Coisas e Gentes da Nossa Terra
ASSUNTOS RELIGIOSOS
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Santa Eulália (de Mérida) no altar-mor.
Santa Eulália, Padroeira da Paróquia de Stª. Valha |
Desde sempre se ouviu na aldeia várias versões sobre a origem da imagem de Santa Eulália (de Mérida), Orago ou Padroeira de Santa Valha, que está no Altar-mor da igreja matriz e que são as seguintes:
*Terá sido adquirida no tempo do padre Nuno Alvares, natural de Vila de Azambuja, Abade Licenciado do Padroado Real da Paróquia e Abadia de Santa Valha, que mandou edificar a igreja à sua custa nos anos de 1655 e 1656.
*Terá sido trazida por pregadores do Evangelho de Cristo, antes da construção da actual igreja matriz.
*Terá vindo já como nossa Padroeira ou Patrona de uma outra igreja que existiu até 1654 – antes da actual -, a primeira igreja de Santa Valha, de arquitectura pobre, localizada a sul da aldeia, no conhecido monte de Santa Olaia (Eulália), contíguo do vizinho Crasto/Castro, construção que poderá remontar aos séculos XII ou XIII da Baixa Idade Média, ou seja: muito antes da Idade Média Medieval, cujos únicos vestígios que existem são, o de um antigo cemitério público cristão, local onde se encontra ainda uma cruz ou cruzeiro, um sarcófago e inúmeros fragmentos de tijolo ou telha artesanais da época com bastante espessura. Dada a antiguidade da imagem desta Santa e da longínqua história da nossa aldeia em particular, nomeadamente o seu primeiro nome “Santaala” (como nos contam os documentos ou manuscritos das Inquirições de 1258), seguido mais tarde de “Santa Valha” a partir do início do século XVI (1515), é esta a versão que consideramos mais credível de todas. De acordo com os registos antigos que existem, ao longo dos séculos, a Padroeira foi conhecida e chamada na nossa aldeia da seguinte forma: Santaala, Santa Ovaya/Ovalha, Santa Olaia e por último, Santa Eulália. A evolução fonética do nome é algo contraditório, Santa Eulália: Sant`Olaia> Santabaia>Sant`alha>Santala>Santaala>”Santa Valha”. A imagem de Santa Eulália poderá ser tão antiga, como a nossa aldeia primitiva. Chegou mesmo no início o seu nome a confundir-se com o nome da própria aldeia e freguesia. Se pouco ou quase nada se sabe do porquê desta Santa ter sido adoptada como Padroeira, muito menos do motivo do nome da aldeia, cujo seu nome e forma como se chamou foi evoluindo ao longo dos séculos. (Amílcar Rôlo) |
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História da origem da Imagem do nosso Orago ou Padroeira “Santa Eulália” e seu nome.
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Igreja Matriz:
A igreja matriz de Santa Valha situa-se na praça, sítio mais nobre e emblemático da aldeia. Trata-se de um património edificado que data de 1656 (Século XVII). Templo hoje classificado de interesse público. A padroeira da paróquia é Santa Eulália (de Mérida/Espanha), santa cristã do início do século IV, virgem e mártir, torturada de diversas formas e queimada até à morte quando tinha 13/14 anos. É festejada pela igreja a 10 de Dezembro, dia de seu falecimento.
Foi edificada nos anos de 1655 e 1656 a custo do (Licenciado) Padre Abade do Padroado-Real da Abadia de Santa Valha, Nuno Álvares, natural da Vila de Azambuja (Lisboa), primeiro padre abade desta igreja matriz. Foi Abade da paróquia de Santa Valha de 1619 a 1656, data da construção da sua sepultura também por si mandada edificar.
De acordo com registos paroquiais a inauguração oficial deu-se no início de 1657, apesar de no ano anterior já se ter lá realizado um baptizado, mais propriamente a 12 de Novembro de 1656. O desmantelamento da velhinha igreja situada no monte de Santa Olaia terá terminado em Agosto de 1654. Durante as obras de edificação da nova igreja que, de acordo com os registos, terão durado dois anos e dois meses, os actos religiosos foram realizados na capela de São Miguel. Provavelmente a capela de Stª. Maria Madalena também terá servido uma ou outra vez para esse fim.
Não obstante haver registos escritos de outras obras mais antigas, as últimas obras de melhoramento, conservação e restauro mais importantes de que a gente da aldeia se recorda, foram as seguintes: ano de 1962 ou 1963: substituição da telha antiga de cobertura ainda em caleira fabricada pelo sistema artesanal, por nova telha moderna denominada por “marselha”; obra no tempo do pároco José Ribeirinha Machado, onde todas as crianças da aldeia tinham de oferecer no mínimo uma telha nova. As restantes obras aconteceram nos anos de 1980/1981; 1984; 1992/93 e 2006, menos o calcetamento do adro a cargo da Junta que foi por volta de 2007/8. Em 1992 foi retirado o soalho, ficando a pedra à vista. A construção dos sanitários no adro da igreja data do início da década de 2000. Entre Maio e Julho de 2017 foram feitas as seguintes obras de melhoramento: colocada telha nova e outras reparações na cobertura, limpeza da pedra exterior, pintura geral, alargamento do portão lateral da retaguarda, drenagem exterior de humidades e alguma requalificação do espaço do adro, obras a cargo e custo da Comissão Fabriqueira com algum apoio do Município.
