Gorgoço
Gorgoço, nome de origem desconhecido, é uma aldeia anexa da freguesia de Santa Valha com cerca de cinquenta residentes que se situa a três quilómetros a nascente da Freguesia, no cume vertente direito do rio Rabaçal.
A aldeia sobre colina é rodeada de majestosos pinhais, com alguns frondosos sobreiros à mistura, tem uma fonte de mergulho de origem romana, uma capela no centro da aldeia, e o seu Padroeiro é São Bartolomeu. A Festa em sua honra é dia 24 de Agosto. Também costumam homenagear Santa Barbara a 4 de Dezembro.
Trata-se de uma aldeia muito despovoada, fruto da emigração dos seus filhos à procura de uma vida melhor, e ainda, de uma (muito) fraca via de acesso, sem dar seguimento a outras localidades do lado de lá do rio Rabaçal, situação que ajudou a contribuir em parte para esse despovoamento.
Essa via só foi melhorada em 1989 com aplicação de um piso de alcatrão, obras inauguradas pelo Sr. Presidente da Câmara Municipal, Eng. Francisco Tavares, em 17/09/1989. A substituição da fonte por bicas de água pública aconteceu por volta de 1966.
A luz eléctrica, que veio substituir a candeia e o lampião a petróleo ou azeite, só chegou em 1976. Mais tarde, início da década de 1990, o cântaro e a remeia ficaram pendurados na parede para dar lugar à água canalizada ao domicílio. Hoje, uma grande parte das casas encontram-se desabitadas ou semiabandonadas, e a maior parte delas, só arejam nas férias anuais de verão.
Outrora, antes da década de 1970, no tempo em que escasseava tudo e sobrava a pobreza, chegaram a residir nesta localidade perto de 200 pessoas, e a escola primária, com cerca de quarenta alunos, era o “espelho” do crescimento da população. Recordamo-nos bem, que nesse tempo, era fácil arranjar mocidade para jogar uma partida amigável de futebol contra as aldeias vizinhas.
Conta a história que na estrutura socioprofissional do concelho de Monforte de Rio Livre, em 1796 Gorgoço tinha: 15 fogos, 39 pessoas, 1 eclesiástico e 6 lavradores. Os censos de 1911 dizem que Gorgoço tinha 148 residentes. Em 1940 tinha 190 residentes e em 1960 tinha 207. Penso que em fins de 1975 ou início de 1976 com o regresso dos retornados das ex-Colónias a população residente voltou aos números de 1960.
Há quem diga que outrora o povoado se chamou “Quinta do Gorgoço”, atendendo à sua diminuta dimensão, quer pelo número de fogos, quer pelo de residentes. A denominação de “bairro da Quinta” referido em certidões do registo de matrizes prediais urbanas junto à capela de São Bartolomeu indica-nos que isso aconteceu. A mesma denominação terá acontecido com outras pequenas comunidades/ localidades, como, por exemplo, o despovoado Calvo, em ruínas há mais de meio século. Em 1814, ou seja, início do século XIX, Pardelinha era considerada uma quinta, conforme referido em certidões de nascimento e de falecimento de locais do Registo Civil e Predial dessa época.
A dois quilómetros a nascente da aldeia corre um rio de águas límpidas e cristalinas, considerado actualemente dos rios menos poluentes ou poluídos da Europa”, onde é o habitat de excelentes espécies piscatórias, tais como: barbo, boga, escalo, truta, enguia e perca-sol. Também outros animais de água doce aí abundam, como o cágado e a lontra, que ainda desfrutam desse ambiente natural e saudável. Ainda se continua a manter a tradição, de, em dia de festa do Padroeiro, os peixes do rio fritos de/em escabeche, ser “Rei” à mesa.
Quem pretender gozar um pouco do lazer do rio, vai encontrar uma praia fluvial e um parque de merendas. Este rio, de nome Rabaçal, faz fronteira com o Concelho de Mirandela, Distrito de Bragança. Se o potencial turístico do rio coadjuvado com a montanha fosse devidamente explorado por quem de direito, seria para esta aldeia, um factor de desenvolvimento e uma mais-valia económica.
Gorgoço é terra de gente rural que ainda teima em dar continuidade a uma agricultura pobre e em decadência, onde a ajuda dos animais de trabalho tem vindo a ser progressivamente substituída por alguma semi-mecanização. Na agricultura, destaca-se não só a excelente qualidade do vinho e do azeite, como também, a variedade de frutas e legumes, dado o território local estar inserido num micro-clima ideal para tudo que diz respeito á lavoura. Há quem diga, que as encostas do Gorgoço chegaram a pertencer antigamente à região demarcada do vinho do Douro.
Nos lugares mais abrigados das encostas do rio Rabaçal, os figos são novidade no início do mês de Junho. Contudo, o vinho e o azeite é só o que resta de uma agricultura sustentável como principal fonte de receita do lavrador, e ainda alguma pastorícia de gado ovino que também continua a resistir. A cortiça e as madeiras já são poucas devido ao castigo dos incêndios no período de verão.
Na actividade comercial chegaram a existir, um ou dois moinhos ou azenhas: Mário Palas e … (?), situado(s) na ribeira da Coutada, algumas tavernas e comércios de mercearia ao longo dos tempos (não ao mesmo tempo): Manuel Vicente, Carlos Vaz, Aniceto Bouça, Aurora … e Alberto… “Guarda” , um barbeiro, Madaleno …, negócio de cortiça: Quintelas e José Bouça, do sarro extraído das pipas do vinho: Albino Vaz e Vicente : peles de animais: “peleiro Albino Vaz “ e, mas tarde (1990), um café-mercearia de Alexandre Palas. De todas essas pequenas actividades, já nada existe e os costumes e as tradições também vão-se perdendo com o passar do tempo, tendo em conta que ao fechar a porta de um negocio numa pequena comunidade, é parte dela que deixa de ter vida.
Na gastronomia, destaca-se os chicharros com couves e grelos, o fumeiro caseiro, as cascas ou casulas e os milhos com grelos ou em tomate acompanhados com carne de porco cozida, o borrego ou cordeiro assado em forno de lenha, o tradicional folar da páscoa e ainda os peixinhos do rio fritos; É aconselhável que todas estas iguarias sejam acompanhadas com o bom néctar, que as videiras de castas tradicionais e seculares da terra fornecem, e que recomendo. Chegou a existir outrora na aldeia um forno comunitário que dava serventia ao povo para fabricar o pão de centeio, a bola calcada -também chamada de azeite-, os folares e cozinhar alguns assados, sobretudo em dias festivos, como, por exemplo, o borrego e o cabrito. São saberes e sabores ancestrais que ainda permanecem.
A antiga escola-primária de uma só sala/mista, já desactivada há bastantes anos por falta de alunos, deu lugar no ano de 2009 a um Centro de Convívio, único local, onde as gentes deste povo poderão passar um pouco do tempo livre, conversar, ver televisão, beber um café ou uma bebida fresca, comer um petisco, ou até jogar uma partida de sueca, etc.. A inauguração oficial do espaço aconteceu a 23 de Março do mesmo ano, com a presença honrosa dos Srs. Presidente da Câmara e restantes Vereadores e Srs. Presidente da Assembleia de Freguesia, Presidente da Junta e restantes Membros. Aproveito a oportunidade para deixar aqui um bem-haja à Junta de Freguesia, pela excelente ideia de ter restaurado e requalificado este imóvel e de ter convertido o espaço para esse fim, pois, se assim não viesse a acontecer, seria sem dúvida alguma, mais um património público virado ao esquecimento e a entrar em ruínas.
O elenco Municipal aproveitou ainda a visita para verificar no local a conclusão de todos os trabalhos de melhoramento e requalificação acabados de efectuar na aldeia, tais como: obras completas de saneamento, pavimentação de ruas e largos e melhorias nas canalizações da rede de águas, na luz pública e ainda, no estradão que liga ao rio. Estas obras vieram trazer mais qualidade de vida às pessoas. Só foi pena que não trouxessem novidades quanto ao início da construção da ponte sobre o rio Rabaçal, obra em parceria com o Município de Mirandela, acordada verbalmente entre as duas partes numa reunião conjunta junto ao rio, na presença dos povos do Gorgoço e da Bouça. Vai para dois anos e a promessa continua por cumprir. Trata-se de um anseio antigo da população que tarda em chegar.
Até há meio século atrás, chegou a laborar na aldeia um lagar de azeite artesanal (propriedade dos Quintelas) puxado por animais, onde um peso de pedra num fuso de madeira servia de prensa à massa ou baga para a fabricar o azeite. As águas – russas, (churras, como lhe chamavam o povo), eram canalizadas em rasgos na pedra para as talhas, também em pedra, que serviam na filtragem do puro e genuíno azeite. De lamentar que esse património cultural, tivesse sido totalmente destruído (enterrado no local) aquando da demolição do imóvel, para dar lugar a uma casa de habitação e não tivesse sido preservado esse património cultural em lugar público, para as gerações vindouras virem a tomar conhecimento que essa importante indústria de outros tempos existiu na aldeia e como funcionava.
No património religioso edificado destaco: a Capela de São Bartolomeu, (restaurada há alguns anos atrás, sob orientação do Sr. Padre Alberto da Eira), a Capela do Senhor do Bonfim, a Capela da/o Nossa/o Senhora/o da Ajuda, e as Alminhas sobrepostas, localizadas na margem direita do Rio Rabaçal, dignas de uma visita, conforme referido no Link do Roteiro Turístico do Site da Freguesia de Santa Valha.
Para além desse património público de culto religioso para ajuda espiritual, verifica-se ainda a existência de outro nicho de alminhas com a imagem de São Miguel e de outras pequenas capelas e nichos de alminhas particulares, sinal de uma comunidade de muita religiosidade.
A aldeia do Gorgoço foi antigo local de passagem de peregrinos a caminho de Santiago de Compostela (Espanha), São Caetano (Chaves) e de Cavaleiros do Exército vindos de Bragança com destino a Chaves, ou vice-versa, constando também terem transportado o correio da época, Mala Posta. Para o comprovar, existem ainda vestígios dessa passagem em dois caminhos rurais e alguns escritos ou símbolos, lavrados em pedras. Também foi caminho de feireiros e/ou negociantes, que se dirigiam a pé ou acavalo para a feira da Torre de Dona Chama do concelho de Mirandela, porventura a principal feira de gado da região; – dissera-me, que em dias de feira, chegaram a passar no Gorgoço, mais de trinta juntas de bois para negócio, não falando, é claro, nos restantes animais de carga e rebanhos de gados -. A maior parte dessas pessoas atravessavam o rio em barcas, dirigidas por barqueiros da aldeia, que transitavam as duas margens.
