorze rebanhos de gado.
Pastores e rebanhos pernoitavam a maior parte do ano no monte. Essa pernoita servia para os rebanhos de ovelhas e cabras poderem estrumar (adubar) as terras de cultivo. Os rebanhos eram recolhidos entre cancelas. O povo chama a isso, “cancelar”.
Aos cães de guarda os pastores colocavam coleiras de cabedal com picos de aço para se poderem defender dos lobos, visto ser nessa parte do corpo onde os lobos atacam primeiramente as suas presas. Era costume antigamente os pastores dizerem o seguinte: O “piego” anda por perto.
O dormitório ou abrigo nocturno do pastor era em carretos feitos de madeira (em triângulo) normalmente com cobertura de palha de centeio e algumas tábuas de madeira. Mais tarde, década de 70 ou 80, já um ou outro com cobertura de chapa de zinco. Essa estrutura era de fácil transporte de uns locais para os outros. Normalmente era feita em cima de carros de bois, onde a palha de centeio estendida no chão do carreto servia de colchão. Recordo aqui alguns nomes de pastores da nossa terra, não só desse tempo, como mais recentes: Rocha; Anastácio e filhos; Augusto Mairos e filhos; Mário Picamilho; Manuel Jesus Mata, conhecido por Manuel “Ligeiro”; irmãos: Adamastor, Arménio e Zé Miguel, entre outros. Atendendo à enorme pobreza e necessidade nessa época, muito raramente se encontrava um pastor dono do seu rebanho de ovelhas ou cabras. Era raro o pastor que não soubesse tocar realejo tendo em conta a solidão desse trabalho.
Em 2010, só existem oito rebanhos de gado de ovinos em toda a nossa freguesia: dois em St. Valha: Qtª. da Teixogueira (Manuel), e o de Aníbal Picamilho. No Gorgoço também dois: Abílio Madaleno e Pardal, e em Pardelinha, quatro: dos irmãos Serras (Miguel, Armando e Artur) e o de José Joaquim Fontoura Lopes.
Recordo aqui o seguinte: Antigamente, depois da tosquia, que normalmente se fazia (tal como hoje) no período de finais da estação da primavera, a lã de ovelha, antes de ser trabalhada, passava por várias fases, assim: lavada, escarduçada e fiada com a ajuda de uma roca, de um fuso e parafusa (que servia para juntar os dois fios e fazer o novelo). Para fazer um par de meias, vulgarmente conhecidas por “carpins”, eram utilizadas quatro agulhas finas. Em uma ou outra casa agrícola mais importante com gente que tivesse jeito para a costura havia quem tivesse, dobadoura para fazer as meadas e/ou o sarilho para fazer os novelos em redondo. Tudo peças artesanais em madeira. Recordo-me perfeitamente de na casa da minha avó materna Laudemira Ferreira da Cunha haver essas tais duas peças.
Até finais da década de 1960 ou início de 70 quando das nevadas e nevões, uma grande parte dos rebanhos da parte mais alta da redondeza, particularmente das aldeias de Monte de Arcas, Fiães, Pardelinha e até um ou outro de Vilarandelo, eram trazidos pelos pastores para a o termo mais fundo de Santa Valha onde a neve não atingia a mesma espessura para o gado se poder alimentar e pernoitar enquanto durava a neve. Era uma forma de transumância onde o gado vinha do termo mais alto para o mais baixo. Recordo-me perfeitamente, de nesse tempo, a neve ter atingido na nossa aldeia uma ou outra vez mais de quarenta centímetros de altura. Ainda há quem se recorde dos falecidos irmãos pastores Adamastor e Arménio Fontoura usarem capas feitas de palha para se protegerem da invernia, particularmente da chuva.
Deixo aqui um termo antigo usado pela maior parte dos pastores quando iam tirar o gado da corriça, curral ou cancelas e levá-lo a comer no monte: Bou botar ou deitar o gado. Outros termos uzados: Chiba, chibinha/o, nome dado às cabras adultas e jovens. Ainda, Chibo: nome dado ao bode. Canhona, ovelha já com bastante idade. Piego: nome que o pastor atribuía ao lobo quando esfomeado.
Primeira Malhadeira de malhar centeio:
Antigamente as tarefas da ceifa, mais conhecida entre nós por segada, e a debulha, por malhada, eram ambas feitas à mão. Foi por volta de 1943 que apareceu na nossa aldeia a primeira malhadeira de malhar (centeio) cereal. Esta máquina industrial de marca Tramagal pertenceu em sociedade a Vasco Proença de St. Valha e a Olímpio Seca (médico) de Vilarandelo, este último com terrenos agrícolas em Pardelinha herdados de seu sogro, João António de Castro. Mais tarde, 1955, Arnaldo Domingues, também conhecido por Augusto Simão, veio a adquirir outra.
Todas estas pequenas máquinas eram movidas com ajuda de um motor a gasóleo marca “Lister”, transportadas para as eiras com a força das juntas de bois, mas que não limpavam o cereal. Era por isso necessário recorrer a umas máquinas limpadoras movidas manualmente e conhecidas por “Tarara”, a maior parte delas de fabrico Inglês: uma pertencia, a “Domingos do Padre” ex-Regedor e outras duas, a Benjamim Picamilho. Também o Professor Carolino Augusto Afonso teve uma na sua Quinta da Teixogueira, hoje propriedade de museu de Paulo Jorge Teixeira do bairro do Sobreiró por troca de trabalho de carpintaria e o Casal/Solar dos Aciprestes teve outra, mas estas só para serviço dos próprios. Ouvi dizer também que a máquina propriedade da Casal/Solar dos Aciprestes tinha sido anteriormente de Benjamim Picamilho e que já não existe para recordação e memórias por ter ficado muitos anos ao abandono no curral perto dos animais.
A partir do início da década de 1960, com a entrada destas máquinas, as malhadas com malhos nas eiras, foram acabando. Seguiram-se posteriormente outras já mais modernas em todos os aspectos, que tinham normalmente a marca “ São Romão do Coronado”, mecanismo movido por correias já com a ajuda de um tractor. Penso ter sido até finais da década de 1980, ou início de 1990. Pertenceram ao filho do Sr. Augusto, Gilberto Domingues, chegando a possuir duas ao mesmo tempo e a ser o único durante muitos anos a prestar serviços com estas máquinas na nossa freguesia e não só.
