Pardelinha
Pardelinha é uma pequena aldeia anexa da freguesia de Santa Valha, actualmente com cerca de cinquenta residentes. Situa-se a três quilómetros a norte da Freguesia.
É rodeada, a norte e noroeste, por montanhas com alguma altitude; tem um bonito fontenário em granito com duas bicas datado de 1928, onde brota permanentemente água límpida e cristalina de óptima qualidade e com bastante frescura no verão, cuja visita recomendo. Tem ainda uma Capela e seu padroeiro é Santo Antão. A Festa em sua honra é dia 17 de Janeiro.
No centro da aldeia em frente à antiga escola-primária existe um pequeno largo ou praceta onde o povo se costuma reunir em horas de descanso. É o espaço mais nobre da terra. Tem uma bica datada de 1966 com água potável de excelente qualidade canalizada de um chafariz mais acima e duas mós de um antigo moinho de rodízio de moer cereal conhecido pelo moinho do lugar de Valongo ou À Vessada/Avessada, pedras de uma antiga nobre indústria cultural de outros tempos que servem de mesas para jogar uma partida de sueca, ou até mesmo para quem visite a aldeia e pretenda comer o farnel.
Em 1814 – início do século XIX -, Pardelinha – ainda – era considerada uma quinta anexa à freguesia de Santa Valha, conforme nos dizem certidões de nascimento e de falecimento de residentes da Conservatória do Registo Civil e Predial desse tempo, como, por exemplo, a do falecimento de António dos Santos Rolo do dia 01 de Janeiro de 1894 com 80 anos de idade. Diz a história que o povoado se chamou ou apelidou “Quinta de Pardelinha”, atendendo à sua diminuta dimensão, quer pelo número de fogos, quer pelo de residentes, como certamente o Gorgoço e o despovoado Calvo da nossa Freguesia, em ruínas há mais de meio século. O mesmo terá acontecido com outras pequenas comunidades/localidades.
Uns anos antes, mais propriamente em 1796, Pardelinha tinha 27 fogos, 72 pessoas, 3 sem ocupação, 1 cirurgião, 1 barbeiro e 7 lavradores. Dois séculos depois – por volta de 1970 – chegaram a residir mais de 130 pessoas.
Quer nesse tempo, quer posteriormente, todos os habitantes dedicavam-se à lavoura/ agricultura com apoio de animais. O gado bovino, ovino e caprino foi também fonte de receita de algumas famílias.
Das corpulentas e possantes juntas de bois ou vacas de trabalho que outrora existiram, entre elas, as de Manuel Alves, mais conhecido por “Manuel da Amélia”, hoje já só resta uma, a junta de vacas de Augusto Fontoura Lopes. Também só uma parelha de burras(os)/(jumentas(os)) jungidas (junguidas) para o trabalho de Zeferino Alves, que até há uma década atrás teve junta de vacas. A batata, a castanha, o cereal e a carne em geral, sempre foram da maior qualidade, tendo em conta o clima existente.
Dessa tão próspera actividade, hoje só resta: alguma lavoura já semi-mecanizada quase toda ela para sustento familiar, algum negócio de madeiras e pastorícia de gado ovino.
Por ser uma terra de gado lanígero, em Pardelinha, não havia outrora nenhum lar onde não existisse lã de ovelha, roca, fuso, parafusa (para juntar os dois fios e servir de novelo) e ainda as quatro agulhas finas para fabricar as meias, também conhecidas por “carpins”, que as pessoas usavam para calçar os socos (as) ou tamancos a maior parte do ano. A lã, depois da tosquia e antes de ser trabalhada, passava por várias fases, assim: era lavada, escarduçada, fiada e dobada artesanalmente com a ajuda da roca e do fuso.
Por volta de 1977 as velhas candeias, candeeiros e lampiões a petróleo foram pendurados na parede para dar lugar à moderna luz eléctrica. A água canalizada ao domicílio, o saneamento básico e o melhoramento da estrada – em piso de alcatrão – deu-se no início da década de 2000, vindo a contribuir em muito para a qualidade de vida das pessoas.
Neste último século (XX), que se saiba, existiram na aldeia, quatro barbeiros (Cândido Fontoura, Artur Serra, Eliseu Santos e Artur Serra Bruno), três moleiros, vários carvoeiros, tendo alguns que levado a profissão mais a sério como: Ti Vicente, Ti Gaiteiro e o último, Constantino. Todavia, dessas artes, actualmente também já nada existe, tudo acabou. A Escola-primária – mista e de uma única sala – foi desactivada em 2006 por falta de alunos; Foi outrora o orgulho de uma aldeia viva e em crescimento. De igual modo o campo de futebol que dava serventia à mocidade, onde não era difícil arranjar na terra duas equipas para jogar entre si. Hoje, tanto a escola, como o campo, encontram-se já no baú de memórias para mais tarde recordar.
Para evitar a progressiva degradação da instalação escolar, a Junta de Freguesia reconverteu-a num Centro de Convívio, recentemente inaugurado (03/10/2009), com a presença honrosa, entre outros convidados, do senhor Presidente da Câmara Municipal, Engº. Francisco Batista Tavares e do senhor Presidente da Junta, Jorge Augusto de Castro.
Na gastronomia, destaca-se o “genuíno” fumeiro de fabrico artesanal, e a festa em Janeiro em honra do Santo padroeiro, Santo Antão, ainda continua a ser o local de promoção e venda desse excelente produto caseiro. Mesmo, progressivamente menos, o fumeiro ainda hoje é “Rei” no dia de festa. O velho forno a lenha comunitário junto do largo no centro da aldeia continua a manter-se em funcionamento para cozer o pão, os folares, os assados e outras demais iguarias, sabedorias ancestrais que ainda permanecem na pequena comunidade.
No tocante ao património cultural arqueológico, Pardelinha também tem coisas de interesse para visitar. Existem muito perto da aldeia, ou seja, a aproximadamente 300 metros para nascente da Capela de Santo Antão e a 100 metros a poente do regato, três lagares de vinho cavados/escavados na rocha, nos lugares denominados por Fonjo e Ladeira, que tudo indica, tal como outros, serem originários de um passado romano. Outro mais abaixo à Ladeira, a cerca de 200 metros do lado de lá do regato numa propriedade de Maximino Coelho, e ainda um outro à Ribeira, no início do caminho que vai dar ao Vale, também numa propriedade de Maximino Coelho.
Ainda, a sul da Capela, também muito perto, no lugar denominado por “Fragas da Moura”, podemos ver algumas escavações esculpidas em diversas fragas/rochas e ainda uma fraga de formato arredondado com um pequeno orifício no fundo junto ao solo, que dá acesso ao seu interior, a quem o povo chama de “Fraga da Moura”, onde, noutros tempos, alguns jovens lá conseguiram entrar, certamente movidos por mera curiosidade e de terem ouvido dizer aos mais velhos que no interior da pedra existia um tesouro escondido e guardado por uma moura encantada que era jovem e donzela.
Provavelmente terá existido uma lenda desse local, mas ninguém me soube dizer ou contar na íntegra essa secular história. Certo é que, quer a moura em pessoa, quer o tesouro nunca irão aparecer, e porquê? Porque assim reza a lenda.
Um pouco mais ao lado e acima, podemos encontrar também uma fraga lisa bastante inclinada conhecida por escorregadouro, onde outrora, muitas crianças e mesmo alguns adultos lá rasgaram as calças e as saias.
A cruz de pedra que se encontra no interior do cemitério, conhecida por “Cruz do Calvário”, foi transferida há muitos anos do sítio do Calvário às Lameiras, perto da Capela de São Antão. Ainda hoje é possível ver a escavação na pedra onde assentava a base dessa cruz. Hoje só resta um ou outro que se recorda dessa transferência aquando da construção do cemitério em 1928. Para valorizar ainda mais o património e as memórias do passado, seria oportuno que esse símbolo de culto religioso regressa-se ao lugar próprio que lhe deu o nome.
Para além do património edificado existem no território da aldeia alguns geomonumentos ou geossítios que a natureza construiu e que são dignos de serem visitados, entre eles: A “Pala do Mocho” às Gândaras que serve de abrigo aos pastores que por lá passem em dias de chuva ou invernia, com uns enormes rochedos que podem servir de miradouro e o “Penedo Redondo” situado numa encosta à Estiveira que mexe quando aplicada a força humana, e que tem uma história engraçada passada até há quase um século atrás tendo a juventude como protagonista.
Não posso deixar de referir aqui uma pessoa ilustre (aqui casado) que praticou ao longo da sua vida o bem material e pessoal a esta aldeia, que foi o falecido Dr. Olímpio Seca. Médico dos pobres, como era conhecido, trazendo sempre muito conforto à comunidade. Era casado com a filha da terra, Maria Fernanda de Castro, filha do também benemérito, João António de Castro. O Dr. Olímpio e a esposa, não obstante residirem em Vilarandelo, tinham uma das melhores casas agrícolas de Pardelinha. No tocante a importantes beneméritos da aldeia não posso deixar de referir também Manuel José Rolo.
E é tudo isto que identifica esta terra, a identidade genuína da sua gente, a cultura e as memórias, os seus usos, costumes e tradições, e todo o seu património.
Resta por último acrescentar que Pardelinha é uma aldeia com história na vasta história da nossa freguesia. Portanto, visite este postal ilustrado da freguesia de Santa valha e verá que valeu a pena. Pardelinha é de gente boa, simples e hospitaleira.
Nota: Revista AQVAE FLAVIAE – Diz o seguinte a narrativa de 25 de Maio de 1939 do Padre João Vaz de Amorim, mais conhecido nesse tempo por padre João da Ribeira – Título- “Por Montes e Vales. Terras de Monforte e terras de Montenegro: Primitivamente escreveu-se Paradelinha, que é a forma contracta de Paradelhas; dizem alguns que o toponímico Pardelinha designa povoação que pagava menor contribuição ou quantidade de foro.
Pardelinha, Novº. de 2009 (Amílcar Rôlo)
DATAS HISTÓRICAS, E DE OUTROS ACONTECIMENTOS EM PARDELINHA
Capela de “Santo Antão” :
Santo Antão é o Santo padroeiro ou patrono da pequena comunidade de Pardelinha. É o padroeiro dos animais domésticos, onde algumas as pessoas desde sempre fazem promessas, pedindo ao Santo a recuperação de um animal doente, pedidos de boas ninhadas ou por outro qualquer motivo de fé e devoção. No tocante aos animais, foi sempre sobre o porco a prece mais solicitada, a par de Santo António.
Santo Antão foi um dos maiores sacerdotes da igreja católica. Ermita, considerado na religião católica, como pai do Egipto e de todos os monges. Dizem ter este Santo milagreiro vivido cento e cinco anos de idade. “Santo Antão do Deserto”, também conhecido como Santo Antão do Egipto, Santo Antão, o Grande, Santo Antão, o Ermita, Santo Antão, o Anacoreta, ainda o pai de todos os Monges.17 de Janeiro é a data da sua comemoração.