É tudo isto o que os “Gorgocenses” têm para contar da sua terra, das suas gentes, dos seus usos e costumes e do seu património, quer cultural, quer edificado. Orgulham-se das memórias do seu passado e continuam a amar o presente, sempre com esperança no futuro.
Resta dizer, que o Gorgoço é uma aldeia com história na história da nossa freguesia e, de gente boa, simples e hospitaleira.
Gorgoço, Agosto de 2009 – Amílcar Rôlo
DATAS HISTÓRICAS, E DE OUTROS ACONTECIMENTOS NO GORGOÇO
Capela de São Bartolomeu:
“Bartolomeu” foi um dos (doze) apóstolos ou discípulo de Jesus Cristo. Segundo fontes históricas, “São Bartolomeu” teria pregado o cristianismo até na Índia. Outra tradição diz que o apóstolo morreu por esfolamento em Albanópolis, atual Derbent, na província russa de Daguestão junto ao Cáucaso, a mando do governador, tanto que na Capela Sistina ele é pintado segurando a própria pele na mão esquerda e na outra o instrumento de seu suplício, um alfange. Segundo a Igreja Católica, mais tarde suas relíquias foram levadas para a Europa e jazem em Roma, na Igreja a ele dedicada. (Wikipédia).
São Bartolomeu foi também chamado de Natanael, nasceu em Caná na Galileia, uma pequena aldeia a catorze quilômetros de Israel. Ele teve o privilégio de estar ao lado de Jesus durante quase toda a missão do mestre na terra. São Bartolomeu é o defensor/protector das “doenças das crianças”. 24 de Agosto é o seu dia comemorativo.
Ninguém sabe explicar na pequena comunidade Gorgocense o motivo da adoção desse Santo Padroeiro ou Patrono que o povo venera com muita fé e devoção. Provavelmente gerações passadas saberiam responder.
A capela, património histórico e religioso, com data da edificação desconhecida, acolhe duas imagens desse devoto Santo. Uma delas, a mais antiga fabricada em madeira, será certamente da época da fundação da capela. É essa imagem antiga que no dia do festejo anual a 24 de Agosto é transportada aos ombros em cima do andor principal; a outra, mais recente, encontra-se numa mísula na parede junto ao Altar-mor.
Dizem algumas pessoas mais idosas que a imagem nova ou mais recente foi comprada pelo povo entre 1958 e 1960 para não danificar mais a antiga ou original que acompanha o andor do Santo padroeiro no dia da sua festa anual e que estava a necessitar de restauro, mas esse restauro nunca chegou a acontecer até hoje.
Ouvi também dizer a algumas pessoas da aldeia, que à imagem antiga de São Bartolomeu já lhe falta a faca que existia numa das mãos e que ninguém sabe o paradeiro dela, e ainda, que um dos dois cornos ou chifres da cabeça do diabo que está a seus pés foi partido ou cortado nos anos 60 do século passado (XX) por Augusto Moreiras, conhecido também por Manuel Ferragucho, pessoa, que mais tarde, por arrependimento, teve a intensão de mandar restaurar esse estrago, mas que nunca o chegou a fazer. Esses dois lamentáveis, irrefletidos e irresponsáveis actos continuam desde então a ser veementemente reprovados pelo povo.
Existem também no interior capela vários outros objectos e/ou símbolos religiosos, entre eles, as imagens de Santa Bárbara (já sem a mão esquerda), de Nª. Srª. de Fátima e de Santa Eufémia; duas bonitas lanternas muito antigas; duas bandeiras ou estandartes religiosos, a mais antiga, com as imagens do Sagrado-Coração de Jesus e de São Bartolomeu foi oferecida pelos falecidos senhores António da Cruz Quintela e esposa, e a mais recente, com as imagens do Sagrado-Coração de jesus e de Nsª. Srª. de Fátima, foi oferecida pelo falecido senhor Serafim Gomes e esposa logo após o regresso de Angola que também vieram a oferecer mais tarde o bonito e valioso Cruxifixo que se encontra no centro do Altar-mor. O cálice, de tempo imemorial, está a necessitar que um(a) benemérito(a) da capela o substitua.
Quanto à Capela situada no centro histórico da aldeia, mais propriamente no (antigo) “bairro da Quinta”, penso que se trate de uma edificação que remonta aos tempos áureos do século XVI, ou quiçá, a mais antiga de todas da freguesia logo a seguir à antiga primitiva igreja de Stª. Valha que existiu em tempos remotos nos montes de Santa Olaia.
Nos Documentos: Aldeias do Concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – “Memórias Paroquiais de 1758”, refere no manuscrito do Padre/Abade da nossa paróquia de então, Domingos Gonçalves, que a anexa do Gorgoço tem uma Capela de São Bartolomeu, nove vizinhos (moradias) e quarenta pessoas. No livro segundo (Corografia) do Padre António Carvalho da Costa sobre documentos de “1706 a 1712” do concelho de Valpaços: Aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no Termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhe pertenciam “ Abbadia de Santavalha, diz o seguinte: “Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes ” (Ver Site – Link-Freguesia). Nota: 1 vizinho equivalia a todo o agregado familiar. Ermida: trata-se de uma capela situada fora do povoado.
Em 1796 o Gorgoço tinha 15 fogos, 39 pessoas, 1 eclesiástico e 6 lavradores.
Na página 137 do livro Freguesia de Santa Valha – História e Património do autor Maria Aline Ferreira diz o seguinte: “Testamentos e Funerais dos Vizinhos”…… O Rev. Manuel Gomes, da quinta do Gorgoço. Faleceu em 10 de Janeiro de 1820. “Quero ser enterrado na capela de S. Bartolomeu, amortalhado segundo o costume eclesiástico. Deixo aos podres da minha quinta um alqueire de pão a cada um para a novidade. Mais disse no dia do seu enterro se dessem aos pobres, dois alqueires de pão cozido e um almude de vinho; e aos Reverendos padres trigo, queijo e vinho.”
Para além do (padre) Rev. Manuel Gomes, encontram-se sepultadas na capela algumas pessoas da aldeia e de outros lugares, que morreram afogadas no rio Rabaçal.
Consta-se que a capela sofreu obras de conservação e remodelação no ano de 1904, que ficaram em 53.000 reis.
Foi novamente restaurada e ampliada na década de 1980, sob orientação do senhor padre da nossa paróquia Alberto Gonçalves da Eira. Nesses trabalhos, foram (infelizmente) arrancadas quatro oliveiras já centenárias dentro do adro que faziam parte de um grupo de cerca de uma dúzia que se encontravam no vizinho e contíguo largo do Eiró que vai até à antiga escola-primária até finais da década de 1970 quando do primeiro nivelamento e arranjo do largo. Os representantes da Capela e comissários da festa em honra do padroeiro dessa altura eram os senhores: Manuel dos Santos Vaz, mais conhecido na Freguesia por Manuel Carolino, Carlos Vaz e Daniel Palas.
Os mais idosos desconhecem intervenções de restauros anteriores.
Gorgoço, anos de 2008/2018
Obs: Em finais de 2021 e início de 2022 foi requalificado todo o adro envolvente à capela devido a problemas de infiltração de humidade, arranjo de espaços verdes e outros e, ainda, pintura geral exterior. Todo esse melhoramento que rondou os 18.000€ foi da responsabilidade da Junta de Freguesia presidida por Carlos Vieira, com apoio da Câmara Municipal, nomeadamente da parte respeitante à adjudicação da requalificação do piso do adro que rondou cerca de 70% da despesa total. A inauguração com pompa e circunstância aconteceu no dia comemorativo do padroeiro, 24 de Agosto, onde não faltou comes e bebes e restante confraternização popular incluindo o baile da tarde e do arraial, ambos no adro. A organização deste bonito convívio foi da responsabilidade pessoal da zeladora da capela, Teresa Barreto. Para além do Presidente da Junta e de outros elementos da mesma marcou também presença o Vereador Municipal do Planeamento, Urbanismo e Ambiente, Engº. Jorge Manuel da Mata Pires, nosso conterrâneo.
Para que a capela fique ainda mais bonita, resta somente a substituição da telha da cobertura e forrar o teto interior em madeira.
Gorgoço, ano de 2022
Capelinha de “Nosso Senhor do Bonfim:
Nosso Senhor do Bonfim ou Senhor do Bonfim, segundo a devoção católica, é uma figuração de Jesus Cristo em que este é adorado na visão de sua morte.
A capelinha do Senhor do Bonfim que se situa no lugar “Ao Rei”, à entrada da aldeia Gorgoço, originou do cruzeiro que já lá existia. Esse cruzeiro com cerca de 3 metros de altura de base e cruz foi mandado construir em 1921 por António José Gomes.
A capela foi mandada construir em 1948 por Luiz(s) Vicente a seu custo na última visita que fez à sua terra natal, Gorgoço. Luís Vicente, irmão de Manuel Vicente, entre outros, tinha emigrado para o Brasil em 1927 com 16 anos de idade. Foi seu irmão Manuel, na sua ausência, que colaborou na orientação dos trabalhos dessa edificação. O espaço era inicialmente mais pequeno, ou seja, sem o telheiro/alpendre frontal que hoje tem.
Algumas obras de conservação e melhoramento deram-se quatro décadas mais tarde a cargo da Comissão de Festas e de peditório popular. Nessa data, foi também alterado o sítio da porta da entrada que se encontrava virada para o antigo caminho público a norte e que dava também acesso a Santa Valha antes da construção da estrada, bem assim como construído nesse local uma pequena janela e um adro envolvente à capela.
Ainda hoje é possível ver o rasgo na pedra da parede lateral dessa tal porta, mas já não é infelizmente possível ver a referência escrita com o nome, data e outras, gravados na pedra que fazia de padieira do benemérito da terra que a mandou construir, Luís Vicente.
Contou-me gente da aldeia, ter sido uma atitude irresponsável e lamentável praticado pelos responsáveis dos trabalhos quando das obras de alteração da porta e construção da pequena janela, tendo, com isso, vindo a apagar a referência memorial escrita para a posteridade ao benemérito senhor Luís.
Para além das inscrições que existem nos fontais da cruz e base, existem ainda outras figuras de ferramentas pintadas nas laterais da cruz: Escada; Martelo; Torquês e Lança, peças utilizadas no processo de crucificação. Na face posterior da cruz e no alinhamento dos respectivos braços encontra-se escrito, em caracteres romanos, o ano de MCMXLVIII (1948).