Por volta de 1995 Armindo Lampaça Parauta comprou uma malhadeira em segunda mão, já bastante desgastada das inúmeras pousadas (1=5 molhos = 1 alqueire) de centeio que malhou anteriormente. Chegou ainda na sua mão a malhar algum centeio (pão, como se dizia) de alguns ainda resistentes deste sistema de cultura agrícola. Os últimos serviços de malhada que fez foi na eira das Lages em Santa Valha, e numa eira em Fornos do Pinhal, local este, onde veio a sofrer um acidente e a ficar bastante estragada, não compensando reparação. Foi de imediato transportada para St. Valha, onde veio a apodrecer numa propriedade agrícola e a servir de memória para este capítulo de conto de datas, memórias e recordações. Foi esta a última malhadeira que malhou/debulhou na nossa freguesia.
O fim da actividade destas “ malhadeiras”, deveu-se ao facto de aparecerem no mercado as novas e modernas ceifeiras já equipadas para ceifar (segar, como de dizia antigamente e ainda hoje muitos continuam a dizer), malhar, limpar e pesar, e ainda, e sobretudo, a enorme redução das sementeiras de cereais, por parte dos nossos agricultores. Recordo aqui um bom trabalhador e especialista em “meter” molhos de palha de centeio na malhadeira: O saudoso Carlos “da Albertina”.
Desde 1974 e até finais da década de 1980, ainda chegou a existir também na aldeia, uma ou duas pequenas máquinas de ceifar centeio, que também apertavam os molhos, fazendo ainda, com a ajuda de outra lâmina a “segada” dos fenos. Tinha um pequeno motor a gasóleo, e era manipulada por um homem a pé. A primeira pertenceu a Gilberto Domingues e a segunda, mais tarde, à família Parauta. O mesmo motor também a fazia mover através de duas rodas.
Anteriormente, até ao início da década de 1970, as ceifas (segadas) eram feitas à mão, assim como o centeio (pão) acarrado pelos animais de trabalho para a eira de malhar. Como havia poucas searas de centeio (pães) para segar na nossa freguesia, conhecida por zona de terra quente, os segadores juntavam-se em grupos de 5 a 10 homens, e até mais, mais conhecidos por camaradas, liderados por um chefe, a quem chamavam de capataz, normalmente a pessoa mais idosa do grupo e com mais jeito de liderança. Tinham que se deslocar a pé para outras aldeias de outras freguesias do Concelho onde houvesse mais trabalho, como: Monte de Arcas, Tinhela, Fiães, Quintela, Ervões, Etc.
Após o trabalho concluído nessas aldeias do nosso Concelho, seguiam também a pé para segar centeio e trigo em outras aldeias dos concelhos de Mirandela, Vinhais e Bragança. Houve ainda alguns que chegaram a segar em algumas freguesias do Concelho de Macedo de Cavaleiros, e até mesmo em Espanha, mais concretamente na zona da Raia, como nos contou um dos últimos segadores que integraram as camaradas, Luís Augusto Rua, na altura um jovem com 18 ou 20 anos de idade.
Contaram-me alguns segadores ainda felizmente na nossa companhia, que em finais da década de 1950, segaram e ataram em muitos locais da terra fria, como: Torre Dona Chama, Aveleda, Agrochão, Lamalonga, Ervedosa, Nogueira, Portal de Penhas Juntas, Edrosa, Melhe, Srª. da Serra, Lombada, Etc,. Etc., Etc., que esse trabalho de sol-a-sol era muito árduo, para só virem a receber uma jeira diária de 18$00 (dezoito escudos), equivalente hoje a 0,09 €. Acrescentaram ainda, que nas deslocações que faziam a pé, já que não havia transportes nessa época, tinham que carregar às costas, uma ou duas foices (ceitouras), a pedra de afiar, os dedais, e um saco de lona com uma muda de roupa e pouco mais. O calçado era uns socos/tamancos, que por vezes iam às costas para os não gastarem. Era o calçado que normalmente se utilizava nessa época.
Em 1958 o preço da jeira (jorna) diária era de 18$00 (0,09€); em 1964, era de 20$00 (0,10€); em 1970, era de 25 a 27$50 (0,12 € a 0,14 €) e, em 1972/1973, rondava os 40$00 (0,20€), foi o que recebeu Luís Rua e os seus colegas camaradas, um dos últimos jovens de Santa Valha que na altura tinha 18 ou 20 anos de idade a fazer este género de trabalho e que estava integrado numa camarada de segadores da nossa terra.
Entre muitos outros, referencio aqui alguns bons segadores/ceifeiros de que me falaram: José Augusto Rodrigues, mais conhecido por “Augusto Letras”; Quim da Teresa; Manuel Maria Modesto, mais conhecido por Floriano em virtude de sua mãe se chamar Maria “Floriana”; Ti Sá; Albertinho Fernandes; Carlos da Albertina; António Teixeira; Alberto Moleiro; Irmãos Capelas: Cândido e Manuel Catalão ; Armindo Cruz Pinto (Caliboi); João Atanázio “Polino”; Alípio Cardoso; Alípio Fontoura; Manuel Amendoeira; irmãos: Cesário e Zé Espiritosanto; irmãos: António “Periquito” e Amadeu Moreiras; Luís Pereira; irmãos: Júlio e Raul Pereira; Filipe Nascimento (Palheiras); irmãos: Luís e Aníbal Barreira; Manuel Barrosão, irmãos: Mário (da Clara), Augusto e Vicente Vergueira; Joaquim Rito; Heitor Tender; Manuel Rôlo; António e Raul Santos “Simplício”; Fernando Barreto Fernandes (Babau); Vicente Domingues; Adriano Garcia da Mata; Luís Atanázio (Polino), Etc. Mais tarde, e ultimamente: Artur Fontoura (Sá); Luís Rua; Fernando Pardal; Gentil Mosca Pires.
Havia também mulheres a segar centeio (pão) na nossa aldeia, mas só em ceifas de casa ou de ajuda a alguém amigo.
