Aldeia do Calvo
Calvo
O Calvo é uma pequena aldeia abandonada anexa a Santa Valha. Situa-se a aproximadamente três quilómetros para poente da Freguesia. Está rodeada em parte por uma serra, a serra Santa Cristina, encosta que divide o território da freguesia de Santa Valha com a de Vilarandelo, num sítio que era conhecido pelos locais por “fraga das sete-saias”.
Como o próprio nome indica, é banhada pelo rio Calvo. Actualmente está toda em ruínas, onde noutros tempos e pelo número de casas, acolheria cerca de sete ou oito famílias e uns sessenta a setenta habitantes, incluindo os residentes nos moinhos por perto que lhe pertenciam e que também faziam parte da pequena comunidade.
A sua posição geográfica a sopé da serra indica-nos que um dos trabalhos dessas famílias, e avaliando o número de moinhos, também em ruínas, seria o de moer cereal. Se bem que a lavoura e o gado também tivesse a sua importância, tendo em conta os mais de trinta hectares de terras férteis estendidas pelo vale das duas margens até um pouco a jusante da ponte do calvo e da estrada que se situam a cerca de dois quilómetros abaixo.
Em 1953 houve um incêndio que consumiu uma parte do povoado, sendo provavelmente o motivo do início da sua desertificação. Mas foi em finais dessa década ou no início de 60 que o abandono das habitações mais se acentuou.
À entrada da aldeia existia uma pequena capela com cemitério no adro envolvente, ambos comunitários. Ainda hoje se podem ver alguns vestígios dessas ruínas. A Santa que deu nome à Serra, Santa Cristina, foi profanada, tendo só restado um Santo na capela, Santo António, que uma dada altura já sem gente, um cavaleiro que por ali passava o viu lá sozinho, pegou nele e levou-o, para uma aldeia próxima, Pardelinha. Essa lindíssima imagem encontra-se ao lado do padroeiro no Altar-mor. As Memórias Paroquiais de 1758 dizem que Santo António era o padroeiro do Calvo, portanto, a tal profanação que dizem ter acontecido terá sido anterior a essa remota data.
Antes do casario e da quinta serem fracionados em várias habitações e inúmeras propriedades agrícolas terá tudo pertencido a um padre e duas irmãs e que estas depois da morte vieram a deixar ao irmão a parte delas por herança, vindo os herdeiros do padre a vender tudo posteriormente, tonando-o um povoado. Dizem que esse padre terá sido morto para o roubar no caminho vicinal que liga o Calvo a Santa Valha, quando da deslocação para rezar uma missa.
A cerca de 300 metros para sul do casario e muito perto do antigo caminho vicinal que liga à sede de Freguesia, Santa Valha, ainda se pode ver uma escavação mineira de exploração de volfrâmio provavelmente do tempo da segunda guerra-mundial.
Paraíso apreciável de um belo passeio, são as fragas lisas; Seguindo o caminho principal e a uns 150 metros acima do povoado, encontramos três moinhos em ruínas, é um dos locais favoritos de muita gente. Descendo então pela encosta até ao leito do rio, ai podemos apreciar do silêncio das montanhas, das enormes fragas lisas por onde a água do rio passa tranquila sem pressa de chegar ao destino, e os desgastes da rocha a indicarem milhares de anos de cumplicidade.
O antigo caminho vicinal que liga a aldeia próxima de Agordela a Santa Valha fica logo a seguir na outra margem do rio.
E é isto um pequeno pedaço da história e do passado desta antiga aldeia ou povoado medieval, hoje já bastante delapidado do seu património construído, onde o último morador com cegueira total, por teimosia própria, quis morar sozinho até ao início da década de 80 do passado século, ou seja, pouco tempo antes de falecer, o Senhor Mário António (Teixeira), pessoa generosa e solidária para com todos.