Manuel Carolino e Daniel Palas também me contaram, que ambos tinham ouvido falar, que os falecidos José “da Inês” e Francisco Vicente, ambos solteiros e de algumas posses na aldeia, compraram a imagem do Senhor do Bonfim que está pregada na cruz e ainda mais uma ou duas imagens de Santos que se encontram na Capela do padroeiro São Bartolomeu, sem certeza de tal dádiva.
Por volta de 2004/2005 a capelinha voltou a ter obras de conservação e melhoramento. Foi ainda ampliada com a construção de um telheiro ou alpendre frontal, bem assim como colocado um painel de azulejos com imagem de Nsª. Senhora. Todo esse trabalho deu-se com dinheiros da Comissão de Festas em honra do Padroeiro São Bartolomeu e de peditório popular.
Gorgoço, 2008/2018
Capelinha de “ Nosso Senhor da Ajuda”:
A designação de Senhor da Ajuda, ou Nosso Senhor da Ajuda, provavelmente, tratar-se-á, de uma veneração/devoção de gente do Gorgoço” a Jesus Cristo, filho de Maria e de Deus. O nome dessa homenagem encontra-se escrito no painel da pintura a óleo do cruzeiro, junto aos pés de Jesus Cristo cruxificado.
Na igreja católica existe unicamente Nossa Senhora da Ajuda, que é uma das diversas invocações de Maria, ou Maria de Nazaré, mãe de Jesus. O culto teve início em Portugal durante a idade média. Portanto, não existem invocações de/a Nº. Senhor, mas o mais importante é a crença, a fé, e a devoção das pessoas.
A capelinha de “ Nº. Senhor da Ajuda” como o povo a designa, encontra-se situada na rua do Souto que vai dar ao cemitério, não muito longe deste. Originou de um bonito cruzeiro com um nicho escavado na pedra com a imagem de Nosso Senhor cruxificado já existente. Na base que apoia a cruz encontra-se escrito o seguinte: Mandou fazer e pintar José M. (Madaleno?) Caseiro em 1961.
Quando Gildo Palas, em finais da década de 70, construiu a sua casa de habitação (em frente), transferiu o cruzeiro do seu terreno para o lugar onde agora se encontra mandando fazer a capelinha a seu custo. Facto inadmissível e até de certa forma irresponsável no meu entender foi, o de terem cortado ou separado a parte superior do cruzeiro e colocarem a cruz no cimo do telhado da Capelinha. Porque não subir um pouco mais as paredes e deixar toda a estrutura do cruzeiro no interior!? Dizem alguns locais.
Quando de algum falecimento na aldeia, é ritual antigo, fazer-se nesse local um curto repouso com o corpo do falecido para rezar uma pequena oração.
Por fim, a capelinha está a necessitar de obras de conservação, nomeadamente, substituição da telha da cobertura e pintura geral.
Gorgoço, 2008/2018
Obs. Em Julho de 2023, o casal Teresa e Nelson Barreto mandou a pintar a capela a seu custo. Parabéns e um voto de louvor merecido a este casal.
Alminhas de São Miguel:
Trata-se de um pequeno nicho de alminhas apoiado em cima de um muro que existe no fundo da ladeira da rua Principal e do início da rua que vai dar ao rio. Está construído em betão e placas de granito. Mostra-nos centralmente a imagem de São Miguel (Arcanjo) e em baixo três alminhas envolvidas pelas chamas do purgatório, tudo pintado em painel de azulejo.
São Miguel é considerado o guardião celeste, o príncipe e guerreiro, que defende o trono celestial. Ele é também o defensor e protetor do Povo de Deus e Padroeiro da Igreja Católica. São Miguel Arcanjo é o chefe supremo do exército celestial, dos anjos que são fiéis a Deus. Ele é conhecido também como o Arcanjo da Justiça e Arcanjo do arrependimento. São Miguel Arcanjo é o grande combatente e vencedor das forças do mal.
O símbolo de culto religioso foi mandado construir ou erguer por volta do ano 2000 por Serafim Gomes com dinheiro da capela de São Bartolomeu, na altura responsável da comunidade local pelos assuntos religiosos.
Existe ainda na parte inferior uma placa de granito com a seguinte inscrição em letras metálicas: AS ALMINHAS SÃO DE TODOS; POIS QUEM É QUE LÁ NÃO TEM; UM PARENTE OU UM AMIGO; UM BOM PAI OU SANTA MÃE.
Por baixo da referida inscrição a caixa das esmolas com porta de chapa.
Gorgoço, 2008/2018
Alminhas do Rio Rabaçal:
São umas alminhas com perto de 160 anos, de edificação rara, por se tratar de duplo nicho sobreposto, rematado no cimo por uma cruz.
Desconhece-se quem o mandou edificar, se bem que há quem diga em Barreiros, ter sido alguém da família Morais dessa localidade e que a edificação foi em memória das vítimas de um acidente no rio. Essa pessoa terá sido à data dona de uma barca para travessia de pessoas e animais para a outra margem. Mas certeza absoluta, não existe.
O nicho em granito está erguido em cima de uma laje a cerca de 50 metros do rio Rabaçal, no fim do caminho agrícola e vicinal que liga à margem direita do rio, numa propriedade agrícola pertencente a gentes do Gorgoço, ou seja, dos herdeiros de Aniceto Bouça. Local conhecido por gentes do Gorgoço por “rio-de-cima”, sítio onde passa a divisória territorial das freguesias de Santa Valha com a de Barreiros. Consta-se, que vai passar por este local, um dos percursos pedestres da futura ecovia do Rabaçal.
Em 2016 foi mandado restaurar a pintura por alguém de Barreiros devido há já difícil identificação das duas imagens religiosas desgastadas pelo tempo. Numa delas, encontra-se a imagem de Santo António e, na outra, alminhas do purgatório. Contudo, há pessoas do Gorgoço que dizem, não ter ficado como o original, pois, numa delas, na do Santo António, existiu com a restante pintura na parte inferior uma barca a simbolizar o acidente. Recorde-se que Santo António é o padroeiro dos náufragos dos barqueiros e dos viajantes, etc. Ouvi dizer que o pintor do trabalho de restauro terá sido Mário Rui Mesquita Lino, vulgarmente conhecido por Mário Lino, natural de Chaves, pintor contemporâneo Flaviense.
Consta a história, que esse Ninho de Alminhas foi ali erguido por volta de 1858 em memória de 23 pessoas de freguesias próximas, vítimas de uma enorme tragédia por afogamento ocorrido quando atravessavam na barca dirigida por um barqueiro para a outra margem do rio (embarcadouro do açude) num dia de inverno. Que o barqueiro, que recebia a soldo de alguém da família Morais, deixou virar a barca por estar embriagado e que terá sido o único a salvar-se, por só ele saber nadar. Também há quem tenha ouvido contar que no naufrágio só terão morrido 14 pessoas.
Essas pessoas dirigiam-se para as aldeias da Bouça e da Torre de Dona Chama do concelho de Mirandela para trabalhar no campo na apanhada da azeitona num dia de feira da Torre, ou quiçá algumas para negociar na feira, lugar de negócio de gado dos mais afamados da região.
O caminho agrícola e vicinal que passa junto, conhecido por Vale-do-carro, é de origem romana e liga ao concelho de Mirandela. Era outrora local de passagem de muita gente peregrina que passava por Gorgoço e Santa valha, a caminho de Santiago de Compostela.
A (desaparecida) cruz de pedra que existia até há poucos anos no cimo do nicho foi substituída na mesma data por outra diferente da primitiva. Também o local onde assenta nicho foi alterado, para melhor.
Na margem do lado de lá do rio, existiu nesse tempo um moinho e uma habitação contíguos, pertencentes a gentes da Bouça, que só por volta de finais da década de 1980 é que deixou de laborar e de ser habitada pela família do próprio moleiro.
Parabéns e um bem-haja a quem teve a iniciativa e de custear todo o restauro e melhoramento desse património religioso.
Gorgoço, 2008/2018
Cemitério Público:
A construção do cemitério público do Gorgoço remonta a 1948. A ampliação em terreno doado por Justino Baía deu-se em meados da década de 1990, fim do último mandato da presidência da Junta Freguesia de Manuel Guedes.
Quem andou a transportar a pedra com animais de trabalho (vacas) para a construção inicial foi Francisco Barreto e Serafim Gomes.
A primeira pessoa a ser sepultada no cemitério foi Efigénia Zorra, hoje só conhecida na aldeia por esse nome, seguindo-se Ana Quintela e a última sepultada no cemitério de Santa Valha foi António Patrocínio Barreto (avô de Nelson Barreto).
Antes da construção do cemitério os mortos eram enterrados no cemitério da sede de Freguesia, Santa Valha. Há quem se recorde ainda de ter ouvido falar aos mais antigos, que outrora, chegaram a ser enterrados alguns corpos no interior ou no adro da Capela de São Bartolomeu de gente que morreu afogada no rio Rabaçal ao fazer a travessia para a outra margem. Algumas dessas pessoas eram de outras localidades.
Em Outubro de 2015 o cemitério sofreu algumas obras de melhoramento, sendo uma delas o calcetamento do pequeno passadiço central onde se encontra a mesa de repouso, dando-lhe um aspecto mais digno e apresentável.
Gorgoço, 2008/2018
Obs. Devido à falta de espaço para novas sepulturas, em meados de 2022, o cemitério voltou a ser ampliado por solicitação da Junta de Freguesia ao Município. Também o espaço mais antigo sofreu algumas obras de melhoramento e conservação.
O montante total do investimento que inclui a aquisição do terreno rondou os 25.000€. O terreno foi adquirido pela Junta de Freguesia a Jacinta Madaleno. A adjudicação da (segunda) ampliação foi da responsabilidade da Câmara Municipal, enquanto o custo (no ano seguinte) da pavimentação exterior em paralelo de granito que ultrapassou os 6.000€, foi da responsabilidade da Junta presidida por Carlos Vieira.
Com este último necessário investimento, o espaço de culto e meditação, ficou ainda mais amplo, digno e funcional.
Outº./2023
Escola Pública:
A Escola-primária pública do Gorgoço de uma só sala mista foi construída ou edificada em 1938, com dinheiro do povo.
Antes de 1970 chegaram a sentar-se nas carteiras dessa escola cerca de 40 crianças, rapazes e raparigas. Mas por volta do início da década de 80 só já eram entre 20 a 25 alunos, fruto principalmente da anterior sangria emigratória e da diminuição da natalidade por motivos vários dos que restaram.