Primeiro Tractor Agrícola:
Início da década de 1960, de Manuel do Nascimento Barreira, de marca Massey-Fergusson 130 ou 135, de só de quatro velocidades (1ª., 2ª., 3ª. e marcha-a-trás). Arnaldo Domingues, Gilberto Simão Domingues (filho), também da mesma marca, Casa dos Ciprestes, marca Ford e João “Pedrinho”, marca Same, só apareceram uma década mais tarde e alguns até mais. Nos primeiros anos, o tractor do Sr. Manuel Barreira, foi sempre conduzido por pessoal da terra sem carta de condução. Recordamos aqui alguns tractoristas dessa época: Toninho Rôlo e filho Agenor, Luís Pereira, Mário Vergueira “da Clara”, Manuel Barrosão, entre outros.
Consta-se que nessa altura, alguns trabalhavam por vezes gratuitamente, só para conduzir o tractor. Hoje (2010) a nossa freguesia conta com perto de 80 tractores, mas só metade dos terrenos é que estão cultivados,..!?.
Também com o aparecimento destas modernas máquinas agrícolas, começaram a ser encostadas, as foices, “seitouras”, como ainda continuam a ser conhecidas no meio rural e os “dedais”, de protecção dos dedos das mãos, utensílios, que serviam para ceifar o centeio. A “gadanha”, e o “corno”, que servia para pendurar ao cinto a pedra de afiar molhada, destinados a “segar” os fenos para os animais de trabalho, foram progressivamente encostados, não falando, é claro, nos muitos animais de trabalho que deixaram de existir depois do início da década de 1980.
Recordo aqui o nome de alguns bons “segadores” de feno dessa época que trabalhavam à jeira: Carlos “Bandalho”; Zé Lino; Albertinho Fernandes; Mariano “do Regodeiro”; Floriano Modesto; José Augusto Rodrigues, também conhecido por “Letras”; Amadeu Moreiras “Pedreiro”; Rocha do Pontão; Raul e Júlio Pereira; Alípio Fontoura, António Teixeira; Néné; António Modesto (Tenente); e Filipe do Nascimento, também conhecido por “Palheiras”, por ser especialista na arte de cegar e atar, entre outros.
Nas segadas dos fenos, havia sempre um que “picava” as gadanhas ao longo do dia de trabalho, para que cortassem melhor o feno.
Já quanto aos “segadores” de centeio, quase toda a gente sabia fazê-lo, sem bem que havia alguns melhores, quer a cegar, quer a atar, e que lideravam as camaradas de segadores que partiam todos os anos (já depois das nossas) para ceifas (segadas) de outras localidades próximas da nossa terra, e de outras de outros concelhos vizinhos, mais propriamente do distrito de Bragança, da denominada terra fria, à procura de trabalho para juntar mais alguns patacos/escudos para as despesas do ano.
Havia também outras camaradas de trabalhadores que partiam todos os anos (décadas de 1960 e início de 1970), nos meses de Setº., Outº., e Novº. e início de Dezembro, para o arranque das batatas na região do Minho, mais concretamente na zona da Serra da Boalhosa, do Concelho de Ponte de Lima. Em 1960/1962, o preço da jeira diária desse serviço era de 18 a 20 escudos (agora 09/0,10 €). Contou-nos o conterrâneo Luís Rua que em 1972/1973 tinha 19 ou 20 anos de idade, que o preço da jeira que lhe foi pago no “arranque”, foi de (+/-) 60 escudos (0,30 €).
Contaram-me também outros arrancadores, que a maioria, tinha que levar de casa uma manta para dormir e um pote de ferro para fazer o comer, e que dormiam, ou em cabanais, ou em quartos ou lojas muito degradadas, a maioria sem o mínimo de condições. Os patrões só ofereciam simplesmente as batatas para comer. Os restantes alimentos e ingredientes eram comprados a cerca de 5 km de distância, onde, para o efeito, tinham que se deslocar a pé pelos montes ou por fracos caminhos trilhados pelas rodas dos carros de bois ou outros animais.
Alguns, entre muitos arrancadores da nossa aldeia de que me falaram terem ido para esse trabalho vários anos: irmãos: Cesário Espiritosanto; Mário Vergueira “da Clara”, Augusto e Vicente; Joaquim Rito; Adriano Garcia da Mata; Raul Simplício; Fernando Barreto Fernandes (Babau); António Contins e filho Amândio; Artur Sá; Luís Rua, Fernando Pardal, Elias Vergueira; Luís Mata.
Primeiro Motor de Rega:
O primeiro motor de rega na nossa aldeia pertenceu a José Gonçalves “Feijão” do bairro do Pontão, pai de Artur “Feijão”. Foi comprado no ano de 1950 e tinha a marca “Lausun”. Contaram-me, que no tempo das regas, antes de o pousar no chão para trabalhar, colocava por debaixo dele, uma cortiça e ainda um saco em lona para o estimar. Essa máquina, (moderna/novidade), de puxar a água, de polegada e meia, custou quatro mil escudos, (agora, 20 €), muito caro, (por ser enganado, – disse-me o filho Artur -), só funcionava a gasolina e o preço do litro na altura era de dois escudos e cinquenta cêntimos. A pequena manga, comprada mais tarde, era de plástico grosso de difícil manuseamento, material que agora é utilizado nas tubagens subterrâneas.
Um, ou dois anos depois, José Ribeiro, Claudina Ribeiro, Alice Fernandes, vieram também a comprar, mas já a funcionar a petróleo. No início da década de 1960, apareceram outros de marca “ Clinton” de: Francisco Rolo, Gualdino Nogueira, João “Pedrinho” e poucos mais, mas já muito mais baratos (mil e trezentos escudos). Os baldes dos poços, “cegonhas”, como são conhecidos, e os” garabanos”, começaram a ser encostados.
Última Junta de Bois de Trabalho:
A última junta de bois de trabalho, neste caso de vacas, a ser jungida (junguida) em St. Valha para trabalhar no campo, pertenceu ao falecido Fernando Alberto de Castro, do Br. dos Ciprestes. No início da década de 1990 vendeu essa junta de vacas, por já não ter forças suficientes para dar continuidade ao método de trabalho artesanal e os filhos não lhe virem a dar continuidade.
Tanto o carro de bois, como as alfaias e outros pequenos utensílios, jazem ao ar livre no pátio da sua casa em estado quase total de degradação. A penúltima “junta de vacas” de trabalho pertenceu à casa/família dos Parautas. Também a última parelha de burros a ser jungida (junguida) na nossa aldeia data da década de 80. Pertenceu a Artur Domingues Gonçalves, do Br. do Pontão, carinhosa e carinhosamente mais conhecido na aldeia por “Artur Feijão ou, respeitosamente, Artur Bombinho”.