As paredes e outros vestígios em ruinas do que resta certamente guardarão toda a história e memórias desse (nostálgico) local. Só eles o saberão contar. Para voltar a reconstruir este paraíso, onde a calma reina como muito poucos, no meu entender pessoal, só com um investimento de requalificação em espaço de turismo rural, dada a potencialidade que tem. Quiçá um dia esse investidor apareça!
Amílcar Rôlo/2008
ANEXA DO CALVO: Coisas e gentes da história desse antigo povoado.
O último residente…(ou resistente).…,
O último habitante a residir no povoado Calvo foi o Senhor Mário António (Teixeira), respeitosa e carinhosamente conhecido por “Mário Cego”. Residiu lá até ao início da década de 80 do século XX, um pouco antes de falecer.
A cegueira total do Senhor deu-se aos dezasseis anos de idade ao perder a última vista numa queda para cima de um carro de bois, tendo batido com o olho num dos estadulhos.
Era um homem alto, bem constituído, culto e vivia sozinho. Ao domingo vinha quase sempre à missa a Santa Valha e visitar familiares e amigos, como, por exemplo, a família de Gualdino Nogueira (do Br. do Sobreiró), seu primo; Fernando de Castro do (Bairro dos Ciprestes) e a família de Laudemira Ferreira da Cunha (Cagigal), entre outros.
Não obstante a idade já ser bastante avançada, por teimosia própria, continuava a resistir a viver isolado dentro do telhado e das paredes que o viram nascer.
Apesar de ser completamente cego, solteiro e a viver sozinho, fazia por mão própria, todas as tarefas pessoais e domésticas incluindo lavar a roupa, fazer fumeiro, ir à fonte (de mergulho que fica junto à parede do casario virada para o rio) buscar água e ainda pequenos serviços agrícolas como a poda da vinha, cava e outros. Contou-me uma pessoa o seguinte: quando o senhor Mário se deslocava a Santa Valha, Vilarandelo e Agordela, deixava/guardava a chave da porta da entrada de casa em três buracos diferentes da parede, conforme o local da deslocação, para quando algum familiar o fosse visitar e estivesse ausente, pelo buraco, ficava a saber onde se tinha deslocado.
Também era do conhecimento geral, que em dias de maior invernia quando a água do ribeiro crescia, não podendo atravessar a pé o ribeiro pelas pedras das poldras/alpondra para a outra margem, fazia-o, num velho pontão, passando por cima do tronco de uma árvore caída que servia de tabuleiro por uns anos antes a água ter levado a madeira e nunca ter sido reposta; situação presenciada por várias pessoas que o conhecia. Contaram-me ainda, que durante muitos anos teve uma cadela como companheira e que lhe fazia companhia nessa muito arriscada travessia.
Foi um homem muito bondoso e generoso como hoje já é difícil de encontrar referiu Adriano da Mata, acrescentado: – lembro-me de muito jovem ter ido com o meu primo Amadeu (dos Reis) Moreiras, -Pedreiro, como era conhecido -, algumas vezes ao Calvo, comprar uns cordeiros e ser a casa dele que ia-mos parar. A comida era feita por ele e pelo Amadeu e, ainda me recordo também dele descer umas escadas que ligavam à adega e trazer vinho para o almoço. Acrescentou ainda, que era um homem muito honesto e toda a gente lhe levantava o chapéu…. Também Artur Feijão e outros(as), que o conheceram pessoalmente, nos falaram de várias peripécias passadas , de um homem de bom coração, tendo a casa sempre aberta a todas as visitas. Benvinda da Cunha Cagigal, minha mãe, para além de me contar, que o senhor Mário perdeu a vista muito jovem, primeiro uma e um pouco tais tarde a outra numa queda ao bater num estadulho de um carro de bois; era muito amigo da sua família, visitava muitas vezes a casa de seus pais, onde também por vezes almoçava, quando vinha à missa. Relatou-me também algumas memórias compartilhadas com esse bom e confidente amigo. Cândida C. Nogueira Rocha Santos e sua irmã Madalena, que também fizeram parte da história da comunidade e que receberam de herança, “penso de sua mãe”, parte de uma matriz dessas casas e moinho(s), também me descreveram algumas lembranças e me ajudaram a esclarecer algumas dúvidas.