O encerramento definitivo deu-se na época-escolar de 1999/2000 ou no ano seguinte. Antes da construção, as muito poucas crianças que os pais deixavam aprender as letras e os números, deslocavam-se à escola de Santa Valha. O trajecto era feito a pé, normalmente descalços e quando chovia, era uma saca de lona (sisal?) que servia de guarda-chuva. Um ou dois anos antes da edificação desta escola pública chegou a haver alguma instrução primária numa divisão (sala) de uma casa de habitação de Guilhermina Quintela, avó de Aurélio Teixeira.
O último Aluno a frequentar a escola foi Marco Aurélio Teixeira, hoje (2010) com 20 anos de idade. O último professor a leccionar foi Francisco dos Santos Peso Amendoeira, já falecido, natural e residente na aldeia vizinha de Fornos do Pinhal. Foi seu professor da 1ª. á 4ª. classes.
Na aldeia ninguém sabe explicar o que aconteceu a um bonito cruxifixo em bronze que existia pendurado na parede da sala de aulas dessa escola. Só sabem que desapareceu desse local e que se consta estar indevidamente em casa de alguém da comunidade local.
A requalificação para “Centro de Convívio” deu-se em Março de 2009, na presidência da Junta de Freguesia de Jorge Castro. Em Agosto de 2017, na presidência da Junta de Carlos Vieira foi colocado um telheiro ou alpendre no terraço exterior.
Gorgoço, 2008/2018.
Fonte de Mergulho:
Trata-se da mais bonita fonte de chafurdo ou mergulho de toda a freguesia construída em cantaria e que debita permanentemente um caudal elevado.
Essa majestosa fonte, a única da aldeia e que relata um pedaço da história da comunidade, situa-se junto ao pequeno largo – ou praceta – debaixo no fundo do povo e no início da rua do Souto que vai dar ao cemitério.
Desconhece-se a quantidade de anos de história que essa fonte tem. Poderá remontar ao início do povoamento de uma quinta que deu origem mais tarde à actual aldeia. Atendendo à característica e beleza da sua arquitectura, tudo leva a querer que se trate de uma fonte de origem medieval.
Há, no entanto, um ou outro que defende, que tem características de edificação romana e que esse sítio terá sido local de passagem desse antigo e importante povo, ou quiçá mesmo povoamento (?), se bem que para além de um troço do piso de um caminho agrícola no lugar às Carriceiras que vai dar ao rio Rabaçal, que tudo indica ser em calçada romana e de umas inscrições esculpidas numa fraga derrubada(?) não há muitos anos por uma máquina agrícola e ainda de um pequeno pontão na ribeira/o da Coutada no lugar de Leva-peixe, que também se assemelha a construção romana, ou de época posterior, medieval.
Para além do referido, não se conhecem outros vestígios ou achados, nem mesmo a existência nos montes de qualquer lagar rupestre cavado ou escavado na rocha de fazer o vinho do tempo dos romanos a exemplo dos muitos que existem no termo da restante freguesia, facto que é de estranhar, tendo em conta que o Gorgoço foi desde sempre aldeia de fama de produção de excelente vinho, dos melhores de todo o nosso concelho, tal como a sede de freguesia, Santa Valha.
Para além de essa fonte ser o único sítio que existia até 1966 de abastecimento de água potável às habitações, alimentou ainda, até por volta de finais de 2010, uma poça térrea de lavar a roupa pública, também a única da aldeia até então que se situava um pouco mais abaixo no lugar chamado Ás-lameiras”, agora propriedade de Orlando Caseiro por troca do espaço onde se encontra o tanque novo público na rua das Lages.
Em Dezembro de 2015 a fonte sofreu obras de limpeza, restauro e alguma requalificação em todo o recinto envolvente, tendo sido também construído novo muro de suporte do largo e caminho e colocado gradeamento de proteção, projecto a cargo do Município solicitado pela Junta de Freguesia de então, obra enquadrada no seu plano de actividades.
Nessa importante obra de preservação e arranjo urbanístico, poderia ter sido evitado algum excesso de areia e cimento, particularmente no arranjo de juntas das seculares paredes de pedra da escada e da envolvente, para não tornar o bonito património cultural traído e desvirtuado, como veio na minha opinião a acontecer.
Gorgoço, 2008/2018
Vestígios Romanos ou Medievais:
Para além da ”fonte de chafurdo ou mergulho” no largo debaixo, do “pontão” no lugar à Coutada ou Leva-peixe”, que atravessa o ribeiro que desagua mais abaixo no Rabaçal, início do caminho para a Pala/Fornos do Pinhal, e ainda, do pequeno troço de “calçada” do caminho agrícola das Carriceiras, onde também existe nesse local uma inscrição esculpida numa fraga, nada mais consta existir vestígios de origem romana ou medieval. Pela forma de construção e arquitectura de todos eles, tudo leva a querer, diz o povo da aldeia, que se trate de vestígios de arquitetura romana ou da época posterior, medieval. Certo é, que não existe confirmação alguma de quem quer que seja entendido no assunto.
De igual forma, também não é conhecida no termo do Gorgoço a existência de qualquer lagar ou lagareta de fazer o vinho cavado na rocha pelos braços do homem do tempo romano, onde alguns, dos 35 que existem na restante freguesia dizem poder vir a ter cerca de dois mil anos de história e de cultura vinícola deixada por esse importante povo que por cá habitou há muitos séculos e que algum desse vinho, laborado nesses lagares, terá sido enviado para o Império Romano e, quiçá, saboreado pelo próprio Imperador.
Os “Marcos Miliares” que ainda existem no nosso Concelho marcam a antiga via romana que liga Braga a Astorga (Espanha), denominada Via Augusta VII – Itinerário:….., Lamalonga, Torre de Dª. Chama, Ponte de Vale de Telhas, Poçacos, Lagoas/Valpaços, Vilarandelo, Sá, Ribeira de Limãos, S. Julião de Montenegro, S. Lourenço/Chaves…. . Consta-se, que a Mala-posta, que foi um serviço de transporte da mala do correio, constituído por uma carruagem puxada por cavalos, serviço iniciado em Portugal em 1798 passava pelo Gorgoço vindo de Bragança. Se foi realmente verdade que esse transporte passava mesmo por esta pequena aldeia e por um caminho sinuoso um pouco mais abaixo onde o tal troço de calçada romana se encontra, a travessia das margens do rio Rabaçal fora da época mais quente de verão terá certamente sido feita com a ajuda de uma barca e de um barqueiro.
A passagem de peregrinos para Santiago de Compostela também se fazia por Gorgoço e Santa Valha, caminhando a maior parte pela antiga via romana (Via Augusta) que ligava Braga/Astorga. De igual modo também antiga passagem de peregrinos devotos de São Caetano a caminho de Torre de Ervededo do concelho de Chaves, que já vinha do período romano e alta idade média. Recordo que a reconstrução e ampliação da capela de São Miguel situada no largo da praça de Santa Valha deram-se com as esmolas desses antigos peregrinos de São Caetano.
Gorgoço, 2008/2018.
Correio e Telefone Público no Gorgoço:
A mala ou saco do correio foi até perto do final da década de 1970 ou início de 80 transportado a pé e às costas para o Gorgoço. Inicialmente do posto de Vilarandelo, mais tarde, ou seja, de por volta do início da década de 60 do posto particular de Santa Valha, que o recebia da seguinte forma: primeiro transportado a pé e/ou em cima de um burro e mais tarde na camioneta de passageiros, carreira, como todos lhe chamavam.
Depois de chegar ao posto representante ou particular de Santa Valha, era separado e colocado na mala (em napa ou outro) fechada à chave, para ser transportada para os postos de Gorgoço e Pardelinha.
Quem também exerceu essa profissão de transportador para o Gorgoço foi Manuel dos Santos Vaz, mais conhecido na freguesia por “Manuel Carolino” (e mulher), alcunhado nesse tempo de “correio” e que o tinha de ir buscar a pé directamente ao posto de Vilarandelo, palmilhando todos os dias cerca vinte quilómetros por um caminho rural ou vicinal ao qual chamavam de estrada.
Mais tarde, já no início ou meados da década 60 foi substituído por Victor Fernandes e Teresa Baía (Contins), ambos de Santa Valha, mas só já do posto particular de Santa Valha. Victor Fernandes também sacristão da paróquia fê-lo até por volta do fim da década de 70, ou seja, vinte anos para Pardelinha e um pouco menos para o Gorgoço e, Teresa Contins não mais de um ou dois anos depois para o Gorgoço, até começar o novo sistema de distribuição ao domicílio por parte dos CTT.
No tempo de Manuel Carolino, era ele próprio que fazia a distribuição da correspondência na aldeia. Já no tempo de Victor Fernandes e por último Teresa Contins, era na casa de habitação de Alberto da Silva Santos, Alberto Guarda como era conhecido por ser agente da GNR, que ficava no início da aldeia, que era entregue, tendo as pessoas que lá se deslocar para saber se tinham correio e levantá-lo.
Também era na casa de habitação de Alberto Guarda onde estava instalado o telefone público, o único telefone da aldeia. A comunicação das chamadas, ainda em sistema PBX com cavilhas, eram canalizadas do posto de Vilarandelo para o particular de Santa Valha, que por sua vez, as transferiam para o Gorgoço, tendo o senhor Alberto ou a família que ir avisar as pessoas a casa delas para as informar que tinham uma chamada de fora à espera ou que iria ser feita a determinada hora por alguém, assim como levar os telegramas de urgência às pessoas caso existissem.
Quer pelo serviço de correspondência, quer pelo de telefone público que só foi ligado pela primeira vez ao Gorgoço na década de 1960, o senhor Alberto, nunca nada recebeu por esse trabalho, portanto, era gratuito.
Após o falecimento de Alberto Guarda por volta do início ou meados da década de 80, o telefone público foi transferido para a casa de Manuel Joaquim Pardal, mas já com sistema de ligação mais moderno e com contador de chamadas incluído, e a caixa de recepcção da correspondência foi colocada durante alguns anos na parede de uma habitação situada no largo principal, perto da igreja.
No ano 2000, data em que Manuel Pardal foi trabalhar para o estrangeiro como emigrante, esse telefone público foi transferido para a casa de Aurélio Fernandes Teixeira, local onde ainda hoje (2017) se encontra, mas já com muito pouca ou mesmo nenhum utilização.