Todas as obras e restauros feitos desde 1980/81 a 2017, incluindo outros de menor significado desde 2006 a 30 de Setembro de 2012, foram todos acompanhados pelo pároco da nossa paróquia Alberto Gonçalves da Eira. De referir e realçar aqui a preciosa colaboração nesta última de 2017 do membro da Comissão Fabriqueira, Eduardo Quintela.
No segundo semestre de 2018 iniciaram-se as obras do alargamento e alinhamento frontal da escada de acesso com a entrada principal da igreja e da requalificação de todo o adro envolvente através de um projecto da responsabilidade do Município com a aprovação superior e antecipada do IPAR. Foi a Comissão Fabriqueira da Igreja presidida pelo padre da nossa paróquia Alberto Gonçalves da Eira e da Junta de Freguesia por Carlos Vieira que solicitou à Camara essa importante intervenção. A conclusão desses trabalhos está prevista para o primeiro semestre de 2019. Os dois cruzeiros que se encontravam encostados às paredes laterais da igreja foram transferidos para junto das paredes laterais do adro. As casas de banho também sofreram melhoramentos, particularmente a nível de revestimento exterior e da cobertura, mas, no entender de algumas pessoas, onde eu também me incluo, consideramos que essa moderna arquitectura não é compatível com o restante património classificado com vários séculos de história e até alguma existe, se esse trabalho em particular, entrou no projecto de requalificação aprovado pelo IPAR por estar classificado como património de interesse público, ou se foi mais tarde acrescido sem autorização superior. Deu-se ainda a ampliação da entrada de acesso lateral ao adro e a eletrificação de todo o espaço do adro e escadaria de acesso. Todos esses trabalhados adjudicados pela Autarquia ultrapassaram os 35.000 euros.
Ouvi dizer, que por volta do início do século XX (1900/1920?), a capelinha do Senhor do “Santo Cristo Ecce Homo”, mandada edificar em 1722 (66 anos depois da igreja) por Jerónimo de Morais Castro Sottomayor e sua esposa Catarina de Morais Castro por devoção desse casal, conforme refere a inscrição cavada no pilar de pedra do lado direito, cujo brasão d`armas pessoal está no alçado esquerdo a identificar esse benemérito, sofreu algumas obras de conservação ou melhoramento (?), e que o pedreiro desses trabalhos foi Joaquim dos Reis Moreiras, natural de Chaves, especialista na arte de trabalhar a pedra (quem também construiu o actual cemitério em 1903 e algumas sepulturas), vindo a casar e a residir em Santa Valha, mais propriamente no bairro dos Ciprestes. Ouvi todavia dizer que antigamente essa capela era conhecida por essa família nobre por “Capela do Cruxifixo. No interior da capela encontra-se a sepultura desse tal Morgado, que fica situada do lado do Evangelho. Recorde-se que Jerónimo Morais de Castro Sottomayor foi também um morgado do Morgadio dos Aciprestes.
Nota: “Ecce Homo” são as palavras que Pôncio Pilatos teria dito, em latim, ao apresentar Jesus Cristo aos judeus de acordo com o evangelho. Em português, a frase significa “Eis o Homem” (rei ou senhor dos homens).
“Descrição da Pedra d`Armas ou Brasão: Material: granito – Descrição: esquartelado: no primeiro e segundo as armas da família Morais: (de vermelho) com uma torre (de prata), aberta, iluminada e lavrada (de negro) coberta (de ouro) e rematada por uma bandeira (de prata), aguardo (de azul), o segundo (de prata) com uma amoreira arrancada (de verde); no terceiro as armas da família Castro (de prata), com seis arruelas (de azul) postas 2,2 e 2, no quarto as armas da família Sottomayor: (de prata), com três faixas xadrezadas (de vermelho e ouro), de três tiras. Timbre: um leão (de prata). Elmo de perfil para a dextra. – Datação: século XVIII. – Tipo de Escudo: em ponta. Autor: Roger Teixeira Lopes – Valpaços Património Artístico – (João Azevedo Editor – Terra Transmontana 1997).“
Em 15 de Fevereiro de 1941, num dia de grande tempestade/ciclone, onde todo o país foi varrido de forma muito violenta por uma depressão, uma das duas pirâmides de pedra escavada que se encontra no telhado (retaguarda exterior esquerdo), caiu e partiu-se. Essa pirâmide do lado esquerdo esteve várias décadas partida no chão do exterior e encostada à parede da igreja/capela. Só em Junho de 2017, aproveitando obras na cobertura da igreja é que foi mandado fazer nova pirâmide, para reparar o desleixo lamentável que durou quase setenta e seis anos. A bola-oval de pedra que existiu no topo dessa antiga pirâmide encontrava-se a embelezar o telhado da capela de Nª. Senhora de Fátima junto ao cemitério desde a sua construção; essa bola oval foi retirada da capela para regressar à origem.