Nas décadas de 1940 e 50 chegaram a existir só na nossa aldeia entre 18 a 20 juntas de bois e vacas de trabalho. Das inúmeras juntas que havia outrora em toda a nossa freguesia, hoje em dia (2018) só existe uma, em Pardelinha, pertencente ao senhor Augusto Lopes, mas já pouco trabalho de lavoura faz no campo. Ouvi dizer que noutros tempos só em Pardelinha chegou a existir 12 juntas de bois de trabalho e sete rebanhos de gado.
Carro de Bois:
O carro de bois, ferramenta ancestral de trabalho da lavoura até há duas ou três décadas atrás, é composto pelas seguintes peças:
Chedeiro: Pinalho – Chavelha – Chabelão ou Chavelhão; Estadulhos (5 de cada lado = 10); Travadoras dos Estadulhos (2); Ladranhos (2); Soalho; Travessas do Soalho; Treitouras (4); Cunhas das Treitouras; Coucões (2) e Eixo. Também os Cambos (2), um de cada lado, em madeira/pau de negrilho, destinados a travar os estadulhos, nos serviços da “acarreja” de fenos e palha. Ainda a argola em ferro num dos lados do carro que serve para pendurar a machada.
(Nas Chedas (2), era obrigatório em cada uma possuir um reflector luminoso).
O Eixo era feito em madeira/pau de Freixo. O “rodeiro” é composto pelas rodas e pelo eixo.
Rodas (madeira de Freixo): Meão (1) e Cambas (2 cada roda) em pau de amoreira, freixo ou negrilho; Relheiras (2) e Argolão em ferro em volta das rodas. Os Coucões, em madeira de Amieiro ou Negrilho. Estadulhos, de pau de Carvalho, e resto do carro, em madeira de negrilho. As Cambas são os buracos redondos que existem nas rodas do carro. Peças Soltas ou Arreios:
Jugo, (de Carvalho ou Freixo) – Molidas (2) – Sogas (2) Tiras em couro, para prende as cabeças dos animais às molidas e ao jugo – Tamoeiro, tira mais grossa, larga e cumprida em couro de boi, para prender o carro na Chavelha e chavelhão ao jugo ou qualquer alfaia. Estas peças serviam para “Jungir os Bois”. Havia também a corda de prender, mais conhecida por laços, que servia para prender a mercadoria ao carro.
Os bois usavam coleiras de cabedal com campainhas de tocar, e um brinco nas orelhas, com o número de registo de animal de trabalho. Os nomes mais vulgarmente chamados ao bois e/ou vacas, eram os seguintes: Amarelo(a), Castanho(a), Preto(a) e, mochô(a), se porventura o animal tivesse a ponta de um chifre (corno) partido. Havia sempre bastantes mais parelhas de vacas do que bois.
Quando havia algum acontecimento mais triste ou mais grave na aldeia os lavradores não deixavam as campainhas dos animais tocar em sinal de profunda solidariedade.
(No Jugo, era obrigatório possuir um reflector). O jugo servia para “jungir” os bois. O termo mais usado no nosso concelho era “Junguir”.
Charrua nr. CB2 – Arado – Agrade (grade) – Zorra: para mover as pedras de maior porte.
Cesta de Arame, para o colocar no focinho dos animais.
As Chavelhas (2), são umas peças em pão de freixo ou negrilho, presas nas Molidas (uma de cada lado) dos animais com uma corda, que vão engatar à charrua, no caso de se tratar de um só animal a puxar, é claro, sem ser de raça bovina, já que estes animais individuais, tinham que ter um pequeno jugo e uma molida, com cordas a engatar/prender no balancim.
Agrade de madeira, destinada a agradar as terras lavradas. Normalmente era feita de pau de Sobreiro, Negrilho ou Freixo.
Zorra, destinada a mover ou transportar pedras. Normalmente era feita de pau de Sobreiro, Freixo ou Negrilho.
Dornas de “acarrar” as uvas: eram feitas de madeira de castanho ou carvalho. Também as canastras, barreleiros e vindimos, feitos de verga, para recolha de produtos da agricultura, eram transportados nos carros dos bois.
Tremoncela ouTamãocela: era uma peça móvel em madeira (pau de (+-) dois metros e meio de cumprimento e sete ou oito centímetros de largura) de ligação do jugo à charrua, à agrade ou à zorra.
Soga: Tira de cabedal para fixar/apertar a molida aos cornos do boi.
Molhelha ou Molida: Protecção para a cabeça dos bois, em cabedal, almofadado com palha onde assenta o jugo. Este utensílio é conhecido na nossa aldeia e até vizinhas por “molida”.
Nota: A molida é conhecida em outras regiões por molhelha e o jugo, por canga.
Outros:
Lavrador: Homem que lavrava a terra e que vivia do seu cultivo.
Criado: Empregado-de-servir (já adulto) do lavrador. Paquete: Rapaz ajudante do lavrador e do criado. Normalmente os paquetes eram rapazes de idade muito jovem, cujos pais não tinham quaisquer recursos económicos e que trabalhavam só pelo sustento de alimentação e vestuário, sem bem que também havia alguns criados nessas condições.
Paquete: Criança ou rapazola que acabava de sair da escola primária e que alguns pais mais pobres e com mais necessidades mandavam para casa dos lavradores mais abastados para servir. Normalmente dedicavam-se a guardar os animais de trabalho e outros serviços mais leves.
Nesse tempo, os lavradores, criados e jeireiros, eram verdeiros artesãos caseiros da maior parte dos utensílios utilizados na lavoura.
No último carro de bois a ser construído em toda a nossa freguesia datará da década de 1970 ou início de 80 e o valor rondaria entre os 16 ou 18 mil escudos (hoje 80 ou 90 euros).
Algumas Normas Regulamentares Obrigatórias do Lavrador até finais da década de 1970:
Aguilhada (vara de madeira), com ferrão ou aguilhão metálico na ponta, destinada a guiar/dominar os animais. O “ferrão”, tinha a forma cónica e o seu cumprimento não deveria exceder 4 milímetros (tamanho de (+-) um grão de trigo); a sua espessura na base, não poderia ser superior a 2 milímetros; o topo da vara deveria ser plano, e teria de ter a diâmetro mínimo de 1 centímetro.