Manuel Carolino quando deixou a profissão ganhava por esse serviço diário (Vilarandelo/Gorgoço) cerca de cinquenta escudos (0,25€) mensais, valor esse que começou a ganhar no início Victor Fernandes para Pardelinha, até receber no último ano (finais da década de 70) pouco mais de duzentos escudos (2,00€) pelas duas deslocações diárias de cerca de treze quilómetros do posto de Santa Valha ao de Gorgoço e Pardelinha.
Quer Manuel Carolino, Alberto Guarda e Victor Fernandes, mas particularmente o senhor Victor que durante duas décadas trabalhou para essa empresa pública denominada “Correios Telégrafos e Telefones”, vulgarmente conhecida por CTT, nunca chegou (ou chegaram) a receber mais tarde qualquer compensação, pensão ou reforma por parte dessa entidade patronal, apesar de a ter reclamado com inteira justiça. Portanto, estas três pessoas foram vítimas de uma entidade do Estado ingrata, que durante muito tempo explorou o seu suor e as esqueceu para sempre, o que é triste e lamentável.
Gorgoço, 2008/2018.
Moinhos e Moleiros:
Pese embora terem existido em toda a Freguesia de Santa Valha mais de uma dúzia de moinhos de rodízio de moer cereal, o único moinho que existiu no Gorgoço foi de Mário Palas por compra, penso ser agora propriedade de herdeiros.
Essa importante indústria de outros tempos ficava situada na margem direita da Ribeira de Santa Valha, no lugar denominado de modo diferente por Pisão, Àcosta, ou Picadeiro, mas já no território da Freguesia de Fornos do Pinhal. Ouvi dizer que actualmente do moinho só já existe vestígios das paredes, nada mais; todo o resto que o compunha terá desaparecido há bastante tempo.
O último moleiro desse pequeno velho moinho foi o próprio senhor Mário Palas. Exerceu lá essa nobre profissão alguns anos até finais da década de 1960, ou princípio de 1970, num tempo em que a água no açude ou represa para fazer mover o rodízio e a pedra da mó raramente secava no período mais quente. Nessa tarefa era ajudado por vezes pela mulher ou por um ou outro filho mais velho como Alexandre, a exemplo de alguma pouca lavoura de subsistência que também tinha.
As receitas para sustento da família provinham quase exclusivamente da maquia que cobrava pela transformação do cereal em farinha, nomeadamente de centeio e milho, à semelhança de quase todos os colegas de outros moinhos ou azenhas da redondeza, como, por exemplo, António Gago natural da Bouça, cujo seu moinho ficava do lado de lá do Rabaçal, na margem esquerda do termo da Bouça não muito longe das Alminhas, moendo também na época para alguma gente do Gorgoço. A travessia da mercadoria e do animal de carga para a margem do Gorgoço quando necessária era feita numa barca no açude manobrada por ele ou por um barqueiro.
Recordo-me de junto a essa azenha (moinho) existir uma amoreira, assim como por perto, ou seja, no início do açude abaixo, existir outra azenha que me disseram ter pertencido anteriormente há mesma pessoa. Passei algumas vezes por esse inóspito mas bonito e encantado sítio que a natureza nos oferece há algumas décadas quando pescava à cana em desporto. O povo do Gorgoço chama a esses dois sítios, o rio-de-cima e o rio-de-baixo ou bau, no fundo do açude junto ao parque de merendas.
Era ver o senhor Mário atravessar o pequeno pontão que separava as duas margens para subir e descer a encosta da Ribeira ou Rabaçais da sua aldeia acompanhado do seu animal de carga com o saco da farinha ou do grão em cima da albarda para poder sustentar com dignidade a sua família. Fazia-o de igual modo também para Fornos do Pinhal atendendo ao pouco consumo da sua comunidade e da própria concorrência que existia.
Quer caçar coelhos e perdizes no termo, quer apanhar peixes e enguias na ribeira e no rio no período de menos trabalho fazia parte da rotina diária do senhor Mário.
A jusante e muito perto deste moinho, antes da foz da Ribeira com o Rabaçal, encontram-se mais um ou dois moinhos onde só existem vestígios. O da foz da Ribeira em ruínas era noutros tempos conhecido por moinho “do Coutinho” e mais tarde, por “do Malhado”, propriedades de gente de Fornos do Pinhal.
Encontra-se um outro também em ruínas a montante da mesma Ribeira e pouco mais de trezentos metros para sul da(s) “Casa(s) da Coutada” onde outrora lhe pertenceu, agora propriedade dos herdeiros de Laudemira Ferreira da Cunha (Cagigal) de Santa Valha, neta de João Evangelista Fernandes, falecido em 1924 e conhecido ainda em vida por “Cego da Coutada”, proprietário abastado desses bens e de inúmeros outros mais, mas que só moía para consumo dessa enorme casa de lavoura, pouco mais.
Contaram-me ainda, que deixou de funcionar no tempo da senhora Laudemira (minha avó materna) em finais da década de 1950 ou início de 1960 e que o último moleiro a exercer a profissão nesse antigo moinho de rodízio foi o falecido senhor Alberto dos Santos de Santa Valha, mais conhecido por Alberto Moleiro. A exemplo dos anteriores donos, seu avô materno João e de sua mãe Ana (filha de João), também só moia para consumo próprio..
Se bem que não tão destruído como os anteriores que referi, também desse património cultural já pouco resta. Tudo o que já não existe foi furtado por desconhecidos. Tal como os outros, restam somente algumas poucas memórias que felizmente ainda não se perderam no tempo .
Gorgoço, 2008/2018.
Marco Geodésico (Castelo):
Os marcos ou vértices, popularmente conhecidos em Portugal por “Talefes ou Pinocos”, mas também conhecidos nas aldeias do nosso concelho por “Castelos”, foram construídos no século XVIII no reinado de Dª. Maria I, nos pontos mais elevados das (sedes) freguesias – no nosso caso de Santa Valha, no lugar de Monte Cerdeira ou Vale das Lousas -, para determinar levantamentos topográficos, coordenadas e posições cartográficas exactas da zona e região. Para tal, foram escolhidos sítios altos e isolados com linha de visão para outros marcos ou vértices etc., como lhe queiram chamar.
São cerca de 8 mil que formam a rede geodésica portuguesa, divididos em três ordens de (construção) importância, conforme as distâncias que estão entre si.
Acontece, porém, que o Gorgoço, aldeia anexa a Santa Valha, também possui um marco Geodésico, de igual modo conhecido na aldeia por “Castelo”. Localiza-se a cerca de 800 metros a sul da aldeia, perto do estradão que vai dar ao rio Rabaçal no lugar denominado por castelo.
Contou-me Fernando Bouça que foi ele por volta de 1972, ainda em criança, que foi ensinar a localização do monte onde veio a seguir a ser erguido, mas que já não se recorda quem foi que o mandou construiu ou a entidade do Estado responsável por essa construção. Acrescentou ainda, que se recorda também de terem sido tirados desse local vários pontos de referência e ter observado pela primeira vez a paisagem por binóculos. Foi já construído com areia e cimento e tudo leva a querer que permaneça ainda pintado com as cores branca e peta primitivas, atendendo a que ninguém se recorda na aldeia de alguém o pintar posteriormente.
Desconheço qual seria a razão ou motivo porque levaram a construir este marco nesse local, tendo em conta que já existia um na sede de freguesia, até porque nem se encontra situado no ponto mais elevado desta pequena aldeia. Caso raro…., a não ser que fosse (ou seja ainda) muito provavelmente para determinar alguns pontos e posições cartográficos, ou outras(os), de zonas próximas dalém do rio que já não pertencem ao nosso concelho e distrito e a distância da linha de visão do de Santa Valha ser muito grande para esses serviços.
Gorgoço, 2008/2018.
Campo de Futebol, ou da Bola:
Tal como em Santa Valha e Pardelinha, Gorgoço também teve até há umas décadas atrás o seu campo de futebol.
Ficava situado junto à capelinha do Nosso Senhor do Bomfim, no início da aldeia, numa propriedade agrícola centeeira de solo pobre, propriedade cedida para esse fim por José Francisco Barreto e mulher Maria Fontoura, agora de herdeiros. Para lá jogar, a rapaziada tinha que pagar aos donos uma renda de quatro ou cinco alqueires de grão de centeio, ou equivalente em trabalho na sua lavoura, a exemplo de outras localidades. A bola (de capão) era comprada por meio de uma subscrição ou manda.
Esse saudoso campo de futebol, ou “da bola” como hoje ainda alguns chamam, único que existiu na aldeia, nasceu dos braços da juventude em meados da década de 1960 e acabou definitivamente um pouco antes de 1989, aquando do alargamento do antigo caminho vicinal (estrada) e aplicação do primeiro asfalto em alcatrão na terra-batida, via de acesso principal que ligava à sede de Freguesia e que passava inicialmente junto à porta da Capela e entre dois enormes penedos um pouco mais abaixo a poente. Uma das balizas de pau de pinheiro ficava junto das traseiras da Capela, no sentido oposto à porta de entrada, na altura virada para norte, agora estrada para Stª. Valha e estradão que liga a Barreiros.
Por motivos de decréscimo rápido da juventude, sobretudo devido á saída dos filhos da terra para o estrangeiro e da muito fraca natalidade dos que ficaram, nunca mais outro campo foi construído na pequena comunidade para jogar futebol, encontrando-se hoje a maior parte do terreno desse antigo campo cheio de denso mato e alguns pinheiros, e o restante utilizado no alargamento da estrada e do largo da capela.
Contaram-me, que se realizaram lá bonitas e alegres partidas de futebol, numa época onde a aldeia ainda estava cheia de vida e de juventude, sendo fácil conseguir na pequena comunidade rapaziada para jogar uma partida de onze contra onze, tempo de então em que ainda muitos jogavam descalços e um ou outro de socos serrados, nomeadamente na primeira década da construção do campo.
Também, que se lembram bem dessas tais bonitas e alegres partidas de futebol de solteiros contra casados e de outras contra aldeias próximas, sendo a honra futebolística defendida com unhas e dentes, mas sempre com espírito amigo e desportivo, onde, algumas vezes, o cântaro, a remeia ou o garrafão com o vinho fazia parte do convívio dentro e fora do campo, chegando sempre para todos, e até por vezes demais para um ou outro.
Resta dizer todavia, que a pouca mocidade que ficou na aldeia, foi-se entretendo mais tarde e, de vez em quando, num pequeno terreno agrícola mesmo no centro da aldeia, espaço por baixo do caminho junto ao largo do Eiró, tendo por companhia uns enormes negrilhos para sombra no verão, hoje propriedade dos herdeiros de José Joaquim Teixeira, mas já sem lhe chamarem, “campo da bola”. De todas as gerações, Marco Aurélio B. Teixeira, que aí jogou, foi o único que se distinguiu entre todos, vindo posteriormente a jogar como atleta federado no Valpaços, Carrazedo de Montenegro, Pedras Salgadas, Rebordelo, entre outros.