O Dr. Agostinho Alves Nogueira contou-me, que antes de falecer “por volta de meados da década de 1980”, se aborreceu com o seu pai, Gualdino Nogueira, primo e ex-regedor da freguesia, por este ter interferido junto da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços para o levar para essa instituição de acolhimento, (o) que chegou a acontecer. Por convicção, teimou em morar no Calvo quase até à sua morte que aconteceu em 1984.Tinha nessa data 80 anos de idade. Referiu ainda, ser uma pessoa com os sentidos muito apurados, em particular o da orientação, bom conversador e postura na vida irrepreensível.
Na Certidão-Assento de Óbito consta só possuir o nome de “Mário António”, ser filho de António José Teixeira e Zeferina da Assunção, ter nascido na Freguesia de Santa valha no ano de 1904 e de ter falecido em Valpaços no dia 23 de Março de 1984.
Nos vários contactos pessoais que fiz para esta pesquisa de memórias e recordações, todos me disseram, sem excepção, ter sido um homem com uma integridade fora do comum, assim como excelente pessoa em todos os aspectos…, – daqueles que já é difícil encontrar – e, é nesse sentido, pela maneira de ser da sua pessoa, e ainda, como amou até à morte o local onde nasceu e viveu, que o recordo e lhe presto aqui esta singela homenagem póstuma.
Nos Documentos: Aldeias do Concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – “Memórias Paroquiais de 1758”, diz no manuscrito do Padre/Abade da nossa paróquia de então, Domingos Gonçalves, que a anexa do Calvo possuía uma Capela de Santo António, três vizinhos (moradias) e dezassete pessoas. No livro (II) Corografia do Padre António Carvalho da Costa sobre documentos de “1706 a 1712” do concelho de Valpaços: Aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no Termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhe pertenciam “ Abadia de Santa Valha, não consta qualquer referência à anexa/povoado do Calvo, a não ser o seguinte: que a “quinta do Calvo” pertence à freguesia de Santa Valha.
No povoado ou aldeia do Calvo chegou a residir nas décadas de 40 e 50 do século XX uma comunidade de sete ou oito famílias, ou seja: cinco ou seis, oriundas de Santa Valha, uma de Vilarandelo e outra (penso) de Agordela. Na década de 50 residiam cerca de setenta pessoas, incluindo as que habitavam em alguns dos bastantes moinhos existentes. De acordo com o que se encontra escrito em 1796 o Calvo tinha 2 fogos, 10 pessoas e dois lavradores.
Nesse pequeno aglomerado de casas, há muito sem vivalma e em ruínas profundas, que chegou a ter capela comunitária para o culto, com o Santo António como Padroeiro e cemitério de áreas muito reduzidas contíguo esta para enterrar os seus mortos, que dizem terem-no feito até por volta de finais do século XIX ou início de XX, não foi só terra de moinhos e moleiros, mais sim de habitação de famílias com alguma abundância agrícola e pastorícia, tendo em conta que as propriedades agrícolas chegavam à estrada e até algumas a jusante da ponte do Calvo (de baixo). Só indústrias de moer cereal movidas pela força da água pertencentes a gente do povoado havia 6 ou 7, das 44 que existiram (43 de rodízio e 1 azenha) do nascente à foz, incluindo os do pequeno afluente regato/ribeiro do Piago, por perto, que desce de Vilarandelo.
De tudo desse povoado hoje só parte das paredes e as memórias ficaram de pé. Digo parte das paredes, porque a partir do início ou meados da década de 1990 alguém fez o rompimento de um pequeno caminho que atravessa a regato do Piago a cerca de quinhentos metros a norte da sua foz, que veio a contribuir para o roubo de várias pedras das paredes e outras de maior valor. O caminho principal que liga a Santa Valha atravessa o rio do Calvo na foz do regato do Piago.