O Eixo do carro não podia fazer barulho, mais precisamente “Chiar”. Normalmente só fazia esse barulho quando vinha muito carregado e no período de verão, como o calor. Quando acontecia, os lavradores colocavam sabão no eixo. Para além das Autoridades (GNR), os Cantoneiros das Estradas, tinham poderes conferidos para aplicar essa multa.
Multas das Autoridades (G.N.R.), de que nos recordamos:
Ferrão da Aguilhada: 150$00 (escudos), equivalente a 0,75 €. – Falta de Licença de Circulação (Chapa) do Carro: 150$00 – Chiar do Eixo do Carro e pisar a valeta da estrada: 150$00 – Falta de Reflector: 40$00, cada.
Também havia a multa de 150$00, por falta de cumprimento dos regulamentos de outros animais de trabalho, como, por exemplo: Celas, falta de guias (rédeas) para dirigir os animais, pessoas em cima dos carros, em vez de virem à frente a dirigir os animais. Ainda: licenças de todos os animais que circulassem em lugares públicos, incluindo rebanhos de gado e até mesmo uma ou outra ovelha ou cabra que circulasse sem ser acompanhada à rédea e falta de algumas campainhas ou chocalhos em certos animais etc.
Arado de Madeira:
Era composto pelas seguintes peças/apetrechos:
Mãozeira ou Rabiça – Tamão/tamãocela – Relha – Ateiró – Aviacas (2) – (A)mexilho ou Ferro para segurar as Aviacas .
A Rabiça era feita em madeira/pau de Carvalho ou Freixo; Tamão e Tamãocela, em Negrilho ou Amieiro; Aviacas, em Amieiro. O Tamão e a Tamãocela, é uma peça/vara (grossa) em madeira que servia para prender o arado ou charrua ao jugo dos animais. No trabalho com um só animal, também se costumava chamar “varas do arado”.
Todas essas antigas peças ou utensílios da lavoura e até mesmo o nome delas, já são memórias que se vão perdendo no tempo.
Charrua de Madeira:
A Charrua (quando chegou) foi inicialmente conhecida e chamada de “Arado Americano”.
Peças:
Mãozeira – Tamão – Hastes (andorinhas ou ouvidos) com a roda e argolas em ferro – Aviaca e ferro que a segura – Ateiró – Passador: ferro que segura a Ateiró; Rasto e Relha, também em ferro, e o Balancim, peça em madeira ou ferro, que servia para o animal puxar a Charrua.
Nota: O “Arado” foi o primeiro instrumento de trabalhar a terra puxado por animais. Só muitos séculos mais tarde, chegou o Carro e a Charrua.
Algumas expressões que se usavam quando a lavrar com alguns animais de trabalho: Arre (para andar); Chic-xó (para parar); Vira, Vira ao rego e afasta ou arreda (para andar para trás).
Cangalhas:
Armação colocada nos animais de trabalho (burros, machos e cavalos) por cima da albarda, geralmente feitas em madeira de pinho ou amieiro para se tornarem mais leves. As cangalhas serviam para os animais transportarem a carga de ambos os lados. O animal com as cangalhas era o principal meio de transporte da mercadoria para o monte dos mais pobres. As últimas que ainda existem na aldeia pertenceram a Germelindo Augusto Atanázio do bairro dos Ciprestes, mais conhecido por Augusto Polino, pai de João Atanázio, entre outros. Em Fevereiro de 2012 ainda foi possível tirar uma foto delas em cima de uma burra para colocar no Site.
Albarda:
A albarda é uma espécie de sela, mas bastante maior, normalmente feita de pano grosseiro e de algum couro e enchida de palha. Para a segurar no dorso dos animais de carga existe uma peça ligada à albarda, feita de várias correias de couro que é aplicada entre a albarda e a parte traseira (rabo) do animal, chamada de “atafais”. Para apertar a albarda ao animal existe outra peça de couro (tipo cinto), chamada de cilha. Havia também o albardão que era uma albarda maior.
Cesta ou focinheira:
A cesta ou focinheira era um utensilio feito em arame que servia para colocar no focinho dos animais de trabalho para não virem a comer o que podiam chegar enquanto estivessem a trabalhar as terras de cultivo. Na nossa freguesia esse utensílio era mais identificado por cesta.
Sementeiras, Ceifas e Malhadas:
Para semear os cerais, com a ajuda de animais, os trabalhos na terra eram feitos da seguinte forma faseada:
A terra, era “decruada” no mês Janeiro, “agradada” e “entravessada” nos meses de Maio e Junho, e semeada, nos meses de Setembro e Outubro.
“Embelga”: Delimitação de terrenos em corredores para a sementeira.
As “Ceifas ou Cegadas” eram, e, continuam a ser, durante todo o mês de Junho, assim como as “ Malhadas”, durante todo o mês de Julho.
O centeio era “ceifado/segado”, atado, e de seguida posto na terra em molhos numa roda para secar com a semente/espiga para cima. De seguida, também na mesma terra onde foi cultivado era “emborneirado”, em “borneiros”, espécie de pequeno “palheiro” de molhos. Passados alguns dias, quando já bem seco, era “acarrado ou “acarrejado”, pelos animais para a eira, posto em “meda”, para ser malhado.
Cada “carreto” de bois transportado para a “eira”, levada entre 15 a 20 “pousadas” de centeio, conforme a corpulência/porte dos animais, e a “pousada” era constituída por 5 molhos. Ouvi dizer que havia distritos, como por exemplo o de Bragança, onde 1 pousada era constituída por 4 molhos e cada 3 ou 4 gabelas dava 1 molho. Tudo dependia dos braços do atador. Quatro foiçadas de palha era uma mãozada. Cada segador cegava ao mesmo tempo 3 regos, se bem que havia outra forma diferente mas menos utilizada de segar que era em campo aberto e o que ia á frente é que quem comandava ou liderava a cegada. Essa forma de ceifar tinha nome próprio, mas já não me recordo qual.
A “pousada” na nossa aldeia depois de malhada, dava normalmente um alqueire de centeio, pão, como vulgarmente ainda é hoje é conhecido.