De todo esse bonito passado no lugar que o mato se foi apoderando, ficou somente a nostalgia e as saudosas memórias para mais tarde recordar.
Jogadores dessa magnífica e famosa “Equipa Sensação” da época:
Na foto= Da esquerda para a direita e de pé: Aurélio Teixeira; Manuel Osório; Serafim Bouça; Aniceto Vaz e Manuel Pardal. De joelhos: Jaime Vaz, José Araújo Percevejo; Diniz Gonçalves (Carrazedo) e Carlos Baía. Disse-me o dono desta foto também o seguinte: que os dois jogadores/atletas aqui em falta para completar os 11 que jogaram, eram os seguintes: um, era o retractista Eduardo Gonçalves (Carrazedo), e o outro …. (?), teria ido ao mato baixar calças.
Gorgoço, 2008/2018.
Fornos de cozer:
No Gorgoço chegaram a existir noutros tempos (7) sete fornos a lenha particulares. Os dois mais recentes a laborar de que ainda muitos se recordam pertenceram às senhoras Esmeralda ……. e Berta Barreira (prima da srª. Maria Barreira). Os restantes cinco, que já não existem ou em ruínas, pertenceram: um, situado no bairro do Souto na casa do senhor …… Guerra, outro onde se encontra hoje a casa do senhor Firmino Teixeira (pai de Aurélio), outro na casa de Zé Barreto (tio de Edite Mendes), outro na casa da senhora Imperatriz ….. (hoje casa da senhora Marquinhas) no largo do Eiró perto da capela e um outro numa das casas da família Teixeira (os Fiães), junto à casa de Maria Fontoura.
Por norma, a casa/dono que não utilizava o forno só para consumo próprio, cobrava uma maquia pela utilização. Essa maquia era paga em pão de centeio cozido logo ao acabar de sair, um ou dois pães conforme a fornada. Um pão de centeio normal nesse tempo na nossa freguesia e vizinhas tinha de peso cerca de cinco a seis arráteis e, meio pão, bolo como se costumava dizer, tinha metade ou até menos. Cada arrátel (antigo peso de 16 onças) equivale a 459 gramas.
A lenha para “desamuar” o forno, isto é aquecer ou lançar-lhe fogo era normalmente apanhada no monte à cabeça pelas mulheres que iam cozer. Quando frio (desamuar) era necessário mais lenha do que quando só para aquecer.
Os fornos de cozer artesanais das aldeias foram e ainda continuam a ser lugares de sabedoria, cultura e até de alguns rituais por parte das pessoas, como, por exemplo:
Oração (espécie de ritual), de outros tempos e que se conserva ainda hoje no processo de fabrico do pão e do folar artesanais na nossa terra. Depois de amassado é posto a levedar (em lençóis de linho), dividido em porções e faz-se uma cruz, com a mão dizendo:
São Vicente de acrescente, São Mamede te levede, São João te faça pão, Pela graça de Deus e da Virgem Maria, Padre-nosso e Ave-maria.
A pessoa encarregada de meter o pão ao forno faz com a pá três cruzes na porta daquele e dizendo:
Cresça o pão no forno, E os bens pro mundo todo, Paz e saúde a seu dono. Pela graça de Deus e da Virgem Maria, Padre-nosso e uma Ave-maria.
Normalmente é sempre a mesma pessoa no forno a rezar estas duas orações. Também há quem as reze de uma só vez, quando o pão se acaba de amaçar, ou seja: antes de levedar.
Quanto a forno comunitário, ninguém se recorda de existir, tal como em Santa Valha.
Gorgoço, 2008/2018.
Gastronomia:
Na gastronomia da comunidade Gorgocense, destaca-se entre outros: os chicharros com couves ou grelos, as vagens secas também conhecidas noutros sítios por cascas ou casulas, os milhos em tomate ou com grelos salteados acompanhados com carne de porco, os enchidos caseiros, o borrego/cordeiro assado em forno a lenha, o folar, e ainda os peixinhos do rio fritos. Os fornos a lenha das senhoras Esmeralda ..….. e Berta Barreira serviam toda a comunidade. No dia da festa do Padroeiro os peixinhos do rio fritos ou em escabeche faziam parte da ementa em cima da mesa.
Todas estas boas iguarias são sempre acompanhadas com o bom néctar que as videiras de castas tradicionais seculares da terra fornecem, e que recomendo”. Chegou a existir na aldeia um forno comunitário que dava serventia ao povo para fabricar o pão de centeio, a bola calcada, os folares da páscoa e cozinhar alguns assados, sobretudo em dias festivos.
Vou falar-vos de uma iguaria típica muito especial que era antigamente peguilho em cima da mesa da gente do Gorgoço, que é a seguinte:
Omeleta de “Ovo com Rabo-de-Noz”:
O “Rabo-de-Noz” é uma planta comestível que nasce espontaneamente nos campos junto a cursos de água no período da estação da primavera e com flor branca, mas só parte desse rebento que é de paladar adocicado se cozinha, principalmente na omeleta, “omolete” como continua a dizer ainda bastante gente. Havia e há ainda uma ou outra pessoa que junta esse rebento na sopa, como, por exemplo a de farinha e até mesmo em outros cozinhados como no arroz, mas o mais tradicional é na omeleta.
Contou-me há algum tempo a Gorgocense Adite Mendes, ser a “Omelete de Rabo-de- noz”, como diz o povo, um peguilho muito bom e apreciado feito com ovo batido e com esse tal rebento misturado que a natureza nos oferece gratuitamente e que lhe dá um sabor muito especial e único.
Dizem os mais entendidos existir outro rebento da mesma espécie mas de paladar amargo, mas esse não é comestível.
Certamente existirão plantas, macho e fêmea, do mesmo laço familiar.
Gorgoço, 2008/2018.
Bicas de Água Públicas:
Eram quatro, as bicas que o Município instalou em 1966 no Gorgoço para fornecer água potável á aldeia, para além, é claro, da secular fonte de mergulho no largo debaixo e de uma pequena poça térrea à superfície junto à antiga escola-primária, esta mais utilizada para outros fins e que secava no início do verão.
Essas antigas bicas construídas em pedra com as referências “CMV – 1966” esculpidas a cinzel no topo situavam-se nos seguintes locais: Uma perto do fundo da ladeira da (agora) rua Principal, na esquina sul da casa com terraço dos pais de Eugénia Barbeiro e sogros de Aurélio Teixeira agora proprietários, outra no fundo dessa mesma rua junto ao largo, outra a meio da rua do Souto e a outra, no largo do Eiró perto da antiga escola-primária, hoje centro de convívio.
Tal como em todas as aldeias das freguesias do concelho, foi o Dr. José Lage, presidente da Câmara de então que as mandou edificar e colocar.
A exploração da água que as alimentava por gravidade fica acima a norte da aldeia, no lugar ao Vale da Finteira, junto ao limite divisório da área geográfica da Freguesia, perto do (agora) estradão que liga a Barreiros, antiga propriedade agrícola dos falecidos senhores Manuel Barreira e esposa, hoje de sua filha Laura por herança.
Essa água foi cedida gratuitamente ao povo por essas beneméritas pessoas tendo em conta a enorme dificuldade de alguma gente mais idosa e distante em transportar o cântaro á mão ou à cabeça da fonte para casa e a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, à data presididas pelo Dr. José Lage e Manuel Lopes, respectivamente, dizer, só virem a instalar as bicas se o povo arranjasse água e ajudasse gratuitamente nos trabalhos da exploração, da abertura da vala e da colocação dos tubos. E foi o que aconteceu. Esta informação foi-me contada por várias pessoas da aldeia desse passado. Hoje essa antiga exploração fornece unicamente o tanque público de lavar a roupa.
Ninguém sabe na comunidade explicar o paradeiro dessas antigas e históricas bicas. Contudo, tudo aponta, que poderão ter sido tiradas dos sítios por volta de 1990 ou no início dessa mesma década, quando da ligação da água ao domicílio canalizada de Santa Valha no último mandato da Junta presidido por Manuel Guedes, já que os presidentes da Junta que lhe seguiram, Mário António Neves e Jorge de Castro, ambos dizem e afirmam, não ter conhecimento do destino dessas quatro bicas. Mas que existiram, existiram, diz o povo.
Só se conhece, que a pia/base de uma delas está colocada por baixo da torneira na entrada exterior do cemitério e que uma das duas restantes pedras que provavelmente a completava se encontra encostada a uma habitação, certamente a servir de assento para descanso do(s) dono(s) da casa. Tudo leva a querer que essas duas peças de granito terão pertencido à mesma bica, a que estava instalada junto à casa (dos falecidos pais) de Eugénia Barbeiro Teixeira e de um poste de iluminação pública, e que em 1995, um tubo com torneira ainda deixava correr água para cima dessa tal pia.
Gorgoço, 2008/2018
Nota: Ouvi contar recentemente o seguinte: Quando se constou na aldeia que a Junta de Freguesia tinha a intenção de recuperar uma das antigas e históricas bicas, a pedra que se encontrava há bastantes anos na rua junto a uma das portas da casa de habitação, desapareceu do local. Outro mistério, diz o povo!!!Sem comentário, digo eu …..
Gorgoço: Agosto de 2023.
Deixo aqui os meus parabéns à Junta de Freguesia pela instalação recente (Julho/2024) de uma Bica de água potável no largo do Eiró, a única hoje existente em toda a aldeia do Gorgoço. Uma falta reparada. Ouvi contar, que a água que a abastece é proveniente da antiga exploração situada a norte no lugar ao Vale da Finteira, a mesma que abastece o tanque de lavar a roupa por perto. A colocação junto à bica, dos dois bancos também em granito para descansar, veio acrescentar mais-valia ao espaço de lazer. Bem visto.
Gorgoço, 11-11-2024
Água ao domicílio: Deu-se por volta de 1990
Lavadouro ou Tanque de Lavar a Roupa:
O primeiro sítio público que existiu outrora no Gorgoço para lavar a roupa à mão foi numa poça térrea situada “Ás-Lameiras” propriedade da aldeia, a menos de duzentos metros abaixo do largo e da fonte que a fornecia. A essa poça, o povo chamava-lhe “lavadouro”. Para lá chegar havia unicamente um estreito carreirão pedonal que atravessava a(s) propriedade(s) de lavoura dos falecidos senhores Armando Caseiro e mulher.