Até Outubro de 1995 existiam no ribeiro junto à foz da ribeira umas poldras públicas e um pequeno pontão de pedra que dizem ter sido erguido no início da década de 1960. Contaram-me, ter sido esse pontão de um particular com terra de cultivo a poucos metros, mas que esse tal particular, Pedro de Morais, quando construiu o actual de areia e cimento, retirou, sem autorização, as pedras das poldras públicas de travessia pedonal, para fazerem parte das fundações ou esqueleto da construção do (actual) pontão novo que fez a seu custo. Diz o povo, que, ao tirar, sem autorização, as pedras das poldras de travessia pública, é porque considerou, desde logo, o novo pontão público. Esse caminho vicinal passa junto da antiga capela a cerca de pouco mais de cem metros do povoado. O caminho para Agordela segue como antigamente pela margem esquerda ou oposta do rio.
Para destacar essas antigas e importantes actividades económicas, pode-se ainda observar, grandes currais e/ou estábulos existentes para o gado bovino e ovino ou caprino, (ou outro), bem como vários lagares para fazer o vinho, eira para malhar o centeio, e ainda, dois fornos, um comunitário que se localiza logo à entrada do povoado e outro particular junto à antiga casa de Josefa Carlota Lopes, penso que hoje propriedade dos herdeiros de Marina Lopes Soares. Os vários moinhos da comunidade, a maior parte deles já se encontram sem paredes e sem as suas principais e importantes peças de pedra, roubadas por desconhecidos.
De igual modo também ninguém sabe o paradeiro das pedras das poldras para a travessia pedonal do ribeiro para a outra margem junto às casas e ainda de um belíssimo oratório esculpido na pedra da parede de uma divisão de uma das habitações e da cruz e duas pirâmides também de pedra que existiam por cima da padieira de uma das duas portas carral do povoado.
Na outra margem do rio perto da foz do regato do Sandim ou Carambelo (margem direita), existem ruínas de um antigo apiário ou colmeal. Esse colmeal, tal como outro a montante da mesma encosta perto do nascente do regato mas ainda em bom-estado de conservação, o maior de todos da redondeza, destinavam-se a guardar o mel dos cortiços das abelhas dos ursos-pardos que por cá habitaram até ao início do século IXX.
Também muito perto, ou seja, a meio do caminho – a poente – entre a ribeira do Piago e o povoado, existe uma escavação mineira de exploração de volfrâmio a céu-aberto que tudo leva a querer não ser do período da primeira guerra mundial que ocorreu entre 1914 e 1918, mas sim da segunda entre os anos de 1939 e 1945, onde, por volta de 1943, no auge da guerra, a cotação desse importante minério chegou a atingir o valor astronómico de 1.500$00 (escudos) o kilo, desvalorizando-se depois para os 300$00 (escudos). O volfrâmio era um elemento essencial para fazer material de guerra, nomeadamente a de artilharia. O “El Dorado” português nesse tempo devido ao seu valor económico, disputado por muitos países, tanto aliados como alemães. Por volta de 1935/1936, pouco tempo antes do início da segunda guerra, a jeira (jorna) diária do homem de enxada era de 3$00 e 6$00 (escudos) a seco ou a comer e a mulher de 1$50 a 3$00, onde a maior parte desses jeireiros recebia de soldo parte em dinheiro e outra em géneros.
Consta-se, que essa quinta terá pertencido no Século XVII ou XVIII a um Morgado, e que foi vandalizada e/ou incendiada no tempo da Invasões Francesas por qualquer motivo, provavelmente para roubar dinheiro, ouro ou outro objecto de valor de arte-sacra, etc. Também ouvi dizer, que após isso, todo esse enorme casario com a quinta agrícola de muitos hectares pertenceu na totalidade a um padre/cura- chamado António Álvares que teve duas irmãs e que terá recebido a parte delas por herança e ainda, que pagava 500 reis de contribuições por toda essa quinta para a guerra da Restauração, montante imposto pelo Estado ao Clero de Miranda.