Desde finais da década de 1990 que em Pardelinha o dia da festa em sua honra que mistura a componente religiosa com a profana deixou de ser no verdadeiro dia (17). Se porventura esse dia coincidisse com dia de trabalho, passava a festividade para o dia de domingo imediato. A partir de 2016 voltou a ser alterada a data do dia da festa, passando do então dia de domingo para o de sábado, atendendo ao pedido de alguns conterrâneos e outros amigos que residem fora de Pardelinha, para que possam regressar a suas casas no dia seguinte em ambiente calmo e tranquilo.
Consta-se que no ano de 1904 a capela sofreu obras de remodelação no valor de 47.300 reis, mas ninguém conhece a data da sua edificação, nem está escrita ou esculpida em lugar algum referências a essa data, nem mesmo a explicação da razão porque os Pardelinhenses adotaram esse Santo como padroeiro da sua pequena comunidade, que veneram com muita fé e devoção. Provavelmente as gerações passadas saberiam responder e narrar tais acontecimentos.
Dada a beleza e a forma de fabrico em madeira, tudo indica que se trate da imagem inicial e original do Santo que deu à Capela o mesmo nome. A acompanhá-lo, no Altar-mor, encontram-se as antigas e não menos bonitas imagens de Nª. Srª. da Conceição, padroeira de Portugal e de Santo António, padroeiro do povo e dos namorados, entre outros. Por perto, mais três imagens, mas muito mais recentes: Sagrado Coração de Jesus, Nª. Srª. de Fátima e Nª. Srª. do Carmo vestida com manto de cor azul e com menino ao colo. Contou-me a zeladora da Capela, senhora de já muita idade, que ouviu dizer há muitos anos aos mais aos mais idosos, que as pinturas das três imagens mais antigas já foram restauradas duas vezes. Junto à porta principal existe uma pia baptismal em pedra já bastante antiga.
Tudo leva a querer que a capela se trate de uma edificação que remonta o século XVII, pelo motivo seguinte: Nos documentos: Aldeias do Concelho de Valpaços de meados do século XVIII por freguesias – “Memórias Paroquiais de 1758”, diz o manuscrito do Padre/Abade da nossa paróquia de então, Domingos Gonçalves, que Pardelinha (anexa a Santa Valha) tem uma Capela de Santo Antão, vinte vizinhos (moradias) e sessenta pessoas. No livro segundo (Corografia) do Padre António Carvalho da Costa sobre documentos de “1706 a 1712” do concelho de Valpaços: Aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no Termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhe pertenciam “ Abbadia de Santavalha, diz o seguinte: Pardelinha tem 16 Vizinhos, “nenhuma Ermida”, & seis fontes. (Ver Site da Freguesia de Santa Valha – Link-Freguesia).
A gente mais idosa da aldeia recorda-se unicamente que a capela sofreu algumas obras de melhoramento por volta de 1959 ou 60. Nessa data foi restaurada a pintura do Altar por um pintor de Mirandela especialista na arte chamado Carolino, cujos mordomos eram os senhores: José dos Reis, Artur Serra e Domingos Bruno. Nesse mesmo ano ou muito próximo a seguir, foi subida a cobertura, reparada a madeira do chão e construído o alpendre que antecede a entrada principal. Ainda há quem se recorde, como, por exemplo, Jorge Serra quando criança, que ao reparar a madeira do chão/soalho, foram vistas algumas ossadas humanas que se encontravam á superfície, tendo sido transferidas para o cemitério; sinal de que a capela chegou também a servir para enterrar alguém por qualquer motivo no tempo em que os mortos eram sepultados no cemitério de Santa Valha antes da construção do actual.
Segundo vagas informações de um ou outro mais idoso, dizem ter ouvido dizer que outrora era mais pequena, considerada uma Ermida, mas não existem certezas de algum acrescento. Foram todavia construídos uns anexos na traseira para recolha de materiais da Comissão de Festas, também por volta de finais da década de 1980 ou início de 90.
Últimas obras de beneficiação feitas na capela: Janeiro de 2011, inauguradas no dia da festa do padroeiro e que foram as seguintes: subida do chão ao nível exterior, aplicação de um novo pavimento em pedra (colada) no interior e no alpendre, pintura, e ainda, limpeza e aquisição de uma nova mesa do Altar-mor. A patrocinadora principal de todos estes trabalhos de melhoramento foi uma filha da terra, de nome Otília de Jesus Alves dos Reis, que contribuiu com cinco mil euros. A parte restante foi a cargo da Comissão de Festas, da Autarquia e de pequeno peditório popular. Seguiu-se passados poucos meses o restauro do Altar-mor, particularmente ao nível de limpeza e pintura. Um pouco mais tarde e atendendo à degradação do alpendre que antecede a entrada principal, em Dezembro de 2017, foi demolido e construído um novo, obras a cargo da Junta de Freguesia e da Comissão de Festas. Pela mesma Comissão foi ainda colocado um cruxifixo no cimo da portada livre do telheiro.
Dizem que foi António Manuel Alves quem mandou construir o Altar-mor e provavelmente o que mais terá contribuído para isso. O actual sino que data de 1893 de acordo com essa e outras referências esculpidas no bronze terá sido oferecido por Manuel de Jesus Castro ou pelo seu pai António Calhisto (Calisto?) que era avô do benemérito João António de Castro. O sino anterior era mais pequeno e a substituição deveu-se particularmente a algum já efeito deficiência no som.
Quando do levantamento de 2013 das peças de madeira que compõem o Altar para restauro, foi descoberto na parede por detrás deste, uma pequena estrutura cavada/escavada na parede que tudo indica ter sido o local onde antigamente estava colocado o (padroeiro) Santo Antão.
No Altar-mor deste espaço religioso existe também uma outra bonita imagem, a de “Santo António”, Santo este, que dizem os mais idosos da aldeia de Santa Valha, sede de Freguesia, ter pertencido outrora à capela do povoado do Calvo, povoado esse também anexo a Santa Valha que se encontra há bastantes décadas em ruína total. Como foi parar a imagem deste Santo a Pardelinha!? Dizem em Pardelinha que ela foi levada para lá por um desconhecido que passou a cavalo pelo povoado das casas do Calvo por volta da primeira ou segunda década do século XX (1920?), que viu a imagem do Santo António na Capela que já estava em início de ruínas e que a levou consigo.
Dizem também, que esse tal desconhecido cavaleiro, de passagem por Pardelinha, a aldeia mais próxima no seguimento do seu trajecto, como não conhecia ninguém e transportava consigo o Santo António, entregou-o à primeira pessoa que ele encontrou e que essa pessoa o veio a colocar logo de seguida na Capela junto ao Santo padroeiro, Santo Antão.
Desconheço se foi efectivamente esse tal motivo, se bem que há em Santa Valha uma ou outra pessoa familiar dos antigos residentes no Calvo que tem uma versão diferente, mas que não dei grande credibilidade. Sei sim, que foi esta a versão que sempre ouvimos contar aos Pardelinhenses do aparecimento da imagem deste Santo na sua terra. (Nos Documentos: Aldeias do Concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – “Memórias Paroquiais de 1758”, diz o manuscrito do Padre/Abade da nossa paróquia de então, Domingos Gonçalves, que a anexa do Calvo possuía uma Capela de Santo António, três vizinhos (moradias) e dezassete pessoas.”)
É tradição secular, na manhã da festa do Padroeiro junto à Capela servir-se gratuitamente a todas as pessoas que aparecerem, vinho e pão de centeio. Ainda há quem leve nesse dia uns pequenos pedaços de pão (pão do Santo) no bolso para casa para dar aos animais para serem protegidos por ele ao longo do ano.
Até há poucas décadas atrás, era vulgar algumas pessoas na aldeia que, por promessa ou outro motivo qualquer, quando os seus animais adoeciam, particularmente os porcos, ovelhas, cabras e animais de trabalho, entre outros, levavam-nos a dar umas voltas à volta da Capela (conforme a promessa feita), para serem abençoados ou protegidos pelo Santo ou para o Santo ajudar a curar na doença.
Era normal a oferta de fumeiro para remate a favor do Santo no leilão da festa com recompensa da prece solicitada. Esses rituais faziam e ainda fazem hoje parte dos deveres da identidade da comunidade dos povos.
Até também cerca de finais da década de 80, o leilão da festa a favor do Santo começava logo a seguir à missa na parte da manhã e prolongava-se com uma ou outra interrupção até meio da tarde. Foi considerado até essa data, o maior e o mais afamado leilão da redondeza do género. Eram leiloados e arrematados produtos oferecidos por todos os cidadãos da comunidade, tendo em conta que nessa época toda a gente criava e matava o porquinho para o governo do ano. Foram sempre produtos de excelente qualidade atendendo à alimentação caseira e ao clima frio.
O pinheirinho (como diz o povo local) enfeitado com fumeiro e outros enfeites pendurados, é a atração principal do remate final a favor do Santo Padroeiro, chegando por vezes quando há disputa popular, a valores impensáveis.
Por último, não posso deixar de aqui referir a actual zeladora da Capela, a Dª. Francelina, mulher respeitada, de muita religiosidade, devoção e enorme crença. Tem zelado pela Capela nestas últimas décadas, ou seja, desde que regressou do Brasil.
Pardelinha, 2008/2018.
Cruzeiro, Cruz do Calvário e Nicho de Nª. Senha de Fátima:
Este bonito símbolo de culto encontra-se situado junto à rua da Veiga que vai dar a uma antiga eira de malhar e debulhar cereal e ao cemitério público. Trata-se de um cruzeiro em granito, com a imagem de Cristo pintada a óleo por volta do ano de 1959 ou 60 por um pintor de Mirandela chamado Carolino, a custo de dois cidadãos da aldeia, Artur Serra e Manuel dos Reis Malheiro, quando também da última pintura das Alminhas da praça a custo também desses mesmos senhores. Tanto o Cruzeiro como as Alminhas da praça, dois símbolos religiosos, estão a necessitar de restauro urgente por quem sabe, tendo em conta que se pode correr o risco de se deixar de perceber as imagens originais outrora neles pintados e certamente com algum sentido religioso. O cruzeiro indica referenciar no cimo o “ Senhor da Boa-morte “, e em baixo, uma pequena imagem de momento já irreconhecível e ainda um peto esculpido na base para recolha de esmolas, único do género existente na aldeia.