Uma camarada de pessoal para ceifar e atar os molhos era constituída entre 7 e 10 homens e dentro desta equipa era nomeado 1 capataz para negociar com os patrões da ceifa. Ou a jeira, ou o juste. A comida era, por norma, à base de carne de cordeiro e de ovelha mais velha (canhona como era conhecida), bacalhau e filhós. Para beber, vinho e sopas de cavalo cansado, feita com mistura de vinho, açúcar ou mel.
Nunca foi tradição semear trigo na nossa aldeia, tendo em conta que a grande maioria dos terrenos de sementeira da nossa aldeia não são adequados para este género de cereal. O muito pouco que antigamente foi semeado, foi nas zonas mais baixas, nomeadamente na Coutada do Pisão ou perto. Uma, de entre outras ervas daninhas do trigo mondadas à mão é a “larica”, significado também utilizado quando uma pessoa está com bastante forme. Também o “joio” que se confunde com a planta do trigo faz parte dessas ervas daninhas.
Ainda hoje (2013) se ouve dizer aos mais idosos a seguinte frase: Para ser um bom ano de pão tem que cair três nevadas e um nevão.
As várias tarefas de trabalho do milho: Semear, sachar e chegar, cortar, descanar, desfolhar e debagar.
Também o seguinte para ser um bom ano agrícola: Dezembro: molhado; Janeiro: geadeiro; Fevereiro: casa sulco, seu ribeiro; Fevereiro quente traz o diabo no ventre; Março: marçagão, nem rabo-de-gato molhado e, Março: igualarço/magarço, a noite com o dia e o pão com o charguaço, iguala o dia à noite; Etc. Etc. Etc Abril: águas mil e quantas mais poderem vir. Pelo natal semeia o teu alhal, se o quiseres cabeçudo, semeia-o no Entrudo, etc.
Os pequenos e bastante antigos almanaques, “reportório” como o povo antigamente lhe chamava e que ainda hoje (2013) existem e de tiragem anual, tais como: Borda D` Água e o Seringador, eram na altura e ainda hoje são para alguns agricultores, um bom conselheiro da lavoura. Recorde-se, que o “SERINGADOR (T)”, – Reportório Crítico-Jocoso e Prognóstico – foi fundado em 1865 por um nosso vizinho de Vilarandelo de nome João Manuel Fernandes Magalhães. Desde a morte do seu fundador passou a ser editado e da responsabilidade da Editora Lello.
Ainda alguns rituais:
“ Deus te salve saco; Sete maquias te rapo; Uma por te levar; Outra por te trazer; ………; ……….; e outra pró burro comer”.
As crendices e superstições: não semear durante a lua cheia, não começar nenhum trabalho ao sábado, não executar certas tarefas em dias nebulosos.
Medidas de capacidade e peso que se utilizavam na nossa freguesia:
Para líquidos: “Almude”: equivale a 25 litros; “Cântaro”: 12,5 litros; “Remia “: (+-) 6 litros; “Canada” 2 litros; “Meia Canada”: “1 litro; “Quartilho”: Meio litro: 0,5 litro; “Quarteirão”: 1/8 do litro e “Meio Quarteirão.”. Estas medidas eram utilizadas para medir o vinho, vinagre, aguardente, azeite, mel, leite, etc. Eram todas fabricadas em chapa.
Pipa, medida de capacidade de carga equivalente a meio tonel.
Para sólidos: “Rasa”, “Meia – Rasa”, e o “Razão”. Eram medidas de capacidade dos cereais, chicharros, milho, feijão, castanhas, sementes, etc.. Na nossa freguesia a rasa equivale ao alqueire (12 quilos) e, a meia rasa, a meio alqueire. O razão, menos utilizado no nosso meio, equivale a 20 (?) litros e também se destinava a aferir o conjunto das várias medidas existentes, que tinha obrigatoriamente que dar no total o equivalente ao razão. Havia ainda a medida chamada por “Maquia”, mas esta, era mais utilizava pelos moleiros nos moinhos. Estas medidas, incluindo as de capacidade inferior a 1 kg, eram todas elas fabricadas em madeira.
Na nossa freguesia, a “Arroba” é equivale a 15 quilos de peso, igual a 32 arráteis e ¼ do Quintal. Era normalmente utilizada para negócio de compra e venda de palha, feno, figos, etc.
Onça: Antiga medida de peso equivalente a 1/16, ou em certos casos 1/14 do Arrátel. Era aproximadamente 28,7 gramas.
Quintal: 60 kgs., igual a 4 arrobas de 32 arráteis e 16 onças por arrátel.
Palmo Comum ou Palmo Craveiro, media 22 cm.
As balanças de ganchos com pesos de pedra eram utilizadas para pesar coisas de maior volume. Só mais tarde é que apareceram os pesos de ferro, as balanças de copas e de pêndulos. Ainda mais tarde, as balanças de pratos para pesar as pequenas coisas, tal como os pesos em “arrate(s)/Arrátel”, antigo peso de 16 onças, equivalente a 459 gramas, e ainda o peso em libras. Só em meados do século XX (1950), é que começaram a aparecer as primeiras balanças decimais, fabricadas em madeira, e com pesos e hastes já em ferro, destinadas a pesar coisas de maior volume.
Alguns utensílios que serviam para ceifar/segar e outras palavras (rurais) que se utilizavam:
Foice: para ceifar/segar o centeio ou trigo – Dedais (de cabedal): destinados a proteger os dedos da foice/ceitoura. – Atar: apertar os molhos. – Granheira ou Vencelha : composta por um punhado de palhas cortadas com a espiga para apertar os molhos, em que era dado um nó de aperto especial com uma ou duas voltas, seguindo de fecho final, chamado de Chave à volta da granheira. – Pedra de afiar a foice. Sulco: rego do arado.
Para tornar os “dedais” que protegiam os dedos da mão mais macios, esfregavam-se com toucinho (carne gorda do porco).
Nas ceifas, um segador “homem” na seara (pão), normalmente ceifava/segava ao mesmo tempo três sulcos, e a mulher dois. Também havia a ceifa em que não havia sulcos na terra (terra agradada), esta, chamava-se “Segada à Talha “. O corte da palha pela foice ou seitoura era feito a cerca de um palmo acimo da terra, ou fundo da palha e ao que restava chamava-se/chama-se, restolho.
Ceifar o Feno a Gadanha:
O mês desta tarefa é Junho.