Dizem também os registos que em 1653 – 1655, o Padre António Álvares, cura do Calvo, contribuía com 300 reis para os rendimentos da Abadia da paróquia de Santa Valha. Os restantes de Santa Valha eram os seguintes: Reverendo Abade Nuno Álvares, 6.700 reis e Padre Jerónimo de Morais, 300 reis. Fornos do Pinhal: Padre Leonardo Teixeira, 400 reis e Padre José Teixeira, 300 reis. Bouça: Padre Francisco Fernandes, 400 reis.
Madalena Rocha, que lá nasceu e morou até há sua juventude, regressando ao seu baú de histórias e memórias, contou-me, que esse padre António Álvares foi morto por alguém para o roubar no caminho vicinal que liga Agordela e Calvo a Santa Valha, mais propriamente junto ao lugar conhecido desde então por “Outeiros do Abade” – caminho que rasgava ao meio a sua enorme quinta – quando de uma deslocação a Santa Valha para rezar uma missa e que até ao início da década de 1960 ainda se podia ver um simples símbolo de pedra junto ao caminho a marcar essa tragédia. Ainda, que esse padre está enterrado no cemitério contíguo à capela que lhes pertenciam, onde, de todo esse património, só existe pequenos vestígios, portanto, pouco mais do que memórias.
Existem registos de que o licenciado Nuno Álvares, abade da freguesia de Santa Valha, ofereceu – obrigado a dar como todos das restantes freguesias paroquiais- para Contributo do Clero de Miranda do Douro, 20.000 reis, destinado às despesas da Guerra da Restauração que durou entre 1640 e 1668, sem embargo de já ter dado perto de 60.000 reis para reparo dos muros de Monforte de Rio Livre e que o padre António Álvares da quinta do Calvo ofereceu para o mesmo Contributo do Clero com 500 reis. Esse referido imposto aproveitado depois pelo Rei, não a contento da Santa Sé, terá sido instituído em 1641.
Mas se o casario foi porventura destruído ou vandalizado, a exemplo de outros sítios, no tempo das invasões francesas a mando de Napoleão para certamente saquear e roubar o ouro e a prata pertencente às igrejas e capelas, terá sido provavelmente logo nos primeiros anos do século XIX (1807 a 1811). Tendo em conta essas datas remotas, questiono o seguinte: não terá sido inicialmente propriedade do tal padre e mais tarde do – possível – Morgado, pessoa que veio a vender mais tarde em parcelas a habitação e toda essa quinta agrícola!? O que se sabe verdadeiramente é que não foi encontrado até hoje nenhum manuscrito ou outro documento qualquer que refira isso.
Ninguém me conseguiu explicar esta minha dúvida, que é, de quem terá sido primeiro o dono e até mesmo se foi mesmo o casario saqueado e vandalizado no tempo das Invasões francesas. Até hoje também não vi escrito em nenhum documento antigo a referência de que a Quinta do Calvo pertenceu outrora a Morgados, se bem que o Santo António era por norma o padroeiro das capelas dos Morgados. Já quanto ter sido propriedade de um padre, sim. Há ainda pessoas entre nós que se recordam terem ouvido falar sempre num padre como dono. Em relação à destruição, vandalismo e saque da habitação pelas tropas das invasões francesas também nada existe escrito a confirmá-lo.
Dizem muitas pessoas de Santa Valha que a bonita imagem desse Santo António, padroeiro desse antigo povoado, hoje em ruínas totais, se encontra desde os primeiros anos do século XX na localidade próxima, Pardelinha, também anexa a Santa Valha, mais propriamente na Capela de Santo Antão.