Inicialmente encontrava-se a cerca de trezentos e tal metros mais abaixo no caminho junto à propriedade/vinha do falecido senhor Lino Bruno, agora de João Bruno, sítio do Terreio ou Cruz, caminho vicinal que outrora ligava a aldeia à sede de freguesia, Santa Valha, antes da construção da actual estrada. Como os mortos eram sepultados até 1928 no cemitério de Santa Valha, certamente no transporte do corpo seria feito uma curta pausa no local com algum ritual ou reza de pequena oração, tal como acontecia em muitas outras localidades onde existiam esses símbolos religiosos no caminho onde passavam.
Só entre os anos 1930 a 1935 (?) é que esse cruzeiro foi transferido para o local onde agora se encontra, ou seja pouco tempo depois da construção do cemitério público. Foram duas pessoas que o transferiram, os falecidos: João “Da Couve” e Roseira. Também a cruz em pedra que se encontra no interior do cemitério público, conhecida por “Cruz do Calvário” foi transferida aquando da construção deste (1928), do lugar denominado por Lameiras ou “Monte do Calvário” perto da Capela de Santo Antão, ou seja: do lado esquerdo da rua que dá acesso da Capela à rua da Veiga. Certamente que a base de pedra onde assenta a cruz no cemitério foi construída nessa data para esse efeito.
Ainda hoje é possível ver o local (quadrado) cavado na rocha onde assentava a cruz no cimo do monte do Calvário.
Atendendo ao provável culto e/ou ritual religioso antigo que originou a construção nesse sítio, seria de todo desejável no meu entender, que essa cruz voltasse às suas origens.
O Nicho recente com a imagem de Nª. Srª. de Fátima, localizado junto ao cruzeiro na rua da Veiga/Eira, foi oferecido por uma devota da terra, Leontina de Castro Alves, em 19-01-2011.
Nota: Em Fevereiro de 2024 o cruzeiro foi pintado de novo na totalidade a custo da Comissão de Festas do Padroeiro 2018/2023, representada pelo seu presidente, Armando Bruno. Parabéns por essa louvável iniciativa. O pintor desse trabalho foi Mário Lino, natural de Chaves, pintor contemporâneo Flaviense.
Pardelinha, 2008/2018.
Nicho de Alminhas de “Nosso Senhor dos Aflitos”:
Nosso Senhor dos Aflitos, Senhor Jesus dos Aflitos, ou simplesmente Senhor dos Aflitos, é uma invocação religiosa a Jesus Cristo e uma devoção especial na Igreja Católica a Ele dirigida, a qual faz memória à aflição sentida por Nosso Senhor desde sua condenação à morte no pretório, assim como durante a Sua Paixão e crucificação no Monte de Calvário, perto de Jerusalém.
O nicho de alminhas, símbolo de culto que o povo de Pardelinha chama de “Nosso Senhor dos Aflitos”, edificado em 1892 numa parede de granito de uma habitação, fica situado na rua João António de Castro junto ao largo ou praceta principal. Desconhece-se, se o nicho já lá existiria quando construíram a parede dessa habitação.
Em todo o nicho constam as seguintes pinturas: Imagem de Cristo cruxificado no centro da cruz de pedra que está no cimo das alminhas. Ao centro, a data da edificação de 1892 entre a cruz e o painel central escavado. Na pintura do painel central das alminhas que tudo aponta tratar-se ainda do original e, do qual, já muito pouco se consegue ver, dizem ter existido a imagem de um Santo com uma balança numa das mãos e, no fundo, as alminhas do purgatório. Sendo assim, tudo leva a querer trata-se da imagem de São Miguel (Arcanjo) com a espada numa das mãos e o diabo a seus pés. Desse painel central primitivo só realmente o desenho da balança se consegue perceber alguma coisa, nada mais.
Por volta do ano de 1959, a imagem sofreu um restauro na pintura feita por um pintor conhecedor de arte sacra de Mirandela, a mando de dois mordomos da festa do padroeiro da aldeia de então, Artur Serra e José dos Reis, mas não na própria pedra do painel central primitivo. O tal pintor (Carolino de Mirandela, pessoa conhecida de Otília dos Reis Alves) colocou-lhe uma tábua de madeira por cima da pedra do painel primitivo ou original, conforme se podem ver as escavações na pedra para a segurar a tábua de madeira e desenhou as imagens das alminhas nessa tábua tal como se encontravam as originais, pintando também todo o resto.
Esse mesmo pintor de arte sacra pintou ainda a imagem do Senhor da Boa-morte do cruzeiro da rua da Veiga também a custo dos dois beneméritos anteriormente referidos e de alguma gente do povo que lhe deu de comer e beber durante os três dias dos dois serviços.
Contou-me ainda uma das pessoas mais idosas da aldeia que foi na altura uma enorme surpresa para as pessoas mais novas de Pardelinha quando tiraram essa tal armação e viram que existiam as pinturas originais na pedra por detrás da madeira já muito desgastada pelo tempo que escondia parte do nicho das Alminhas.
Esse símbolo religioso de bonita traça está a necessitar de restauro por alguém que seja conhecedor de pintura de arte sacra respeitando sempre se possível a imagem inicial. Desconhece-se a história da origem desse património de culto religioso. O peto para receber as esmolas dá para o interior dessa mesma habitação.
Pardelinha, 2008/2018.
Nota: Em Fevereiro de 2024 o nicho de Alminhas foi pintado de novo na totalidade a custo da Comissão de Festas do Padroeiro 2018/2023 representada pelo seu presidente, Armando Bruno. Provavelmente a pintura do painel central não terá ficado bem igual ao original, visto do anterior já pouco ou nada se perceber, a não ser a memória de uma ou outra pessoa mais idosa; mas valeu a pena, ficou muito bem. Parabéns por essa louvável iniciativa. Já quanto à alteração da pintura da data de edificação de 1892 para 1807, haverá, para tal, razão ou não (?). O pintor desse trabalho foi Mário Lino, natural de Chaves, pintor contemporâneo Flaviense.
Cemitério Público:
A construção do Cemitério Público de Pardelinha remonta à data de 1928, a custo de dois filhos da terra, João António de Castro e Manuel José Rolo (M.J.Rolo), antigas pessoas ilustres e de posses da aldeia que residiam na época no Porto. Antes dessa data, os mortos eram enterrados no cemitério de Santa Valha, onde eram transportados por um caminho vicinal, ou à mão, ou em carro de bois.
O primeiro alargamento do espaço deu-se no início da década de 2000, e o segundo, em 2009, ambos na presidência da Junta de Freguesia de Jorge Augusto de Castro. Em Outubro de 2015 a Junta presidida por Miguel Neves procedeu ao calcetamento do passadiço central em cubos de granito e mandou restaurar o quase secular portão de ferro da entrada, dando a esse lugar de prática religiosa um aspecto mais digno e apresentável.
A cruz de pedra que se encontra no interior do cemitério estava até à data da sua construção no lugar denominado por “Monte do Calvário”, junto ao largo Às Lameiras, antiga eira de malhar cereal, agora parte dela a servir de caminho público que vai dar da capela ao caminho da Veiga. Numa das fragas ou fragaredo do cimo do pequeno monte do Calvário ainda se pode ver a escavação de forma quadrada na mamoa do assentamento dessa cruz. Certamente que a base de pedra onde assenta o símbolo religioso no cemitério foi construída de propósito aquando dessa remota transferência.
Pardelinha, 2008/2018.
Escola Primária Pública:
A escola-primária de Pardelinha com uma só sala de ensino misto para rapazes e raparigas foi construída em 1935 a custo de um filho da terra de nome João António de Castro e oferecida ao povo da aldeia. Esse importante benemérito era pai de Maria Fernanda Castro, casada com o médico Dr. Olímpio Seca e ainda avô materno do (também) médico-cirurgião e de clínica geral, Dr. Jorge Castro Seca.
Para além das instalações interiores compostas por uma sala de aulas, cozinha e quarto para residência do professor(a), existia em frente à fachada junto à escada de acesso, antigamente com os degraus virados para a frente da apertada rua – onde só passava um carro de bois – um pequeno jardim de recreio murado que foi demolido por volta de 1970 quando do alargamento da rua/estrada nesse local. A roseira que ainda hoje existe junto à parede ainda é desse remoto tempo.
Há quem diga, que outro filho da terra, Manuel José Rolo, a residir no Porto e também pessoa de posses a, terá dado também a sua contribuição, desconhecendo-se se para a edificação ou aquisição do mobiliário.
Foi a Junta de Freguesia de então, presidida por Raúl Victor Videira que solicita – nesse ano – ao Ministério da Educação a abertura do Posto Escolar de Pardelinha, pedido esse devidamente fundamentado e tendo em conta em particular à deslocação a pé que as crianças autorizadas pelos pais a estudar tinham que fazer para Santa Valha.
A primeira professora a lecionar nessa escola terá sido a profª. Emília de Morais, natural de Chaves mas casada em Pardelinha com Arménio Alves. Também outra professora casada em Pardelinha por lá leccionou na década de 1950 e até 1963, data em que partiu com o marido e filhos para a ex-colónia de Moçambique. Essa professora chamava-se Sara da Glória Bessa Mesquita. Era natural de Carlão do concelho de Alijó. Foi casada com João Alves, mais conhecido por João da Amélia, bom tocador de concertina como também me contaram.
Por volta de meados da década de 70 a escola chegou a ter sentado nas carteiras mais de 40 alunos e só com uma única professora a lecionar. Por volta de 1984 eram 17 alunos, 8 raparigas e 9 rapazes. A professora era de Chaves e chamava-se Glória…. O encerramento deu-se na época-escolar de 2005/2006. O último aluno(a) foi Rosa Alexandra Lopes Bruno, filha de Armando Serra e o seu professor chamava-se Edgar……, natural ou residente em Chaves.
As instalações foram convertidas em 2009 num Centro de Convívio com o apoio da Junta de Freguesia e do Município para não virem a sofrer mais degradação. Mas (infelizmente) acontece, que depois do primeiro ou segundo ano da requalificação e abertura do espaço de convívio, a porta só tem sido aberta no(s) dia(s) da festa anual do Padroeiro.
Contaram-me ainda, que o imóvel ainda se encontra registado na matriz predial urbana do primeiro proprietário João António de Castro e que o local antes da edificação da escola já era do próprio. Que só recentemente o povo da aldeia tomou conhecimento dessa situação pelo Dr. Jorge Seca, herdeiro do avô, médico ilustre e estimado pelo povo tal como seu falecido pai Dr. Olímpio, pois o povo pensava que as instalações estavam registadas em nome do Estado.
Também, que vai oportunamente ser constituída em Cartório uma Associação e que o Dr. Jorge Seca vai transferir esse bem para nome dessa Associação local, tendo-se também disponibilizado para fazer parte dos Corpos Sociais se o vierem a convidar para tal.
Pardelinha, 2008/2018.