Por volta de finais de 2010 a Junta de Freguesia construiu o actual tanque, por troca do espaço com Orlando Caseiro, filho dos anteriores donos. A exploração da água que o abastece por gravidade fica acima a norte, no lugar de Vale da Finteira, perto do (agora) estradão para Barreiros. Essa exploração foi cedida gratuitamente ao povo para fins públicos no ano de 1966 pelos falecidos senhores Manuel Barreira e esposa na altura proprietários do terreno, quando da instalação na aldeia das quatro antigas bicas de água potável, terreno agrícola mais tarde herdado por sua filha Laura.
Se no passado os lavadouros ou tanques foram utilidades comunitárias indispensáveis, hoje-em-dia já nem tanto, atendendo à ligação da água ao domicílio e, um pouco mais tarde, ao aparecimento das máquinas de lavar que os foram progressivamente substituindo. De igual modo, a diminuição significativa da comunidade também contribuiu em muito para isso.
De todo esse nostálgico passado, resta somente a lembrança e transborda a saudade de alguns bons momentos lá convividos, tendo em conta que eram normalmente sítios, tal como as fontes e as bicas, para as mulheres porem a conversa em dia umas com as outras; também sítios de novidades, segredos e/ou confidências e até mesmo de algumas alegres e bonitas cantigas.
Gorgoço, 2008/2018.
Saneamento e Pavimentação das Ruas e Largos:
Conclusão em 2008. Resta somente pavimentar uma ou outra pequena travessa pedonal, como aconteceu, por exemplo, em Setembro de 2016, com a pavimentação da travessa/rua da Fraga.
Parque de Merendas do Rabaçal: A data da inauguração data do ano 2000.
Desde 2012 que um grupo de jovens, alguns pertencentes aos fundadores do Grupo Musical de Santa Valha denominado “PadariaGang” tem levado a efeito um festival anual de verão realizado no parque de merendas do rio Rabaçal na zona do Gorgoço, titulado por “Vinho, Folar e Rock`N`rol no rio”.
-Fica aqui uma mensagem desse grupo extraída da página do Facebbok datada de 12-07-2018, poucos dias depois do último festival realizado nesse ano: “Em 2012 estes malucos iniciaram o Vinho Folar e Rock`n`roll no Rio …. Nesse dia avariou um carro, uma mota e a chaimite ficou sem gasóleo! O resto é história! 😀 — com Micael Santos, Ruben Miguel, Joaquim Silvestre, José Robert Nogaró, Mickael Bouça, Sérgio Neves, Carlos Vieira, Vitor Pires, Mário Fernandes, Zé Manel Fontoura, Marco King, André Fernandes, Hugo Picamilho, Bruno Santos e Ruben Miguel. – Photography em Gorgoço, Vila Real, Portugal.”
07-07-2012 – Grupo de Jovens no 1º. Concerto Musical no Rio Rabaçal, Gorgoço.
Datas de Inaugurações e outras de interesse:
Estrada: Inicialmente foi um caminho vicinal. O primeiro rompimento remonta a 1948 ou 1949. O alargamento e pavimentação em betuminoso de alcatrão foram inaugurados em 17-09-1989.
Primeiras Motorizadas: As de Manuel Barreto e de Gabriel Teixeira em finais década de 1950 ou início de 1960.
Primeiros Automóveis: Os de Aniceto Bouça, marca Vauxhall, e Alberto Silva, conhecido por Alberto Guarda, marca Opel (?), em 1968.
Primeira Bicicleta: De Gildo Palas em meado ou final da década de 1960 e de José Pardal em “1970 (?)”.
Primeiro Rádio: Em 1947 a pilhas, de José Bouça, conhecido também por Zé da Inês.
Primeira Televisão: De Albano dos Santos Palas e António da Cruz Quintela, logo após a chegada da luz eléctrica em 1976.
Luz Eléctrica: A inauguração aconteceu em 1976. Pardelinha em 1977 e Santa Valha, 28 de Abril de 1967.
Primeiro Tractor Agrícola: Em 1973, de marca Massey-Ferguson 165, do Senhor Daniel Fernandes Palas, destinado só a serviço próprio.
Bicas de Água Pública: Em 1966 – Eram quatro as antigas bicas construídas em pedra com as referências “CMV – 1966” esculpidas a cinzel no topo. Foi a Câmara Municipal (CMV) presidida à data pelo Dr. José Lage que as mandou edificar e colocar à semelhança de outras em todas aldeias do nosso Concelho. A água (doada ao povo) que as fornecia vinha da captação situada no lugar do Vale da Finteira. Mais tarde, por volta de 2010, essa mesma captação, veio fornecer unicamente água para o Tanque de lavar público.
Água ao domicílio: Deu-se por volta de 1990.
Estradão Gorgoço/Barreiros: A maior parte desse estradão teve origem num antigo e apertado caminho agrícola. O rompimento e alargamento deram-se em 1982. A conclusão só veio a aconteceu em 2005.
Centro de Convívio: Inauguração em 23-03-2009, por reconversão ou requalificação da antiga escola-primária. Colocação da cobertura ou telheiro no terraço exterior deu-se em Agosto de 2017.
Feira Anual do Gorgoço:
Documentos: Aldeias do Concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – “Memórias Paroquiais de 1758”, no manuscrito do Padre Domingos Gonçalves, Abade de Santa Valha – (MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 34, SANTA VALHA, Monforte de Rio Lima (leia-se Monforte de Rio Livre), consta no texto o seguinte: “Faz-se feira em uma anexa de Gorgoço, de que já fiz menção, em dia de São Bartolomeu, acode a vizinhança a comprar e vender espadelas de linho em rama, paninhos, vinho e pão branco e tendas de mercadorias. E dura somente quatro horas”. (Ver Site, Link- Freguesia). Ouvi dizer que essa feira se fazia junto à capela.
Censos Antigos:
Documentos. Concelho de Valpaços – Aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhe pertenciam. “Livro do Padre António Carvalho da Costa – Docs. 1706 a 1712”.
Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem
“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
(1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre [pp. 432 – 433]
[conforme o original]
Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem.
Santa Valha he cabeça da Abbadia do Padroado Real, que rende setecentos mil reis: tem este lugar, & a quinta de Calvo da sua Freguesia cento & trinta visinhos, & demais da Igreja Matriz tem huma Ermida, & vinte fontes.
Fornos tem noventa visinhos, Igreja Paroquial da apresentação do Abbade de Santavalha, mais huma Ermida, & oito fontes.
Paradelinha tem 16. Visinhos, nenhuma Ermida, & seis fontes.
Bouça tem cincoenta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, nenhuma Ermida, & huma fonte.
Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.
Há quem diga na aldeia, que ouviram dizer a gerações antigas, que a aldeia primitiva teve origem numa quinta agrícola.
Se sim, terá pertencido essa dita quinta a família de morgados? Certeza(s) não existe(m).
Descendentes de Morgados:
Apesar de já ninguém se recordar e mesmo de ter ouvido falar aos antigos, Gorgoço também teve noutros tempos descendentes de família de Morgados, ou seja, gente de família nobre e importante.
Há, no entanto, um ou outro que diz ter ouvido contar, que na aldeia, existe um casarão, hoje -a maior parte dele- em ruína profunda, situado do lado esquerdo da rua principal e com porta carral virada para o largo do Eiró e do cruzamento que vira para a rua da praça ou largo da Capela, a maior parte dele pertencente a Aurélio Teixeira, e, que essa antiga moradia, foi noutros tempos, residência de gente importante e com posses, incluindo um padre.
Para além do referido, nada mais sabem dizer, mas a probabilidade de ter sido antiga habitação de gente nobre, de posses e de poder, é bastante. Ou quiçá, de uma outra pessoa importante e também de posses, como, por exemplo, do “padre/Reverendo Manuel Gomes da quinta do Gorgoço, falecido em 10 de Janº. de 1820, que pediu para ser enterrado na capela de São Bartolomeu, amortalhado segundo o costume eclesiástico e que deixou em testamento -paroquial- aos pobres da quinta um alqueire de pão a cada um para a novidade. Disse ainda no dia do enterro que se dessem aos pobres, dois alqueires de pão cozido e um almude de vinho; e aos Reverendos padres trigo, queijo e vinho.
Nota: Publicado na página 137 do livro Freguesia de Santa Valha – História e Património do autor Maria Aline Ferreira: Testamentos e Funerais dos Vizinhos…. ”
Foram estes os descendentes de Morgados:
António Pinto de Andrade, natural de Fornos do Pinhal, filho de Domingos Pinto de Andrade e de Brites de Sá Moraes, filha de António de Morais Castro, segundo Morgado dos Ciprestes de Santa Valha, teve com Maria, natural de Fornos do Pinhal sete filhos, tendo morrido solteiro.
Filhos:
-Maria Pinto de Andrade nasceu no Gorgoço, a 7 de Fevereiro de 1751. Tendo como Madrinha
Nossa Senhora do Prado.
–Padre – Manuel Pinto de Andrade nasceu no Gorgoço, Clérigo.
-Inácio Pinto de Andrade nasceu em Fornos do Pinhal, faleceu solteiro, no Gorgoço.
-Jerónimo Pinto de Andrade nasceu em Fornos do Pinhal, faleceu solteiro no Gorgoço.
-Maria Madalena Pinto de Andrade nasceu em Fornos do Pinhal, faleceu muito jovem
no Gorgoço.
-Angélica Pinto de Andrade nasceu em Fornos do Pinhal e faleceu solteira em Fornos do Pinhal.
-Brites Pinto de Andrade nasceu no Gorgoço e faleceu solteira em Sonim.
-Maria de Moraes Castro nasceu no Gorgoço, onde faleceu solteira.
–Padre – Manuel de Morais nasceu no Gorgoço.
-Inácio de Morais nasceu no Gorgoço.
-Jerónimo de Morais nasceu no Gorgoço.
-Maria Madalena Moraes Castro nasceu no Gorgoço.
-Angélica de Moraes nasceu no Gorgoço.
-Brites de Moraes Castro nasceu no Gorgoço.
Fragão da Idreira: verdadeiro, ou lenda!
Lá para os lados do monte da Idreira, numa encosta muito acentuada e de acesso difícil, propriedade dos Quintelas, a pouco mais de duzentos metros a nascente do cemitério e ainda menos do estradão que vai dar ao rio Rabaçal, existe um enorme fragão ou fragaredo, conhecido por “Fragão da Idreira”.