Utensílios utilizados: Gadanha – Pedra de afiar, colocada num “corno de boi” com ervas e água para a pedra estar sempre molhada e afiar melhor a gadanha. A ceifa tinha que se iniciar ao romper-o-dia ou até ainda de noite para ao meio da manhã ser virado o feno para secar. O corno era pendurado no cinto do trabalhador. Ferros de picar a gadanha, compostos de Safra e Martelo.
Nas ceifas, vulgarmente eram conhecidas por segadas, os patrões davam de comer diariamente aos trabalhadores, conhecidos por segadores: Mata-bicho – Almoço – Merenda e Ceia. O vinho para beber era transportado pelos patrões em cabaças, que chegavam a levar até 1 almude, ou pequenos pipos de madeira de 5 a 10 litros, e até alguns transportado em odres.
Uma camarada de segadores era um conjunto de vários segadores de centeio ou trigo.
O feno, tal como o centeio antes de ser malhado era acarrado por animais.
Malhada do Centeio a Malho:
Na eira, uma malhada a malhos, era normalmente feita por 12 homens, seis de cada lado.
O malho é composto pelas seguintes peças: Maniota, também conhecida por Mangueira ou Mangual, que é uma espécie de vara/pau de carvalho, onde os trabalhadores pegavam com as mãos no malho. Pírtigo: pedaço de pau de sobreiro mais curto, que batia na palha de centeio para separar o grão da palha – Cidouro: é uma correia de cabedal com forma arredondada que prende a maniota ao pírtigo.
Antes de malhar, as pessoas varriam as pedras (fragas/lages) das eiras com vassouras de giesta e nas fendas das pedras colocavam excrementos dos bois, mais conhecidos por “bosta”, para não deixar perder o grão, que depois de seca, era autêntico cimento.
Ainda hoje, algumas pessoas mais idosas costumam dizer o seguinte, ao se despedirem de alguém conhecido ou amigo: adeus e até à borrada das eiras; que queria dizer: até pr’a o ano.
O grão de centeio ou trigo era limpo por uma máquina ventiladora movida (tocada) manualmente, conhecida por Tarara.
Após essa tarefa, o grão era transportado pelos animais para casa e armazenado em enormes caixas de madeira, normalmente feitas em madeira de castanho a que chamavam de tulha ou tulhão, algumas levando mesmo mais de 100 alqueires de cereal. Havia algumas fabricadas em madeira de pinho de árvores de grande porte, como por exemplo: uma que ainda existe na casa dos herdeiros de Benjamim Picamilho, fabricada com madeira do célebre tronco do soberbo e muito falado “pinheiro manso ou pinheiro grande”, que existiu até 15 de Fevereiro de 1941 (ano do grande ciclone) na curva da estrada para Pardelinha que lhe deu o mesmo nome, propriedade de outros tempos da Casa Paroquial/Abadia, conhecida pela Cerca. Também ouvi dizer que ainda existe actualmente (2013) uma outra caixa ou tulhão propriedade de Paulo Jorge Teixeira do bairro do Sobreiró e que pertenceu antigamente ao Professor Carolino Augusto Afonso que servia de armazenamento de cereal no lugar da antiga moagem no bairro dos Ciprestes, trocada por trabalho de carpintaria. Das bastantes que existiram antigamente na casa dos proprietários lavradores mais abastados, tudo indica que só restem hoje (2013) para museu e contos dessas memórias, duas em Stª. Valha.
Nas malhadas com malhadeiras, a palha com o centeio entrava manualmente na máquina e saia já dividida: palha, grão, coanho e cosco, que são detritos da própria palha. Era feito um palheiro na eira, coberto com a própria palha, que depois de ripada à mão, servia para os animais e outros serviços durante o ano inteiro. Essa palha era transportada para o palheiro às costas dos homens, chamada vergada, e quando o palheiro já estava com certa altura, tinham que subir umas escadas com muita dificuldade dado o vulto e o peso transportado.
Algumas medas, palheiros da palha e do feno nas eiras, eram autênticas obras de arte. Recordo aqui alguns bons mestres: João Fernandes “Contins”,José Fontoura “Nabo”, José Feijão, Crizando, Toninho da Aurélia, Celestino Domingues “Néné”, Augusto “Letras”, Germelindo Atanázio, António Rocha, António Modesto “Tenente”, Artur Feijão, Rui Teixeira Neves, entre outros, mas houve dois que se destacaram, entre todos estes, acima de tudo pelo orgulho na arquitectura: João Contins, José Fontoura “Nabo” e Celestino “Nené”. Estes dois chegavam a bater a palha da roda do palheiro com uma tábua para ficar mais vistoso, e o funil do fecho ou serrar, com uma argola de enfeite.
Numa malhada com malhadeira, eram necessárias no mínimo 10 pessoas para executar essa tarefa, dependia sempre da quantidade de pousadas da meda.
Eiras “públicas ou comunitárias” mais importantes: Eira das Lages, no Br. do Pontão, matriz predial rústica propriedade da Junta de Freguesia; Eira do Br. de Stª. Maria Madalena, no lugar agora da cabine telefónica dos CTT; Eira do largo do Br. dos Ciprestes, junto à casa de Heitor Tender, entre outros; Eira do (largo) Sobreiró; Eira da Cabana; Eira da Cinzeira ou Entre-as-Águas e eiras (2) da Coutada, se bem que estas (2) últimas não se podem considerar públicas ou comunitárias, visto pertencerem ainda aos herdeiros do “Cego da Casa da Coutada”. Havia ainda muitas particulares, e até alguns lavradores que malhavam e debulhavam o cereal nos pátios das suas habitações. Ainda me recordo de por volta de 1963 na Eira da Coutada, junto pontarelo/aqueduto de águas para rega, se malhar a malho.
Havia algumas pessoas, que até final da década de 1970, face à necessidade, se dedicavam à apanha do Cornizó, pouco antes das ceifas, que é um fungo do centeio, de cor preta, que existia na espiga depois de seca, que diziam ser usado para fabrico de armamento e/ou artigos farmacêuticos.
Culturas Agrícolas:
As duas principais culturas agrícolas de sustento e negócio dos nossos agricultores/lavradores que sempre existiram na nossa freguesia foram e, continuam a ser hoje em dia, o vinho e o azeite. Nesta última década também o mel.