Estrada para Pardelinha:
O início dos trabalhos do rompimento da estrada que liga Stª. Valha (sede de Freguesia) a Pardelinha deu-se por volta de 1952, mas só chegou a ser concluído dois ou três anos depois, 1955 (?), na presidência da Câmara do Sr. Engº. Luís de Castro Saraiva e da Junta de Freguesia do professor Carolino Afonso ou de Benjamim Picamilho(?).
Anteriormente a ligação à Sede da Freguesia dava-se por um sinuoso e apertado caminho rural e vicinal, onde um carro de bois conseguia transitar com bastante dificuldade.
Esse caminho rompia o fundo da Veiga, passava junto ao Regato Lourenço, Carvalho, Terreio ou Cruz junto à vinha do falecido senhor Lino Bruno, hoje pertença de seu familiar João, sítio contíguo, onde se encontrava nesse tempo o Cruzeiro que está erguido hoje na rua da Veiga que dá ao cemitério, descendo depois pelo lugar às Árvores. Daqui o trajecto seguia pelo termo da Breia e Olguinhas a poente, até à apertada curva do antigo soberbo “pinheiro-manso ou pinheiro-grande” que vai dar ao bairro do Pontão de Santa Valha.
Ainda hoje se consegue ver um ou outro pequeno pedaço do caminho desse tempo antigo sem nenhuma utilização.
Os trabalhos do rompimento da estrada foram iniciados por três vezes em locais diferentes. Um deles, o primeiro, deu-se perto do cemitério de Santa Valha. A maior parte de todo esse serviço foi feito pela força dos homens utilizando picaretas, pás, enxadões, enxadas e outros utensílios e ainda de animais de trabalho. Um pequeno caterpílar chegou também a dar uma ajuda num ou outro serviço mais duro, mas muito pouco.
A estrada cortou uma parte da aldeia ao meio, particularmente na parte central do enorme casario de uma antiga família de apelido Fernandes, mais propriamente José Manuel Fernandes, casado com Libânia de Jesus, casal com algumas posses que terá regressado do Brasil por volta da última década do século XIX, vindo a tornar-se amigo das família Castro, nomeadamente de Manuel de Jesus Castro, (casado) em união de facto com Theresa Maria da Silva e do seu filho Manuel António de Castro de quem vieram a ser padrinhos; portanto, avô e pai de João António de Castro, importante benemérito da aldeia. Dessa antiga família de apelido “Fernandes”, só já um ou outro mais idoso se recorda de ter ouvido falar dela. Assim como do apelido “Calhisto/Calisto” que dizem ter pertencido à família dos Castros. O espaço utilizado pela estrada terá dividido a casa que hoje pertence a Zeferino Alves de Castro e que chegava a integrar a casa que hoje pertence aos herdeiros de Armando Serra Bruno, nesse tempo fazendo tudo parte integrante da mesma habitação da família Fernandes.
Uma das várias pessoas que trabalhou nessas três fazes do rompimento em terra-batida foi Cândido Fontoura, que me descreveu algumas memórias de peripécias passadas nesse rude trabalho e não só. Apesar dos seus 91 contados à data, o senhor Cândido ainda é um excelente conversador e portador de fresca e sábia memória. É um Senhor que dá prazer ouvi-lo falar. Pela experiência vivida foi, sem dúvida, um homem que ajudou a marcar a identidade da sua terra, Pardelinha, tal como alguns mais certamente.
Daqui meu agradecimento ao senhor Cândido pela forma simpática e acolhedora como sempre me recebeu quando de algumas pesquizas e recolhas que fiz, como a presente, sobre Pardelinha. Quanto a esta particular memória cheguei também a falar com mais outras pessoas da comunidade, também com bastantes conhecimentos do passado e da vivência da sua terra, entre eles, Manuel Alves, Zeferino de Castro, Maximino Coelho e Adelino Alves, que me confirmaram todos ser verdade o que o senhor Cândido me contou, e ainda acrescentaram, ser ele, mais do que ninguém, pessoa conhecedora dessas coisas quase perdidas no tempo.
A primeira viatura a circular na estrada depois de concluída foi uma camioneta de mercadorias, seguindo-se a viatura do médico Dr. Olímpio Seca, principal impulsionador desta obra dada a sua influência junto do poder. Foi casado em Pardelinha com Maria Fernanda da Mota e Castro (professora do ensino secundário) mas residentes em Vilarandelo, casal com bastantes haveres herdados por parte da esposa que era filha do benemérito da aldeia João António de Castro, possuindo uma das maiores casas agrícolas da localidade.
O primeiro piso de alcatrão foi aplicado no início da década de 1970. O alargamento e aplicação do novo tapete deram-se por volta de 1999 ou 2000. Nesses mesmos trabalhos foram ainda cortadas algumas apertadas e acentuadas curvas, entre elas, as do depósito da água que ajuda a abastecer as aldeias de Stª. Valha e Gorgoço e da conhecida curva do “pinheiro manso”.
O rompimento da estrada de Pardelinha para Fiães e Lebução também em terra-batida deu-se perto de uma década mais tarde. Existia de igual modo um caminho muito pobre que passava no lugar das Águas-férreas e pelo interior da aldeia de Fiães. O senhor Cândido recordou os primeiros trabalhos que se deram perto da sua casa, nomeadamente os explosivos rebentados nas rochas, assim como o da preciosa ajuda de uma camionete de carga, coisa que não aconteceu quando para Santa Valha.
Voltando atrás ao saudoso Dr. Olímpio, de nome verdadeiro “Olímpio Astério dos Santos Seca”, nasceu em Vilarandelo a 25 de Outubro de 1910 e faleceu a 21 de Outubro de 1984. Licenciou-se em medicina na Universidade do Porto em 1937 e foi médico no nosso Concelho, profissão que iniciou no tempo em que farmácia se escrevia “Pharmácia”, e muitos chamavam-na de “Botica”.
Atendendo à sua enorme generosidade, o povo apelidou-o ou alcunhou-o por “Médico do Povo ou Médico dos Pobres”. Foi de igual modo uma pessoa ilustre, de respeito e muito querida por toda a gente do nosso Concelho. Para além de médico nas Casas do Povo de Vilarandelo (1945), Rio Torto e Vales e Zebras, foi ainda em 1950 presidente do Hospital de Valpaços, local onde também exerceu muitos anos medicina de cirurgia e clínica geral.
Tendo em conta as suas ideias democráticas de longa data e virtudes granjeadas junto do povo, chegou a ser em 1975 Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Valpaços até às primeiras eleições Autárquicas (democráticas) de 1976.
Até ao falecimento (1984) deu consultas particulares nos seus consultórios de Vilarandelo e Valpaços, onde raramente cobrava preço pelo trabalho.
Pardelinha, 2008/2018.
Fontanário ou Chafariz com duas bicas e Lavadouro:
Trata-se de uma construção em granito com duas bicas que data de 1928 a custo de dois beneméritos que foram, (J.A.C.) João António de Castro e de (J.R.) José Rolo, de nome verdeiro Manuel José Rolo, duas antigas pessoas ilustres da aldeia de muitas posses ambas a residir no Porto.
A nascente do fontanário fica um pouco mais acima e é conhecida na aldeia por “Fonte do João Fernandes”, mas de própria fonte só de nome. Dizem os antigos que quando a água dessa nascente chega ao ribeiro À Ribeira, não haverá seca no ano corrente. Do tal João Fernandes já ninguém se recorda.
As duas bicas que compõem o chafariz debitam todo o ano um bom caudal contínuo de água límpida e cristalina, fresca e de boa qualidade que cai directamente para um pequeno tanque incorporado onde os animais de trabalho costumam beber; a restante segue por um caleiro rasgado na pedra para um tanque ao lado de lavar a roupa que tudo indica ter sido construído pelos mesmos beneméritos na mesma altura. A água que sobeja serve para rega de propriedades da lavoura quando necessária.
No interior do pequeno tanque por debaixo das bicas ainda se podem ver as duas bases de pedra onde as pessoas antigamente colocavam os cântaros para serem cheios e levar para casa.
Antes da construção do chafariz existia nesse local um pequeno poço onde as pessoas de igual modo se abasteciam de água potável para as suas habitações.
A bica de granito que se encontra mais abaixo no largo ou praceta também é abastecida por esse mesmo nascente. Foi colocada pelo Município no ano de 1966, presidido na altura pelo Dr. José Lage (pai do Engº. Augusto Lage, de Vassal), à semelhança de muitas outras iguais em todo o nosso Concelho.
Pardelinha, 2008/2018.
Água ao domicílio e Saneamento básico.
O fornecimento de água canalizada ao domicílio ou abastecimento público em Pardelinha deu-se por volta dos anos de 1985 ou 1987, com Manuel Guedes na presidência da Junta.
Anteriormente as pessoas tinham obrigatoriamente de ir com o cântaro, remeia, regador ou outro, a uma poça no cimo do povo no local onde se encontra hoje o chafariz de duas bicas que data de 1928, ou mais tarde à bica de 1966 no largo ou praceta abastecida por esse mesmo nascente, se bem, que também existia nessa época uma pequena poça, que ficava na rua da Fontinha, hoje denominada Dr. Olímpio Seca, mas mais utilizada para consumo dos animais por estar junto a habitações e currais e ser, por esse motivo, de duvidosa qualidade.
Essa poça, conhecida por “Poça (da) Fontinha”, foi tapada aquando do primeiro calcetamento do caminho público em pedra tosca lascada de finais da década de 70. Por volta do início da década 2000 e na presidência de Jorge Augusto de Castro deu-se o segundo calcetamento mas já em paralelos de granito.
Outrora existiu uma canalização para a água de sobra que descia essa rua, atravessava a rua principal (estrada) e ia desaguar num pequeno tanque por perto, que servia depois para rega de hortas. Com a intervenção de 2000 passou a desaguar no aqueduto junto à antiga escola.
A exploração da água ao domicílio encontra-se num terreno agrícola perto da estrada para Fiães, local denominado de Águas-férreas, numa pequena ilha de pedras e carvalhos a poente e o pequeno depósito de recolha a cerca de vinte metros da estrada. Foi o senhor Alexandre Fontoura que cedeu gratuitamente essa exploração no seu terreno. O bem rústico pertence hoje aos herdeiros desse senhor.
A tubagem desce encosta abaixo perto da berma da estrada até ao depósito principal, que fica perto das traseiras do chafariz ou bicas, local também conhecido por eira do Brás ou campo de bola. A Câmara Municipal ofereceu a tubagem para essa canalização e o povo, todo o trabalho.
É por esse motivo porque nunca existiu até hoje (2018) contadores da água do Município nas habitações.
O Saneamento básico público deu-se ao mesmo tempo do calcetamento das ruas, com também Jorge Augusto Castro na presidência da Junta.
Pardelinha, 2008/2018.