Há uma versão contada em Pardelinha a justificar a ida para lá, que é a seguinte: ter sido um viajante a cavalo (cavaleiro) que passou pelas casas já desabitadas do Calvo, que viu a imagem do Santo sozinho na pequena capela e o levou consigo, deixando-o em Pardelinha à primeira pessoa que encontrou e, que essa tal pessoa o colocou na Capela junto ao Santo Antão. Mas há também uma ou outra pessoa de Santa Valha desse tempo que defende haver outra versão bem diferente e que é a seguinte: que a imagem do Santo foi roubada da Capela do Calvo e levada para Pardelinha por alguém dessa localidade.
Há também quem diga, mas não existe nada que o confirme por escrito, que a Santa padroeira primitiva, teria sido a Santa Cristina, nome que deu à serra contígua a poente, e que foi profanada, tendo só restado um Santo na capela, Santo António, Santo este, o verdadeiro padroeiro para as últimas gerações residentes, como me contou quem lá chegou a viver, pois não conheceram outro.
Se porventura foi inicialmente Santa Cristina a padroeira, então tudo leva a querer que a profanação se tivesse dado no tempo das tais invasões francesas do século XVII ou XVIII, quando os invasores incendiaram e destruíram este antigo casario, que dizem ter sido uma antiga quinta propriedade de Morgados (?) no tempo do regime monárquico ou do tal padre, vindo mais tarde os novos proprietários a comprar em parcelas e a restaurar na totalidade a parte urbana. O limite da enorme parte rústica desse casario ou quinta chegava antigamente até cerca quinhentos metros a jusante da ponte nova do Calvo.
Contou-me António dos Santos, também conhecido em Santa Valha pelo “Cem” (por ter uma estatura/porte superior à maioria) e que viveu com seus pais (Alberto “Moleiro” e irmãos no Calvo, até final da década de 1950, o seguinte: – eu pertencia a uma família pobre de moleiros e por isso, como outras, viviam no próprio moinho. Nessa época, funcionavam (moíam) seis moinhos no Calvo e, independentemente de haver algumas famílias mais abastadas, porque possuíam as melhores habitações, gado e propriedades agrícolas, era uma pobreza, não só no aspecto alimentar de alguns, mas também na maneira como se vivia, não falando é claro, no aspecto cultural. Havia falta de cultura e as excepções eram poucas. Não era por acaso que a uma família a alcunhavam de “Os Caboucos do Calvo”, tendo o isolamento contribuído em muito para isso.
Acrescentou ainda, que, na altura em que permaneceu no Calvo, habitavam cerca de uma dúzia de famílias, incluindo as que viviam nos moinhos, que correspondia a perto de setenta pessoas, más já depois de ter saído de lá – início da década de 1960 -, lhe contaram que passados poucos anos, só existiam cinco ou seis moradores, incluindo o Senhor Mário “Cego”, um bom homem, amigo de toda a gente, que todos respeitavam.
No início da década de 1950, houve um incêndio de grandes proporções que consumiu quase metade das habitações. Nessa tragédia faleceu uma criança do sexo feminino, que a essa hora, estava a dormir numa casa junto a um cabanal com palha. Era irmã de Artur “Moleiro”.
As poucas pessoas ainda vivas que existem (que se podem contar pelos dedos de uma mão) e que lá habitaram na sua (tenra) juventude, hoje já na fase da terceira idade, dizem sentir ainda alguns momentos de nostalgia desse passado, mas somente no tocante ao convívio com os familiares e vizinhos já falecidos. Já do restante, o não sentem, mas jamais esquecerão esse passado.