O povo do Gorgoço sempre ouviu dizer que o interior desse soberbo fragão esconde um valioso tesouro constituído principalmente por uma “cabra em ouro” e que, quem o encontrasse, ficaria muito rico e milionário. Dizem ainda que também no interior consta existir uma cozinha do tempo dos mouros, composta por uma bancada, mesa e assentos, tudo em pedra construídos no local. Para além disso, nada mais sabe contar.
A curiosidade foi tanta, que alguém em Maio de 2016, se encheu de coragem e lá entrou. Que se saiba, só um ou outro de décadas passadas tentou fazer o mesmo, mas a falta dessa tal coragem, provavelmente devido aos parasitas e ao cheiro da bicharada brava que por lá fazem dormitório e esconderijo, e até mesmo a algum eventual conto, crença ou mito, desmotivou esses tais anteriores curiosos de outros tempos.
Quer o buraco da entrada, quer a cavidade que dá acesso ao interior são estreitos. Possuem ambos, não mais de meio metro de largura e altura e cerca de cinco de comprimento. No interior do fragão existe realmente um compartimento de forma oval cavado na rocha de cerca de dois metros de diâmetro e de metro e setenta de altura construído somente pela natureza. Para lá entrar, tiveram que retirar umas pedras que serviram outrora para alguém montar armadilhas artesanais para caçar animais do monte.
Tanto o curioso que lá entrou, como os dois que ficaram atentos de fora na porta, motivou-os unicamente a curiosidade de ver se existia, ou não, a tal cozinha construída por algum dos antigos povos que por cá habitaram há muitos séculos, e não na expectativa ou ensejo de encontrar e levar para casa o tesouro da tal “cabra em ouro” ou algo valioso semelhante, tendo em intenção engordar a conta bancária e ficar rico; mas nada viu de algum interesse, a não ser alguns morcegos que acordaram sobressaltados do tranquilo e habitual sossegado sono, fugindo todos num bater de asas.
Por último, resta acrescentar, que o possível almejado tesouro, poderá provavelmente estar enterrado ou escondido em algum certo lugar dos dois restantes túneis cobertos de terra e pedras com alguns metros de comprimento que os curiosos visitantes não conseguiram ver a olho-nu, ou, quiçá, bem guardado por alguma moura-encantada que continua bela como dantes a habitar neste inóspito mas majestoso sítio com vista panorâmica para o rio. Quanto à cozinha, a magia da fada poderá ter feito desaparece-la quando da chegada dos curiosos.
Gerações antigas da comunidade do Gorgoço que já partiram certamente saberiam contar a história complecta da moura do “fragão da Idreira” e se ela é mesmo verdadeira, ou, se: “Reza a lenda,……..”.
A Moca vai no burro!
Um certo dia do mês de Junho de meados da década de 1950, Manuel António Vaz, também conhecido por “Ti Gaspar”, homem pobre, mas bom, honesto e trabalhador, ter-se-á deslocado à feira quinzenal de Lebução com o seu animal de carga para vender figos e uma ou outra pavia também do cedo, a fim de com esse proveito poder ajudar a sustentar a numerosa família que tinha, quando, ao passar num caminho da aldeia de Fiães que dá acesso a Lebução da zona da terra fria, um grupo de rapazes lhe perguntou!
O que leva aí na carga….!
Figos, rapazes!
Olhai, a moca vai no burro!
Ouviram!
Sinal que o “Ti Manuel Gaspar” não terá gostado do modo como os jovens lhe terão feito a pergunta, certamente com algum tom de ironia, troça e gozo e com outras palavras mais.
*Tendo em conta o acontecido contado na altura por ele, a frase ficou perpetuada e ainda hoje é costume dizer-se na aldeia e na restante freguesia quando existem discordâncias entre pessoas:
Nota: Trata-se de uma engraçada e intemporal memória que também faz parte da história e da riqueza cultural do povo Gorgocense deixada por esse bom e humilde homem falecido há cerca de quarenta anos, com o qual na minha juventude tive o gosto de conviver numa ou outra tarefa da lavoura lá para as terras da Coutada, mais propriamente numa propriedade de então (falecida) minha avó materna Laudemira da Conceição Ferreira da Cunha, conhecida na família por terra do Gaspar.
Padre, e a Cobrança da Côngrua no Gorgoço.
Um certo dia de por volta de 1970, o padre da paróquia de Santa Valha, António de Jesus Branco, padre Branco como era conhecido em toda a paróquia, mais a sua criada e conterrânea de Perafita, terras de Barroso (Montalegre), de nome Felicidade, dirigiram-se à aldeia do Gorgoço na sua viatura VW (Carocha) para cobrar aos paroquianos a Côngrua ou Premissa anual consagrada na Lei Católica.
Quando chegaram juntamente com o Sacristão local João Guerra (Bouça) à casa da senhora Isabel da Conceição mais o seu marido Manuel, gente com pouco e que vivia só do que a terra fornecia, mas honesta e trabalhadora, para receber a tal Côngrua ou Premissa de acordo com as posses do casal, neste caso, composta de um alqueire de grão de centeio, pão como se dizia, e um almude de vinho do melhor da pipa, a senhora Isabel, terá dito ao padre, que no presente ano só lhe podia dar o alqueire de grão e um cântaro de vinho (equivalente a meio almude) dado no ano anterior ter colhido muito pouco devido a causas da natureza, mas que no ano seguinte receberia o meio almude em falta.
Não satisfeito com o pedido humilde e sério da senhora Isabel, o padre Branco, homem de poucos afectos e que granjeava pouca simpatia em quase todas as comunidades da paróquia que presidia, devido às suas atitudes de discórdia e mau feitio que tinha quase sempre para com os seus paroquianos fora do interior da casa de Deus, disse à senhora Isabel, não ser ele homem de “meia-reca”, portando, tinha de receber a côngrua na totalidade, exclamando ainda mais o seguinte para ela: ser “homem de marca corneta”.
Atendendo à conversa e atitude menos agradável do padre, a senhora Isabel, já com os cabelos em pé e nervos à flor-da-pele, mesmo com a paciência e respeito que lhe tinham sido ensinados nos muitos anos de vida que já contava, não se terá contido e ter-lhe-á dito o seguinte:
Olhe senhor padre! Se o senhor é “marca corneta” como disse, pois então saiba, que eu sou “marca caralho”! Se não quiser receber o que lhe posso dar, o problema é seu.
O padre Branco, que era costume seu dizer publicamente não temer ninguém, provavelmente, penso eu, devido à sua origem Barrosã, concelho de Montalegre, não fez mais do que meter o rabo entre as pernas e receber o que a senhora Isabel lhe terá oferecido; mas como bom pastor e amigo dos pobres da sua paróquia que era, não se esqueceu de lhe cobrar o resto da dívida no ano seguinte.
Nota pessoal: Esta memória que acabo aqui de contar, da qual já tinha ouvido falar parte dela algumas vezes, foi-me contada em pormenor há pouco tempo por um familiar chegado da senhora Isabel, mulher que faleceu centenária por volta de 1995 já com a bonita e invejada soma de 104 anos de idade.
António de Jesus Branco, antigo Capelão Militar, foi pároco-abade titular da Paróquia de Stª. Valha entre meados da década de 1960 e o ano de 1976. Atendendo aos conflitos constantes que vinha tendo com o povo de Santa Valha e não só, e aos poucos amigos que amealhou devido ao seu feitio, podendo-se contar todos eles pelos dedos das duas mãos, foi obrigado a abandonar definitivamente a paróquia quando teria 50 anos de idade ou pouco mais, por pressão exercida pelo povo da aldeia que tinha há pouco tempo deixado a ditadura e recebido a democracia e a liberdade, ficando a paróquia sem padre titular cerca de um ano até chegar o senhor padre Alberto da Eira.
Sabe-se que foi algum tempo depois residir para Chaves, abandonou a actividade sacerdotal, casou e ter-se-á dedicado definitivamente ao ensino, coisa que já vinha fazendo há alguns anos nas horas vagas como professor de francês do primeiro ciclo do ensino secundário em Valpaços.
Na sua passagem por Santa valha de pouco mais de uma década, o povo que o conheceu e conviveu com ele, recorda-o tão só da seguinte forma: Dentro de portas da Igreja foi um bom orador da pregação do Evangelho de Cristo. Como pastor do seu rebanho fora de portas e força viva da aldeia que era, foi um sacerdote com atitudes de pouco bom senso, nobreza e até mesmo de certa prepotência, não deixando recordações à grande maioria dos seus fiéis.
Agradecimento:
Agradeço às várias pessoas do Gorgoço que colaboraram para estas histórias e memórias. No entanto, há uma, a quem deixo aqui um agradecimento especial, ao senhor Manuel dos Santos Vaz, também conhecido na Freguesia por Manuel Carolino, pessoa simpática, acolhedora, generosa e solidária. Apesar dos seus 84 anos de idade, é portador de uma excelente memória, muito bom conversador, exímio contador de histórias e de quem toda a gente gostava. Foi uma pessoa que ajudou a compreender a origem do Gorgoço.
História: “Moscas do Gorgoço”
Certo dia, uma mulher pobre mais seu filho de uma localidade próxima, iam a caminho do Gorgoço, quando repararam que ao lado do caminho onde seguiam se encontrava um carneiro morto deixado por um pastor já coberto com algumas moscas e vespas. Dada a dificuldade da vida, a mulher e o filho, de imediato resolverem carregar o carneiro às costas para o levar para casa a fim ser comido à mesa com a restante família. Como não verificaram bem que tipo de insectos é que estavam pousados no animal, as vespas em maior número e mais agressivas, começaram logo a morder com o seu afiado ferrão os dois forasteiros, tendo um deles exclamado alto o seguinte: – PORRA OU FO…ASSE!, QUE AS MOSCAS DO GORGOÇO, É QUE MORDEM!
Ainda hoje é costume dizer-se o seguinte, quer na nossa freguesia, que nas aldeias próximas: Porrraaa!!! “Que estas moscas mordem ou ferrão como as moscas do Gorgoço”!
Outra versão que me foi contada no Gorgoço: que em vez de mãe e filho, terá sido um pobre cigano, chamado ou alcunhado “Medo” (por ser muito feio) e que o pastor desse rebanho, terá sido o falecido senhor Augusto Moreiras, conhecido também na aldeia pelo “Ferragacho/Ferragucho”.
Nota: Não se trata de uma lenda, mas sim de uma história verdadeira passada na década de 1940 ou 1950.
Amílcar Rôlo – Dados colhidos entre os anos de 2008 e 2018