Forno Comunitário:
O forno a lenha comunitário que se localiza junto à estrada e à praceta ou largo principal, partilhado por todos, foi construído por volta de 1955. Certamente guardará no seu interior imensas histórias, memórias e lembranças para contar. Pela sua história, foi, é, e continuará a ser sempre um importante património cultural da aldeia, apesar de hoje-em-dia já não ter tanta importância como outrora.
O primeiro forno, “forno do povo” como geralmente os locais lhe chamam, esteve inicialmente situado no cimo da rua (lado esquerdo, agora parte do largo) como quem desce para a Capela. Esse antigo e primeiro forno que tinha como companheiros alguns negrilhos foi demolido quando das obras do rompimento e construção da estrada e do largo/praceta ao mesmo tempo, vindo-se a edificar o actual no lugar de um antigo barracão.
Era até há algumas décadas atrás o único forno que existia em toda a aldeia para cozer o pão, alguns doces conventuais e os folares na páscoa, bem assim como assar as carnes, particularmente no dia da festa do Padroeiro Santo Antão. O borrego ou cordeiro e o cabrito (chibinho) desta aldeia sempre marcaram a diferença. Bastante mais tarde houve outro forno, mas particular, o de Álvaro Alves.
Para marcar a vez no forno do povo as pessoas colocavam um ramo de giesta na porta de entrada. Cada um tinha obrigação de “desamuar” o forno, isto é aquecer ou lançar-lhe fogo quando necessário; se ainda estivesse um pouco quente não era necessário gastar tanta lenha. A lenha era normalmente apanhada no monte pelas mulheres e transportada à cabeça.
No tempo mais frio do inverno e em dias que o forno cozia era costume as crianças irem aquecer-se junto dele, mas, para que isso pudesse acontecer, tinham que se sentar. Por vezes, mas muito raramente, uma mão generosa lá ia dando uma côdeazita de bola centeia ainda quente feita dos restos da massa rapada na maceira. Nesse tempo difícil em que faltava quase tudo era uma enorme alegria para eles.
Um pão de centeio normal na nossa freguesia e vizinhas tinha de peso cerca de cinco a seis arráteis e, meio pão, bolo como se costumava dizer, tinha metade ou até menos. Cada arrátel (antigo peso de 16 onças) equivale a 459 gramas. As farinhas desse tempo fabricadas nos tradicionais moinhos não eram tão fidalgas como hoje, mas eram bastante mais saudáveis; não esquecendo também o fermento utilizado, que era caseiro.
Os mais idosos não se recordam de existir outro forno comunitário em toda a freguesia de Santa Valha.
Atendendo que a anterior cobertura já tinha mais de duas décadas e deixar infiltrar bastante humidade e o forno de cozer já não aquecer o necessário, em Abril de 2017 foi-lhe colocado telhado novo e reparado o forno de cozer. Em Janeiro de 2018 foi ainda colocada nova chaminé, obras de melhoramento feitas a mando da Junta de Freguesia presidida por Carlos Vieira.
Oração (espécie de ritual) de outros tempos que se conserva ainda hoje no processo de fabrico do pão e do folar artesanais na nossa terra. Depois de amassado é posto a levedar (em lençóis de linho), dividido em porções e faz-se uma cruz, com a mão dizendo:
São Vicente de acrescente, São Mamede te levede, São João te faça pão, Pela graça de Deus e da Virgem Maria, Pai-Nosso e Avé-Maria.
A pessoa encarregada de meter o pão ao forno, enfornar, faz com a pá três cruzes na porta daquele e dizendo:
Cresça o pão no forno, E os bens p´ro mundo todo, Paz e saúde a seu dono. Pela graça de Deus e da Virgem Maria, Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
Normalmente é sempre a mesma pessoa no forno a rezar estas duas orações. Também há quem as reze de uma só vez, quando o pão se acaba de amaçar, ou seja: antes de levedar.”. Gente que ainda preserva as tradições seculares.
Pardelinha, 2008/2018.
Campo de Futebol, ou da bola:
Pardelinha também teve noutros tempos o(s) seu(s) campo(s) de futebol para entreter a rapaziada principalmente ao domingo e dias – Santo e até não era difícil, pelo que me contaram, conseguir nessa altura arranjar onze jogadores para cada lado, jogando alguns deles descalços e um ou outro de socos. Para ter bola – de capão – tinha que se fazer uma subscrição entre todos ou justar uma trabalho da lavoura para a comprar, normalmente descavada de vinha ou ceifa.
O primeiro “campo da bola”, como se dizia e ainda hoje alguns dizem, estava situado no monte no sítio conhecido por Eira do Brás, ou seja: próximo das traseiras do chafariz de duas bicas junto ao depósito da água e muito perto da estrada e da casa de Francisco Fontoura, “Chico Escuro” como habitualmente o alcunhavam, provavelmente por ter a cara morena e não a lavar com regularidade. O largo (da eira) Às Lameiras perto do Calvário ia servindo por vezes de treino à mocidade mais nova no tempo onde qualquer coisa servia para jogar e a marcação das balizas era feita com pedras.
Por volta de 1969 foi expulsa a mocidade desse primeiro campo (Eira do Brás) por motivos um pouco controversos. O espaço foi revindicado por uma pessoa da aldeia da família Serra ou Serra Bruno, que dizia ser o novo dono e de ter recebido esse bem por herança, local no qual pretendia fazer um desaterro para construção de um curral para as suas ovelhas, na altura argumento contestado por alguns do povo, dizendo e afirmando nunca ter sido particular, mas sim, sem dono, portanto baldio. Até porque nunca alguém tinha exigido até essa data o pagamento de qualquer renda, normalmente paga nesse tempo em alqueires de centeio ou equivalente.
Contaram-me ainda, que a tal construção nunca veio a acontecer e que esse antigo primeiro campo era de piso e dimensões bastante melhor que o que lhe sucedeu logo a seguir situado também no monte no lugar Ao Torrãozinho, a poente da aldeia, numa terra centeeira pobre cedida na altura para esse fim por Zé dos Reis e Maximino Cândido Coelho.
Da rapaziada do campo do “Torrãozinho”, evoluiu e sobressaiu entre todos um jovem futebolista da aldeia, foi ele Álvaro Carriço Alves, que chegou a jogar mais tarde em amigáveis pelo Santa Valha e ainda pelos Clubes Federados do Valpaços e do Vilarandelo que participavam nesse tempo no Campeonato Regional de Seniores da Associação de Futebol de Vila Real. O Álvaro jogou sempre com gosto, emoção e sentido de responsabilidade enquanto representou as várias camisolas que vestiu, tivessem sido nos jogos particulares entre aldeias ou mais tarde como atleta federado.
Hoje o saudoso Torrãozinho é um espaço de lazer sem vida desportiva, onde as balizas de pau de pinheiro foram apodrecendo pelo tempo, espaço cheio de mato por falta de quem lhe dê uso, que começou em finais da década de 80 devido à diminuição acentuada de jovens na pequena comunidade, campo onde serviu outrora para se realizarem algumas bonitas e alegres partidas amigáveis, incluindo as de solteiros contra casados, e de outras contra aldeias próximas, onde ali, a honra futebolística da aldeia era defendida com unhas e dentes, mas sempre com espírito desportivo e amigo. Ouvi ainda contar que em jogos mais importantes contra aldeias próximas não podia faltar a claque com a concertina, o realejo e até a gaita-de-foles e o bombo para dar mais ânimo e vida à festa, assim como também o tradicional tinto entre todos no fim do jogo. Nesse tempo do pouco ou quase nada representar a aldeia tendo o povo como assistente era sentido de orgulho e até de certa forma responsabilidade.
Uns anos mais tarde, início ou meados da década de 90, foi construído À Ferranheira outro espaço para dar uns pontapés, sítio não longe do Torrãozinho e da aldeia, propriedade à data de Álvaro Alves de Castro. Essa construção foi feita já com algum apoio da Junta de Freguesia, o que não aconteceu com as duas anteriores, que foi feita unicamente com a força dos braços da rapaziada como também me contaram, só que a duração da utilização foi curta, tal como provavelmente a história e as memórias para contar e recordar. Esse sítio encontra-se hoje também cheio de algumas árvores e de denso mato.
De tudo de bom que se passou outrora numa aldeia cheia de vida e juventude, resta hoje a nostalgia, memórias e recordações desses bons e bonitos tempos.
Pardelinha, 2008/2018.
Correio e Telefone Público em Pardelinha:
Até perto dos últimos anos da década de 1970, a mala (ou saco) do correio era transportada a pé e às costas do Posto do Correio de Santa Valha para Pardelinha. Para Santa Valha só começou a ser transportado na camioneta de passageiros, carreira como se dizia, por volta de meados da década de 1960. Anteriormente vinha de Vilarandelo para Santa Valha em cima de um burro.
Após chegar, era entregue no Posto (particular) do Correio integrado no comércio misto com taverna de Adelino Melo Alves e uns anos mais tarde no de António Teixeira, que o apartavam e o colocavam nas malas (de lona ou outro), para no dia seguinte seguir para Pardelinha e Gorgoço.
Reportando-me somente até meados ou pouco mais da década de 70, após o correio chegar a Pardelinha, a mala em lona (ou outro material) fechada à chave era entregue na casa particular de habitação de Belisanda Fontoura, que depois de a abrir e de ler o destinatário, aguardava na sua casa que as pessoas lá se dirigissem para ver se tinham, ou não, correspondência. Para identificar melhor os locais representantes, era costume os Correios (CTT) colocarem nas fachadas das casas, junto à porta do colaborador, uma caixa de recepcção de correio e uma chapa a avisar o local ou posto do serviço postal e telefónico público.
A senhora Belisanda, como não recebia qualquer compensação desse trabalho, portanto, era gratuito, não só do serviço público de correio, como ainda de um ou outro eventual selo postal e envelope que vendia, ia vendendo na sua própria habitação umas (insignificantes) bebidas às pessoas de aldeia e a um ou outro visitante ou viajante pedestre que passava em frente à sua porta situada na rua (estrada) principal, pois o único benefício que tirava de todas essas tarefas por parte dos Correios era receber cerca de (fim da década de 70) um a dois tostões -$02- por cada impulso telefónico (hoje-$02- seria necessário dez vezes para fazer um cêntimo) das raras chamadas telefónicas que as pessoas faziam no posto, nada mais. Mas há também quem diga e afirme na aldeia que nada recebia.
A forma da entrega do correio às pessoas na casa da senhora Belisanda, último posto público do correio e do telefone da aldeia, numa época ainda de grande analfabetismo, era feita como já referi atrás em mão pela própria e durou até por volta dos primeiros anos ou meados da década de 80, data início da alteração de entrega já feita por carteiros dos serviços dos Correios (CTT) que se deslocavam em motorizada.