No levantamento do espaço urbano que fiz junto da Repartição de Finanças de Valpaços, verifica-se a existência de oito artigos matriciais urbanos da freguesia de Santa Valha (Calvo), que assim identifico:
Artigos : Nr. 206 = Proprietário: Marcelo Assunção Alberto; nr. 207: José Manuel Cunha; nr. 208-João Francisco Rodrigues; nr. 209: Francisco Luís Alberto (também conhecido pelo Sr. Francisco Ferruge(m), José Joaquim Lopes e Josefa Carlota Lopes; Nr.210: Zeferina da Assunção, Aurora do Nascimento Teixeira e Maria Antónia Teixeira; nr.211: Ana Maria Teixeira; nr.212: José Rodrigues Nogueira; nr.213: Carlos Ribeiro (penso tratar-se de um moinho?); nr.214: Palmira da Graça Costa (penso que se trate da habitação, dependências e moinho junto à ponte e estrada). Nas confrontações dos imóveis, há registo de dois nomes: João António Fernandes e Zeferino Assunção Alberto, que não constam como proprietários. Uma moradora, que ainda está entre nós, disse-me, que deve ter havido lapso dos louvados no registo matricial das propriedades de 1951, em virtude de João António Fernandes, nunca ter possuído quaisquer bens, mas sim João Francisco Fernandes, conhecido também por João “Morte”.
Alguns proprietários dos artigos matriciais registados na Repartição de Finanças podem já não ser pessoas que nós conhecemos, mas sim, pais, avós, ou parentes mais afastados, de quem ouvimos falar. Também poderá acontecer, que alguns destes imóveis tenham sido vendidos ou transferidos para outras pessoas, e que não tenham, até à presente data, procedido ao registo de transferência dos artigos matriciais na Repartição de Finanças e Conservatória Predial.
Apelidos e Alcunhas de Famílias que residiram no Calvo:
Os Marcelos; Os Albertos; Os Lopes; Os Fernandes; Os Nogueiras; Os Teixeiras; Os Rafaeis; Os Marelos; Os Sóqueiros; Os Mortes; Os Ferrugens, Os Caboucos e Os Alberto “Moleiro”, que habitavam na residência do moinho de Carlos Ribeiro, e ainda Vasco Proença familiar dos Videiras que veio a comprar alguns bens, mas que nunca lá residiu e que vendeu posteriormente esses bens, conforme me contaram. Também Jaime Nogueira (penso ser familiar dos “Marelos”, marido de Palmira Costa “Moleira” lá habitou, vindo posteriormente a comprar o moinho a jusante, junto à ponte do rio calvo.
Durante todo o tempo da Guerra do Ultramar – ex-Colónias Africanas – de 1961 a 1975, só houve um soldado de toda a nossa freguesia que morreu em combate nessa guerra, mais propriamente em Angola, este soldado foi o primeiro sargento António Alberto Teixeira. Nasceu no “Calvo” em 15-10-1928 e tombou em combate em 30-06-1972. Encontra-se sepultado em Luanda no cemitério de Santana (Catete). – Mais detalhes sobre este assunto no espaço ou sub – link destas memórias “ Outros” -.
Ouve também um soldado que participou na primeira guerra mundial de 1915-1919, mais propriamente em batalhas de terras de França, este soldado casou e residiu no Calvo e chamou-se Francisco Luís Alberto, Francisco Ferruge(m) como respeitosamente o conheciam; era natural de Fiães. Foi colega nessas batalhas da grande guerra do nosso conterrâneo de Santa Valha, Antero Augusto Cagigal, do bairro do Sobreiró, entre outros. Mais tarde esse senhor Francisco Luís Alberto foi residir para Santa Valha, bairro do Sobreiró.
Encravado no sopé entre morros, e banhado pelo ribeiro que lhe dá o mesmo nome, o Calvo, pertence à freguesia de Santa Valha e os Santavalhenses, têm orgulho no seu passado. A história e a cultura de um povo, são tão ricas, quanto maior for esse passado; Esse passado, e os costumes dessas gentes, “de luta incessante de sol-a-sol, inúmeros sacrifícios e dificuldades da vida dessa época”, merece ser recordado, apesar de restar cada vez menos pessoas para o contar essas memórias, mas como diz o povo, não há memória sem futuro e futuro sem memória.