Existiram certamente outras também prósperas, mas que hoje em dia (2013) têm muito pouca expressão para o nosso desenvolvimento rural e que os nossos agricultores continuam a persistir semear ou plantar, mais para consumo próprio, chamada hoje de agricultura de subsistência, como, por exemplo: cereal de centeio, batata, milho, Chixarros, frutas diversas, etc, e alguma (muito pouca) castanha.
Por conseguinte, as frutas de excelente qualidade, dum também excelente micro-clima como o nosso que existem, actualmente pouca ou nenhuma expressão têm no mercado agrícola da freguesia, tendo em conta que não existe quem as compre ou comercialize.
Em meados da década de 70 do século XX (1970), apareceram duas culturas agrícolas na nossa terra que prometeram “animar” os proveitos agrícolas dos nossos agricultores, foram elas, a cultura do espargo e da amêndoa. Houve nessa altura um proprietário agrícola que investiu com alguma expressão nessas duas culturas, foi ele, Manuel do Nascimento Barreira.
A cultura do espargo foi a primeira a ser abandonada e só durou um ou dois anos. A cultura da amêndoa, desde essa data até há de hoje, foi progressivamente perdendo o interesse do investimento dos nossos agricultores, atendendo à actual política agrícola da Comunidade Europeia em que estamos inseridos. Não entendo bem esta situação, tendo em conta que o Continente Europeu nunca foi auto-suficiente, quer neste em particular, quer em muitos outros frutos secos.
Dizia o povo o seguinte, que o ano do lavrador tinha corrido bem, quando tivesse:
O pão na tulha; o vinho na pipa; o azeite na talha e o reco/porco na salgadeira.
Cultura do Linho e da Seda:
Até às décadas de 1940 ou 1950, a cultura familiar e artesanal do linho e da seda fazia também parte da lavoura do nosso povo. Chegou a haver em Santa Valha e anexa do Gorgoço vários teares artesanais, principalmente do linho. Ouvi dizer, que há um ou dois séculos atrás, no dia da festa anual do padroeiro do Gorgoço, era costume realizar-se uma feira, mas que só durava quatro horas e que um dos artigos mais transaccionados estava relacionado a cultura e transformação do linho.
Colmeais ou Silhas dos Ursos.
Existem nos nossos montes várias estruturas de pedra em ruínas que noutros tempos se destinavam a proteger os cortiços e o mel dos ataques gulosos do “ urso-pardo “ silvestre, que abundou na nossa região até ao início do século XIX, com maior abundância nas zonas de serra mais altas. Porém, investigações feitas recentemente apontam para populações no início do século XX em zonas transfronteiriças, como Montesinho, até porque ainda hoje (2018) Espanha regista a existência de alguns espécimes, nomeadamente na Cordilheira Cantábrica ou Montes Cantábricos.
O último urso-pardo ibérico visto em Portugal foi no ano de 1843, que consta ter sido morto na serra de Montezinho. Há quem diga (2018) que um ou outro animal destes terá sido avistado em Espanha não muito longe da fronteira com Montezinho, mas não existe qualquer confirmação oficial.
Colmeais, apiários, alvarizas, popularmente conhecidas por silhas dos ursos são construções rudimentares em granito, de formato circular e fechada, que se encontram dispostas nas encostas. Estas construções do século XVII denunciam testemunhos de outros tempos, de outras gentes e de outras feras. Tinham vários metros de diâmetro e cerca de sessenta centímetros de largura e um metro e meio a dois metros de altura. Para além da principal função a que se destinavam, também ajudariam certamente a prevenir algum eventual incêndio nos cortiços e abelhas, coisa que nessa época muito raramente acontecia nos nossos montes.
Localizam-se nos seguintes lugares do nosso termo: 3 no Semuro, 1 nas Olguinhas ou Carqueijal, 1 no Casticeiral da Coca, logo a seguir ao Seixal não muito distante da estrada para Sonim, porventura já em território de Barreiros, 1 no Canamão perto do ribeiro e de uma corriça ambos na antiga propriedade de Victor Cardoso, hoje de seu neto, João Cardoso residente no Br. do Sobreiró, 1 junto à foz do regato do Sandim perto das casas do Calvo e 1 (só vestígios) no termo de Valongo (território de Pardelinha?) a poente e a menos de 100 metros do antigo moinho, bens hoje pertencentes a Carlos Diniz de Almeida de Stª. Valha. Existe ainda mais 1, o maior de todos, no cimo ou a montante do mesmo regato do Sandim (ou Carambelo), a cerca de pouco mais de um quilómetro da aldeia de Monte de Arcas, propriedade da família Gil dessa aldeia, mas em território de Santa Valha. Manuel Vilanova foi um dos últimos, senão o último crestador desse velho colmeal. Contou-me gente mais idosa que antigamente chegaram a existir mais um ou outro no nosso termo ou território, mas foram destruídos (por larápios) para roubar a pedra.
No interior de todas essas estruturas ou junto a elas, existia sempre uma árvore, normalmente um sobreiro de pequeno porte, para ajudar a enxamear as abelhas.
Até meados do século passado (XX) as colmeias para acolher as abelhas e o mel eram feitas de cortiça. Essas estruturas, em forma redonda, conhecidas por cortiço, eram feitas da cortiça dos pés e canos mais espessos dos sobreiros. As colmeias são muito mais recentes.
Da estrada, mais propriamente da denominada curva da Marcelina, pode-se avistar dois dos três “colmeais” da encosta do monte do Semuro. O maior colmeal encontrar-se, penso eu, ou na propriedade dos herdeiros de Manuel do Nascimento Barreira e de sua esposa Margarida Silva, ou na do também falecido Dr., Luís Lopes, agora de Maria Raquel Barros Alves, e o outro, na dos herdeiros de Alice da Conceição Teixeira, também conhecida por Alice Fernandes, mãe de Rui Neves, entre outros. O terceiro do Semuro, onde só existem vestígios, fica perto do regato entre os dois já identificados. Tudo indica tratar-se de propriedade ou dos herdeiros de Manuel do Nascimento Barreira ou dos herdeiros de Helena Lobo Fernandes. O do cimo das “Olguinhas” do lado de lá da estrada para Pardelinha, perto do lado direito do regato junto a uma antiga exploração de coelhos bravos, poderá pertencer à família Videira.
Santa Valha, dados colhidos entre os anos de 2008 e 2018. (Amílcar Rôlo)