Quanto ao telefone púbico ainda no sistema de ligação “PBX” de Santa Valha, foi-se mantendo sempre da mesma forma, onde a senhora Belisanda, quando alguém telefonava de fora para falar com as pessoas da comunidade, tinha que pessoalmente as ir avisar a suas casas, dizendo-lhe que tinha uma chamada para atender e de quem se tratava, bem assim como entregar algum telegrama de urgência caso existisse.
Nessa época ainda ninguém tinha telefone particular na pequena comunidade. Esse meio de comunicação ainda hoje (2017) se conserva na habitação contígua que pertence a Fernando Paulo Fontoura ou sua mãe, onde o uso público é muito pouco ou até mesmo nenhum.
A última pessoa a exercer muitos anos a profissão de transportador da mala do correio, foi Victor Fernandes de Santa valha, que também era sacristão da paróquia, homem pobre, frágil e com grande dificuldade de visão, mas responsável, cumpridor e honesto. Estivesse sol, chuva ou neve, cumpriu esse dever diariamente durante duas décadas. Primeiro, para Pardelinha, passado algum tempo também para o Gorgoço.
Recordo-me de ser a minha mãe, Benvinda Cagigal, vizinha e amiga do senhor Victor, que lhe costumava assinar a rogo o recibo do pagamento mensal por parte dos CTT, dado o senhor Victor não saber assinar. Começou por ganhar inicialmente 50 escudos (0,25€) por mês pelo serviço para Pardelinha, vindo a auferir passados vinte anos, ou seja, no último ano que saiu, uns insignificantes 200$00 (1,00€) mensais ou pouco mais pela entrega para às duas localidades, quando o salário mínimo nacional rondava nessa altura 4.000 escudos (20,00€) mensais.
Contudo, apesar das duas décadas de prestação desse importante serviço público que o senhor Victor fez diariamente a pé para Pardelinha e Gorgoço, por nunca ter possibilidade de ter um animal de carga para o aliviar um pouco o cansaço diário, não tanto das costas, tendo em conta que dentro da mala ou saco só uma ou outra carta eventualmente lá seguiria, mas sim mais das pernas devido aos dois irregulares e acentuados trajectos, esse senhor, nunca chegou a receber, apesar de a ter reclamado, qualquer pensão ou reforma para sustentar a sua família, o que é verdadeiramente triste, injusto e de lamentável.
Quer a senhora Belisanda, mulher com bastante deficiência motora quer particularmente o senhor Victor e tantos outros mais que do mesmo modo foram vítimas dessa exploração, não mereciam esse desprezo por parte dos CTT, que até, por acaso, era uma empresa pública do Estado.
Pardelinha, 2017.
Actividade Económica de Pardelinha:
Apesar de terem residido antes do início da emigração – década de 1970 – mais de cento e trinta pessoas em Pardelinha, na comunidade só chegou a existir até hoje (2018) um pequeno comércio com taverna.
Esse negócio legalizado nos termos da lei pertenceu à senhora Laura Videira Fontoura e marido Luís Barreira da Silva, Luís Gaiteiro como era conhecido e existiu até meados da década de 70, tendo durado poucos anos. Ultimamente nesse comércio já havia televisão e até uma mesa de matraquilhos para a divertimento nas horas vagas.
Anteriormente ao negócio da senhora Laura, que se recorde a gente mais idosa local, só existiu por volta da década de 30 ou 40 uma pequena taverna pertencente a José dos Santos Alves e mulher Alexandrina Rosa Bruno, que ficava instalada numa pequena dependência na travessa ou beco a seguir à casa do falecido senhor Manuel Alves, também conhecido por Manuel da Amélia.
Após o encerramento do comércio e taverna da senhora Laura, chegou também a haver posteriormente quatro ou cinco pessoas da aldeia que lá iam vendendo nas suas habitações umas laranjadas (sumos) e cervejas, mas sem expressão e legalização do negócio, foram elas: Belisanda Fontoura, José Santos Alves e mulher Alexandrina Rosa Bruno, Luís Barreira, Agostinho Teixeira, Adelino Alves e José Batista.
Recorde-se que antigamente nas tavernas da maior parte do interior só se vendia vinho e aguardente e um ou outro cálice de anis. Só a partir de meados da década de 1960 é que começou a aparecer timidamente a laranjada e cerveja, mas só para poucos e não todos os dias.
Mais tarde, final da década de 80 ou início de 90, Lino Bruno, homem da terra mas residente e casado em Santa Valha, deslocava-se semanalmente a Pardelinha para vender alguns artigos, nomeadamente mercearia e um ou outro produto de mais consumo diário, dado a mulher possuir em Santa Valha uma pequeno comércio com taberna. Esse trajecto semanal era feito numa carroça puxada pelo seu animal de carga.
Anteriormente as pessoas para se abastecerem dos bens necessários, inclusive do petróleo para as candeias alumiarem as habitações, deslocavam-se a pé a Santa Valha e à feira quinzenal de Lebução e Vilarandelo.
Na comunidade – localizada no extremo da terra fria – houve agricultura de montanha, negócio de gado ovino e bovino, venda de fumeiro caseiro, madeira, lenha e carvão e até alguma exploração artesanal de minério de volfrâmio no tempo da segunda guerra mundial, bem assim como alguma pequena indústria também artesanal, tal como:
Quatro moinhos de rodízio de moer cereal, um deles, já em ruínas situado no lugar de Valongo junto à ribeira das Poças da Avessada ou Valongo, outrora pertencente aos herdeiros de José Manuel Bruno (a partir do início da década de 1990 de Carlos Dinis de Almeida de Stª. Valha, por compra), junto a um lameiro de pasto de Zeferino Alves de Castro. Dizem que esse moinho terá sido edificado por volta de 1900 e ter moído cereal até finais da década 1960. Um outro de rodízio, de tantos o único de toda a Freguesia ainda em razoável estado de conservação pertencente a Herculano Alves, situado à Ribeira – ribeira das Olguinhas -, cuja data de construção é indefinida de acordo com as várias gravações esculpidas no interior e exterior, tais como: 1927, 1941 e uma cruz, mais uma cruz, 1826, e ainda, outra data de difícil leitura. No meu entender, a data mais antiga terá sido provavelmente a data da construção do moinho e as restantes ou do início de novos donos ou do registo do falecimento deles, atendendo às cruzes esculpidas. Esse moinho moeu cereal até ao início da década de 1950. Os dois restantes situados no lugar Ao Fonjo na margem direita da ribeira das Olguinhas pertencentes a Augusto Lopes encontram-se totalmente destruídos, um já com poucos ou nenhuns vestígios visíveis e o outro a caminho, encontrando-se algumas das peças de um deles na casa de habitação do proprietário.
Contou-me um residente que os moinhos em geral começaram a deixar de funcionar a partir do início da década de 1960, em virtude começarem a aparecer as primeiras moagens de farinhas e de um imposto que o governo de então começou a aplicar aos (pobres) moleiros dessas indústrias artesanais milenares.
Nessa época as duas pequenas ribeiras que cercam a aldeia nunca secava no verão. A água que corria até finais de Julho era sempre suficiente para fazer mover as pedras para os moinhos moerem e, como dizia o povo: águas paradas não movem moinhos.
As duas pedras de moer do moinho da ribeira de Valongo que atrás refiro encontram-se há cerca de duas décadas a servir de mesas de lazer no largo público da aldeia.
Se antigamente pouco existia, hoje-em-dia para além de alguma agricultura pouco resta de todo esse passado económico.
Pardelinha, 2008/2018.
Barbeiros em Pardelinha:
Neste último século passado (XX), que se saiba, houve quatro barbeiros em Pardelinha. Foram eles: Eliseu Félix dos Santos, Cândido Fontoura, Artur Serra, e por último, Artur Serra Bruno. Por norma, era ao domingo de manhã ou uma ou outra de vez de sesta no verão que cortavam o cabelo e faziam a barba, deslocando-se algumas vezes a casa do próprio cliente.
Contou-me o senhor Cândido Fontoura, nascido em 1919, contando já 93 anos de idade, homem ainda bastante lúcido, afável, conversador e de sábia memória, que cortou cabelos e bardas durante vinte e sete anos, mas só o fez até por volta de 1960. O motivo de ter deixado de exercer essa nobre profissão amadora foi, porque nessa altura, não se recebia em dinheiro (que o não o havia, disse ele), mas sim em cereal (centeio) e a maior parte das famílias não pagava mais que um alqueire de centeio por ano (12 kg), para o corte de cabelo e barba de toda a família, portanto, isso não dava para nada.
Eliseu dos Santos (Ti Liseu como o chamavam) cortou até por volta de meados da década de 1940, Artur Serra deixou de cortar até por volta de 1968; ambos terão provavelmente desistido pelo mesmo motivo que o senhor Cândido.
Quanto ao último barbeiro, Artur Serra Bruno, pastor de profissão, que recebeu de oferta a tesoura de Eliseu Santos bastantes anos mais tarde, terá deixado progressivamente de ter clientes, devido, sobretudo, a alguma já facilidade de transporte das pessoas a outras localidades onde existiam profissionais e ao próprio poder económico das pessoas que já tinha de algum modo melhorado. Dizem ter abandonado a arte por volta de 1995.
Acrescentou finalmente, que nessa época, para desinfectar a cara e o pescoço de alguma irritação feita pela navalha, era costume molhar o pincel em aguardente e passa-lo por cima.
Posteriormente mais um ou outro curioso poderá ter dado umas tesouradas a amigos, mas não passou disso.
Pardelinha, 2008/2018.
Pastores e Gado:
Uma das principais actividades em Pardelinha continua a ser o da pastorícia de gado ovino. Antes da década de 1970 chegaram a existir na aldeia sete rebanhos de gado fora alguns animais caprinos. Hoje -2010- ainda se conservam quatro rebanhos: “irmãos Serras”: Miguel, Armando e Artur Serra Bruno, irmãos descendentes de pastores, e o rebanho de José Joaquim Fontoura Lopes.
Das várias pequenas cabanas – típicas – de pedra de piso térreo edificadas que chegaram a existir outrora no termo de Pardelinha para os pastores e outros guardadores de animais de trabalho se recolherem em dias de chuva ou outra invernia, hoje só restam duas, uma no lugar de Valongo junto ao lameiro do senhor Domingos Bruno e outra à Ribeira junto ao lameiro do senhor Herculano, agora de seu filho Jaime. Aconselho uma visita.
Pardelinha, 2010
Animais de trabalho: Antigamente chegaram a existir na aldeia de Pardelinha muitos animais de trabalho, nomeadamente juntas de bois e de vacas. Dizem os mais velhos terem existido na aldeia 12 juntas. De tantos animais possantes dessa espécie, hoje (2018) só resta uma ao serviço da lavoura, a “junta de vacas” do Senhor Augusto Lopes.