Por último resta-me dizer que esse bonito e calmo sítio abandonado deste interior profundo é certamente boa fonte de inspiração para escritores e poetas. Também, que se consta, que irá passar por este sítio, um dos troços turísticos da futura ecovia do Rabaçal. Quiçá, com isso, vir de algum modo a contribuir para o renascer de uma nova vida e assim, vir a recuperar a dignidade de outros tempos.
Obs: A maior parte destes dados foram colhidos junto de familiares/parentes, alguns já bastante afastados e de outras pessoas mais idosas de Santa Valha.
(Santa Valha, Amílcar Rôlo – Histórias e memórias colhidas entre os anos de 2008 e 2018).
Dos contra-fortes da Montanha
Encravada no sopé dos morros, que delimitam a fronteira do isolamento, o Calvo tem o mesmo nome do ribeiro que rega os campos onde abundam hoje pastos semi-abandonados.
Outrora terra de moleiros que ao longo do curso da água iam construindo as suas azenhas e moendo dia e noite as dificuldades da vida.
O Calvo nunca foi uma aldeia muito próspera mas era e continua a ser um aprazível e muito soalheiro local.
Hoje da pacata e calma aldeia ou quintarola pouco mais resta que grandes amontoados de pedra que já serviram de abrigo, de alegria e de orgulho a quem os construiu: hoje apenas os coelhos e alguns répteis povoam a zona, escondendo-se ao menor ruído.
O Calvo é um mitigo povoado que vai desaparecendo com o passar dos tempos até se apagar por completo das nossas memórias.
Recorde-se que o calvo serviu para efectuar a Romanização dos povos castrejos que se encontravam guarnecidos no cimo de alguns morros, servindo o rio como estrada de orientação, pois só assim e neste contexto se compreendem a constituição de aldeamentos como Calvo, Cachão, Agordela, sendo esta última uma colónia administrativa ou ponto de troca de produtos entre Romanos e as populações castrejas.
O Calvo encontra-se também a delimitar uma zona natural que o homem ao longo dos tempos respeitou sem se aperceber, a sul desta pequena aldeia a terra quente, a norte a terra fria, existindo aí (Calvo) um micro-clima bastante especial.
A terra quente povoada mais intensamente a partir da Romanização com a introdução da cultura da vinha e da oliveira, as principais fontes de riqueza da região.
A terra fria povoada desde os remotos aqui se encontram grande parte dos castros, pois nesta região, a estação seca não é tão intensa e encontravam com mais abundância pastagens para a agro-pecuária (pastorícia) dos povos primitivos.
A terra quente possui desde a romanização produtos mais facilmente comerciais, daí a existência de moeda e de um enriquecimento mais fácil por parte dos proprietários rurais que se traduz nas casas solarengas que se encontram na parte sul ou terra quente.
Com a introdução da batata e da criação de gado, nomeadamente o leiteiro e a exploração de alguns minerais e a comercialização mais intensa da castanha, a terra fria e as suas humildes aldeias começaram a ter melhores condições de vida.
Dos contra Fortes da Montanha aparecerá sempre a despertar e a enriquecer a monografia que é de todos nós; não para que os nossos filhos tenham orgulho da sua terra, mas para que os nossos filhos não tenham que fugir dela; para que continuem também eles a pisar os nossos caminhos, a labutar para que os seus filhos continuem também eles aqui.
Será que os filhos do Calvo ou do Cachão já não se orgulham a ter nascido lá?.
Não vos peço para visitar o Calvo ou o Cachão, porque abrir a boca e dizer que interessante, que beleza natural é o que ultimamente se tem feito e como tal, é preferível não conhecer; que participar no pecado de nada fazer.
Artigo de Henrique Rodrigues – ( Jornal “ Negócios de Valpaços “ Abril/1995 )