Pardelinha, 2018
Exploração de Minério:
Para além da sede de freguesia (Santa Valha), Pardelinha também teve, no tempo da segunda guerra mundial (1939/1945) e poucos anos seguintes exploração artesanal de minério de volfrâmio, elemento químico ou metal, essencial para o fabrico de material de guerra, nomeadamente a de artilharia. O “El Dorado” português nesse tempo, devido ao elevado valor económico que tinha, disputado por muitos países, tanto aliados como alemães.
Uma dessas antigas explorações escava à mão, certamente a mais importante, encontrava-se no lugar denominado por “Águas férreas – Terra do Queiroga”, a poente da estrada para Fiães.
Dizem que a vala dessa antiga exploração, hoje parte dela arrasada por uma retroescavadora há algumas décadas atrás a mando do proprietário do terreno que penso pertencer a um dos herdeiros da família Fontoura, era bastante funda e cumprida e que para extrair o minério e o entulho, parte dele composto por pedra de seixo, existiam socalcos nas paredes laterais da mina. Também, que na altura da exploração, a água do chafariz de duas bicas do cimo da aldeia, que distancia cerca de um quilómetro, chegava por vezes a turvar. Poderá ter acontecido, que a veia da água que fornece as duas bicas da aldeia atravesse ou passe perto dessa antiga exploração. Também, que para além desse (minério) metal de cor branco cinza, saía um outro de cor esverdeada, mas de muito menor qualidade, que diziam já nesse tempo ter componente prejudicial à saúde(?).
Foi lá que a gente de Pardelinha viu o primeiro motor de puxar água funcionar, que ajudava a tirar a água do fundo poço ou da escavação da exploração, normalmente feita pelos braços do homem, como também me contaram.
Uma outra pequena exploração existiu no lugar denominado às Beiradas, perto do sítio do Canamão ou Olguinhas, mas com bastante menos importância.
Foi o médico Dr. Olímpio Seca, casado em Pardelinha, que mandou explorar ou foi responsável por essas tais prospeções e explorações mineiras, assim como ainda por uma outra que fica às Relvas, perto do limite do termo de Pardelinha com Fiães e da estrada, a norte do lugar de Águas-férreas. Essa propriedade pertence hoje a Almor Batista, de Fiães.
Nesse tempo, ganharam-se boas e rápidas fortunas quando se tinha sorte de encontrar um bom filão. Mas a maioria como era ganho de um dia para o outro, também desaparecia rapidamente. Por volta de 1943, auge da guerra, a cotação chegou a atingir o valor astronómico de 1.500$00 (escudos) o kilo, desvalorizando-se depois para os 300$00. O preço da jorna (jeira) diária do homem de sol-a-sol na lavoura era na época cerca de 12$50.
Contaram ainda, que por volta de 2016 um engenheiro de origem Canadiana, esteve em Pardelinha para verificar estes sítios e colher elementos, provavelmente tendo em vista possível futura reactivação mineira, e quem o acompanhou aos locais terá sido Paulo Fontoura.
E foi assim noutros tempos a exploração do “El Dorado” em Pardelinha.
Pardelinha, 2017.
Indústria de Fabricação de Telha em Pardelinha:
Existiu em Pardelinha até á década de 1930 uma indústria de fabricação de telha artesanal, conhecida por “Forno da Telha”.
Essa indústria de outrora localizava-se no lugar chamado à “Fenteira”, junto ao Vale, a cerca de cento e tal metros da casa de herdeiros de Cândido Fontoura e de trinta da margem direita da estrada para Fiães, numa(s) propriedade(s) de carvalhal que pertencerá a esses mesmos herdeiros ou aos de Alexandre Fontoura.
Hoje, desse antigo forno de cozer já nada existe. Contaram-me algumas pessoas mais idosas que ainda se recordam de ver bastantes fragmentos dessa antiga e importante actividade industrial caseira e que esses fragmentos terão desaparecido quando das muitas extrações das folhas dos carvalhos ao longo dos anos para servirem de estrume nas propriedades agrícolas.
O barro para a fabricação era explorado por perto, estendendo-se para cima junto à (agora) estrada.
Esse modelo primitivo telha de barro em “forma de caleira” de bastante rigidez e impermeabilidade ainda hoje é visto em muitas coberturas de habitações ou dependências mais antigas de todo o nosso país, principalmente no interior.
Pardelinha, 2015.
Vestígios dos Mouros e Romanos:
A duzentos e tal metros a sul da Capela de Santo Antão, encontram-se algumas fragas com vestígios esculpidos ou cavados de forma arredondada que o povo diz ser do tempo dos mouros e/ou romanos. A esse sítio o povo de Pardelinha denomina-o por “Fragas da Moura ou Mouros”. Na de maior porte poderá provavelmente tratar-se de um altar de sacrifícios ou de outros rituais desse remoto tempo.
Entre os sítios das Fragas da Moura e da Capela de Santo Antão, a uns trezentos metros mais abaixo, já perto da ribeira ou regato, encontra-se três lagares rupestres de fazer o vinho cavados ou escavados na rocha, que tudo indica serem de origem romana ou até, quiçá, pré-romana, nos lugares denominados por Fonjo e Ladeira. O do “Fonjo”, de pequenas dimensões, está situado numa propriedade agrícola dos herdeiros de José Joaquim Rolo, agora pertencente a João Rolo(?). Os dois maiores, encontram-se no lugar da “Ladeira”, numas propriedades que pertencem, um, aos herdeiros de Alexandre Fontoura e, o outro, aos herdeiros de Artur Bruno Serra.
Foram descobertos recentemente mais dois lagares romanos ainda não catalogados ou inventariados em livro em dois montes de Maximino Coelho que ficam, um no lugar da Ladeira a cerca de duzentos metros do lado de lá do regato não longe dos outros lagares. Uma referência da localização é as linhas de alta-tensão que passam mesmo por cima desse lagar. O segundo, no lugar da Ribeira perto do início do caminho e junto a ele que vai dar ao monte do Vale à frente.
É, sem dúvida alguma, uma importante arte rupestre de fazer o vinho que os nossos antepassados de há cerca de dois mil anos nos deixaram, património cultural que certamente guardará muita história desse antigo passado que devemos preservar e divulgar. O conhecido “Vinho da Talha” -vasilha de barro onde estagiava- vem da sabedoria do povo romano desse milenar tempo.
Há quem diga, que parte desses lagares construídos pelos romanos poderão já remontar a um ou dois séculos A.C.- antes de Cristo-.
Pela construção do piso de um dos caminhos agrícolas que dá acesso aos lagares do Fonjo e Ladeira que referi anteriormente, tudo leva a querer que poderá tratar-se de calçada romana, possivelmente local de passagem desse antigo e importante povo para outras localidades.
No lugar conhecido Á Buraquinha, a uns cem metros para baixo da estrada para Fiães ou recta das Águas-férreas, numa propriedade agrícola de Cândida (da) Fontoura, ainda é possível ver alguns (poucos) vestígios de uma antiga adega com um lagar de vinho de paredes inteiras no interior. Também no lugar da “Fraga”, a uns quatrocentos metros do cemitério público, numa propriedade de monte que pertenceu ao falecido Dr. Olímpio Seca, agora de Sandra Neves Alves, podemos ver uma adega idêntica com lagar de vinho de pedras inteiras no interior, também já em ruínas, mas em melhor estado de conservação. Atendendo à forma e método de arquitectura, tudo indica que se trate de construções do século XV ou XVI, ou até mesmo antes, do tempo da idade média.
A poente de Pardelinha, entre esta e Monte de Arcas, existem ainda mais três adegas desse tipo e época em menos ruínas do que os anteriormente referidos, que distanciam, umas das outras, cerca de duzentos metros, nos lugares denominados de “Valongo (de Cima) e Raposa”, sem bem que numa delas o lagar é cavado/escavado na rocha dentro de muros em ruínas. Apesar de se encontraram a cerca de trezentos metros do lado de lá do regato e as propriedades pertenceram a gentes de Monte-de-Arcas, da freguesia de Tinhela, encontram-se ainda inseridos no território da freguesia de Santa Valha.
Essas adegas, situadas nos montes, são de construção muito mais recente do que as dos lagares cavados/escavados nas rochas do tempo dos romanos ou mouros. Tudo leva a querer que se trate de construções datadas dos séculos XVIII ou XIX.
Há um outro local no monte, perto do lugar das Águas – Férreas, chamado de Monte dos Açougues, que dizem ter servido noutros tempos remotos para sacrificar animais para alimentação das pessoas e/ou eventualmente para rituais de sacrifícios ou outras crenças.
Pardelinha, 2008/2018.
Talha da Moura:
A uns duzentos metros abaixo da encosta das Fragas da Moura ou dos Mouros, num carvalhal do lugar *À Fraga*, perto do antigo escorregadouro, existe um penedo ou fraga de forma arredondada que se assemelha a um sapo conhecida na aldeia por “Talha da Moura”.
Essa fraga tem junto ao solo um pequeno e apertado buraco construído pela natureza que dá acesso ao seu interior, onde, alguns jovens de outros tempos lá entraram, a maior parte motivados pelo interesse de ouvirem dizer que existia no interior da fraga um valioso tesouro em ouro guardado por uma bonita e donzela moura e que, quem o encontrasse, ficava rico.
Que de igual modo ouviram antigamente contar, que nesse local aparecia de vez em quando aí sentada essa tal moura a cantar e a pentear o seu longo e bonito cabelo, que era lindíssima e que desaparecia de imediato quando as pessoas lá chegavam, aparecendo por vezes logo a seguir por perto.
A única coisa que um ou outro mais idoso sabe ainda hoje contar, é que no penedo de maior porte do lado nascente junto à fraga da Talha da Moura existe numa das faces laterais umas cinco ou seis pequenas escavações cavadas na rocha parecidas com os degraus de uma escada, que serviria para a moura encantada a trepar e que no cimo da mesma fraga se encontra uma escavação parecida com a forma de um assento ou cadeira de descanso. Aida, que outras pequenas escavações arredondadas nas rochas existem ao redor do mesmo sítio, tal como mais acima nas Fragas da Moura ou Mouros.
Certo é que depois de alguns mais atrevidos e destemidos lá terem entrado, todos diziam o mesmo: ser o interior da fraga oca e nada terem visto. Provavelmente a magia da fada moura o faria desaparecer desse sítio quando se apercebia da chegada e da intensão da jovem rapaziada.
Por se tratar de um penedo que o povo apelida de “Talha da Moura” situado num lugar com referência a histórias contos e mitos, certamente terá existido outrora uma ou outra lenda com mais detalhe como noutros sítios, que contavam e ainda contam, quase sempre, que nesses locais, se encontravam guardados, escondiam e escondem riquíssimos (supostos) tesouros e que as mulheres, donzelas e até mouras encantadas, quando referidas nos contos, eram quase sempre ricas, bonitas, atraentes e donas de rara beleza, tal como esta da Talha da Moura, porventura também cobiçada por algum Rei Mouro.
Terá rezado a lenda da “Talha da Moura e das Fragas da Moura” a exemplo de outros sítios semelhantes! Provavelmente sim, mas ninguém na aldeia sabe dizer ou contar mais do que isso.
Pardelinha, 2008/2018.
Escorregadouros:
Entre os lugares das Fragas da Moura ou dos Mouros e o da Talha da Moura encontra-se uma fraga de grande porte que serviu em tempos passados de escorregadouro, onde muitos jovens rasgaram as calças e os vestidos. Dizem existir ainda mais dois do mesmo antigo divertimento que se situam nos seguintes sítios: um, no lugar/Monte do Escorregadouro, não muito longe da estrada a poente da casa de Maximino Coelho e, o outro, no lugar do Cabeço do Porco junto à Cabeça Gorda na zona do Canamão.
Pardelinha, 2014.
Geomonumentos ou Geossítios:
Para além do património edificado, existem no território de Pardelinha particularmente no termo do Canamão e vizinho alguns geomonumentos ou geossítios que natureza construiu e que são dignos de serem visitados, entre eles: A “Pala do Mocho” Ás Gândaras que serve de abrigo a pastores que por lá passem em dias de chuva ou invernia, com uns enormes rochedos que podem servir de miradouro e o “Penedo Redondo” situado numa encosta À Estiveira que mexe quando aplicada a força humana, e que tem uma história engraçada passada até a alguns anos atrás com a juventude como protagonista, memória contada pelo jovem da terra, Armando Bruno Serra, que é a seguinte:
“Como que o enorme penedo de forma oval – que terá sido cortado ao meio pela natureza – mexia/mexe quando forçado de forma abrupta por estar assente num pequeno cabeço de chão rochoso bastante desprotegido e acentuado, até por volta das primeiras décadas ou meado do século XX, os jovens mais destemidos e possantes da aldeia deslocavam-se de vez em quando em grupo ao local para o tentar mover e rebolá-lo pela encosta abaixo, atendendo à provável fragilidade que este poderia ter no assentamento. Havia sempre um, o mais fraco, portanto, com menos força, que encostava o ouvido à pedra e quando ouvisse algum barulho estranho avisava em voz alta os restantes para continuarem a puxar ainda com mais força e com a ajuda de um ou outro pau para conseguirem o tal desejado intento.
O que é certo, é que das inúmeras vezes que a rapaziada insistiu lá deslocar-se ao longo dos tempos para tentar rebolar o penedo pela encosta, isso nunca chegou a acontecer e ele lá permanece firme e do modo como a mãe natureza o deixou”.
Nota – Da parte de trás dá para subir acima dele, tirar umas fotos para a posteridade e admirar a bonita paisagem que se avista até bastante longe.
Pardelinha, 2008/2018.
Outros acontecimentos na Aldeia:
Luz Eléctrica: A Inauguração da luz pública e ao domicílio em Pardelinha remonta a 1977. No Gorgoço deu-se um ano antes, 1976, e em Santa Valha, em1967.
Para que a luz fosse ligada e por falta de recursos da Câmara Municipal de Valpaços, o povo do Gorgoço e o de Pardelinha tiveram que pagar do seu bolso, sabe Deus com que sacrifício, o projecto de instalação dos postes de electrificação ao engenheiro projectista da empresa fornecedora de energia “Chenop” – Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal, S.A.R.L. – mais tarde EDP -.
O povo vizinho de Monte de Arcas recusou-se a pagar essa absurda e patética despesa e a luz nessa localidade apesar da instalação totalmente pronta, só foi ligada e inaugurada 1 ano mais tarde, 1978.
Ouvi dizer também que a primeira casa em Pardelinha a ter a instalação eléctrica antes de a luz chegar foi a do senhor Laureano de Castro Alves e que chegou a ligar algumas vezes a luz através da bateria do carro com a ajuda de um transformador.
Pavimentação das Ruas: Iniciou-se em meados da década de 1980 ainda em pedra lascada explorada nos montes na rua da Fontinha, hoje Dr. Olímpio Seca. Bastante mais tarde, início da década de 2000, essa pedra foi arrancada, para dar início à pavimentação em paralelos de granito, tendo sido concluída por volta de 2009.
O largo do Calvário que serviu noutros tempos de eira de malhar cereal e o resto da rua que liga à rua da Veiga, só vieram a ser arranjados e pavimentados em 2016. A maior parte desse agora (acrescido e amplo) espaço público limitava com um outro a sul (encosta/poulão) doado ao povo e que terá pertencido outrora a uma família que residiu em Pardelinha de apelido “Fernandes”, apelido que só um ou outro mais idoso da aldeia se recorda de ter ouvido falar. A restante e maior parte do terreno do largo foi há uns anos atrás doado à aldeia pela falecida Dª. Maria Fernanda de Castro, filha do antigo benemérito da aldeia João António de Castro, e esposa do anteriormente falecido Dr. Olímpio Seca, conhecido pelo médico do povo.
Saneamento Básico: início a década de 2000.
Centro de Convívio: Foi inaugurado em 03-10-2009. Originou de restauro e requalificação da antiga escola-primária.
Telefone Público e Particular: Instalado na casa de Artur Fontoura até meados da década de 1960. A seguir e por muitos anos na mesma habitação mas da responsabilidade de sua irmã Belisanda. Hoje (2017) encontra-se na casa de habitação de Fernando Paulo Fontoura, contígua à mesma.
Tocadores de Concertina e Cavaquinho: Concertina – Manuel e João Alves (da Amélia); Augusto e Arnaldo Coelho e, ultimamente, Adelino Alves. Cavaquinho: Francisco …. (trolha). Nota: tocadores que os mais idosos se recordam.
Primeira Bicicleta: Foi dos irmãos Cesar e Zeferino Alves por volta de 1955, bicicleta repartida por ambos. Seguiram-se a de Adelino Alves por volta de meados da mesma década 60 e a de Júlio Fontoura Santos por volta de 1982, estas duas já um pouco mais modernas. Provavelmente todas de marca Flandria ou Órbita.
Primeira Motorizada: Foi de Vicente Vilardouro em 1971. Seguiram-se as de Artur Serra por volta de 1975 de marca V5, depois: Adelino Alves, Serafim Santos e Miguel Serra.
Primeiro Automóvel: Foi de Laureano Alves, na década de 80.
Primeiro Tractor: Foi de Adelino Alves em 1981, marca Ebro.
Primeiro Rádio: Foi de Justino Augusto dos Santos por volta de 1952. Trabalhava a bateria que era necessário carregar. Provavelmente o carregamento seria feito em Valpaços, Vilarandelo, ou a partir de 1967 em Santa Valha. O segundo, a pilhas, foi de Álvaro José Alves, por volta de 1977.
Primeira Televisão: Foi de Herculano Rodrigues Santos, em 1977 ou 1978.
Primeiro Gira-discos: Penso ter sido o de Artur Serra; ainda a pilhas. Por volta de 1975.
Pardelinha, 2008/2018.
NARRATIVA DE 25 DE MAIO DE 1939 SOBRE A PEQUENA LOCALIDADE DE PARDELINHA, CONTADA PELO PADRE JOÃO VAZ DE AMORIM, MAIS CONHECIDO NESSE TEMPO POR “JOÃO DA RIBEIRA”, QUE ESTEVE NO MUNDO DOS VIVOS DESDE 1880 A 1962, NUMA DAS SUAS VIAGENS POR TODO O TERRITÓRIO DE VALPAÇOS, DESCRITA NA SUA OBRA: POR MONTES E VALES. TERRAS DE MONFORTE E TERRAS DE MONTENEGRO (Revista AQVAE FLAVIAE).
Censos Antigos:
Documentos. Concelho de Valpaços – Aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhe pertenciam
Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem
“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
(1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre [pp. 432 – 433]
[conforme o original]
Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem.
Santa Valha he cabeça da Abbadia do Padroado Real, que rende setecentos mil reis: tem este lugar, & a quinta de Calvo da sua Freguesia cento & trinta visinhos, & demais da Igreja Matriz tem huma Ermida, & vinte fontes.
Fornos tem noventa visinhos, Igreja Paroquial da apresentação do Abbade de Santavalha, mais huma Ermida, & oito fontes.
Paradelinha tem 16. Visinhos, nenhuma Ermida, & seis fontes.
Bouça tem cincoenta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, nenhuma Ermida, & huma fonte.
Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.
Evolução da População da Aldeia:
Os censos de 1911 registam 131 residentes, 1940: 139 residentes e 1960: 129 residentes
Agradecimento: Agradeço às várias pessoas de Pardelinha que colaboraram para estas histórias e memórias. No entanto, há uma, a quem deixo aqui um agradecimento especial, ao senhor Cândido Fontoura, que não obstante já contar 91 anos de idade registados em 2010, é possuidor de uma excelente memória, simpático e muito bom conversador, bem assim como contador de histórias e memórias. Foi uma pessoa que ajudou a compreender a origem de Pardelinha.
Noites grandes de Pardelinha.
Certo dia de inverno, um pobre pedinte de saco às costas cheio de nada, chegou a Pardelinha. Como trazia o estômago vazio, logo de imediato se pôs a pedir comida e alguma esmola de porta-em-porta.
Aproximando-se o final do dia, o pobre pediu que lhe arranjassem um abrigo quente para pernoitar. Alguém ouviu o seu pedido e de imediato, um bondoso, acolheu-o numa divisão térrea muito escura que tinha junto ao curral e fechou-lhe a porta para não entrar frio. Acontece, porém, que nunca mais se lembrou do pobre coitado e, só mais tarde, “ após três dias e três noites passadas”, se recordou que o mendigo ainda lá estava fechado e abriu-lhe a porta. O pobre saiu então do “aposento” um pouco tonto no tempo dos dias e noitadas que lá passara e foi-se embora; o que lhe valeu foi uma ou outra côdea de pão que tinha no saco.
Chegado a uma aldeia vizinha, Fiães, apareceu-lhe uma matilha de cães, que vinha na sua direcção, e ele, com medo, baixou-se para pegar numa pedra para se defender. Como não conseguiu arrancar a pedra do chão, devido ao gelo da geada que tinha caído nessa noite, o homem exclamou, dizendo: porra!…, – noites grandes de Pardelinha e em Fiães prendem as pedras e soltam os cães…., não sei que mais me irá acontecer!.
Obs: “Esta história que dizem na aldeia ter-se passado na década de 1940 ou 1950(?) foi mesmo verídica e o aposento escuro do pobre pedinte foi numa antiga dependência da casa de Álvaro (Alves) Castro junto a um forno, propriedade hoje de Ercília Rolo, que veio a demolir o sítio para obras por volta do início da década de 1990.
Amílcar Rôlo – Dados colhidos entre os anos de 2008 a 2018.