“O Padre João Vaz de Amorim na visita à paróquia de Santa Valha escreveu em 1939, entre outros assuntos, o seguinte no seu livro “Por Montes e Vales…-Terras de Monforte e Terras de Montenegro”: como esta capela no interior de uma igreja paroquial, só sabemos de outra, que é em Oura do Concelho de Chaves, pertença da ilustre família Azeredo Antas. Esta também se encontra do lado do evangelho e também tem o brasão de armas da mesma forma.”
A primeira Igreja de Stª. Valha – nesse tempo “SantaAla” – existiu antigamente a sul da aldeia, no sítio de Santa Olaia como o povo lhe chamava e ainda hoje lhe chama. Reza a história que o desmantelamento terá terminado em Agosto do ano de 1654, uns meses antes do início da construção da actual igreja matriz. Dizem que era de dimensão bastante mais pequena e que estava localizada no fundo do monte do Crasto numa propriedade agrícola hoje de vinha e olival de Baltazar de Castro Domingues, a poente e junto ao caminho que vai dar à Qtª. da Teixogueira e do muito conhecido denominado “Casal do Barrosão”, sítio onde existiu o primeiro cemitério público cristão da nossa aldeia, local esse onde ainda hoje existem alguns vestígios de sepulturas e de outras de culto religioso dessa remota época. O primeiro Abade e titular da paróquia e dessa igreja que há registo foi Aires Gonçalves, tempo: 26-06-1515.
Ouvi também contar, que os bens dessa primitiva igreja, terão sido transferidos para a actual igreja em construção e que uma mulher, de alcunha ou apelido “Gatinha ou Ribeirinha”, por promessa, transportou sozinha e numa giga à cabeça toda a telha da cobertura. Tudo indica que a imagem de Santa Eulália “de Mérida,” padroeira da nossa paróquia, que se encontra no Altar-mor da Igreja, e o sino “menor” que está no campanário, único nas redondezas nessa época, terão vindo nessa data dessa tal antiga igreja de Santa Olaia.
A pequena sineta instalada nas traseiras que transmite o som das horas dadas pela máquina do relógio foi transferida do campanário da Capela de Stª. Maria Madalena, quando foi comprado o segundo e actual relógio com comando à distância para funcionamento de horas e toques religiosos.
A imagem da padroeira Santa Eulália está a necessitar de restauro atendendo à sua longínqua e indefinida antiguidade e provavelmente utilização menos própria noutros tempos em andores de procissões de festas. Sabe-se que a imagem nunca saiu da igreja para qualquer fim desde a chegada do pároco Padre Alberto em Setembro de 1977. De igual modo estão também a necessitar de restauro, o Altar-mor e todo o painel da abóboda em madeira do tecto, onde a bonita pintura a óleo da imagem da padroeira Santa Eulália é referência principal e ainda os dois painéis em madeira laterais aos altares dedicados ao Corpo-de-Deus (do lado do Evangelho) e à Nª. Srª. do Rosário (do lado da Epístola), onde também a degradação da madeira e das pinturas a óleo com figuras e referências religiosas está bem á vista.
Que se tenha conhecimento, a primeira festa em honra da padroeira Santa Eulália aconteceu em 10 de Dezembro de 1994, dia de sua homenagem. Foi uma pequena festa religiosa com missa cantada, sermão e descarga de fogo-de-artifício. Quanto à bandeira estandarte em sua honra, foi adquirida em finais de Março de 2003. (Nota: ver mais em artigo/texto “Festa/s de Santa Valha e Outras”.)
O interior e o adro da actual igreja servir ainda antigamente de cemitério público até à construção do novo e actual datado de 1903. O governo presidido por Costa Cabral veio proibir que se realizassem enterros dos mortos dentro das igrejas e a revolta de 1846 de “Maria da Fonte, ou Revolução do Minho” conta essa e outras leis criadas por esse governo de então não foi a avante.
Em todo o chão lajeado interior são bem visíveis as pedras das sepulturas dessa época. Por volta do início da década de 1980, aquando de abertura de uma vala para obras de melhoramento na igreja e no adro, mais propriamente do lado direito da parte traseira da igreja e capela do Altar do Santo Cristo (junto ao caminho), foi possível ver ainda várias ossadas de corpos aí enterrados. Ainda me recordo bem, de na traseira exterior da igreja, mesmo por de detrás da sacristia, existir até início da década de 80, alguns vestígios de uma sepultura/jazigo em granito e de uma bonita cruz toda ela trabalhada em ferro, que diziam ter pertencido à família Videira (?), ou reivindicada por essa família (?).
Em 1984, uma equipa constituída por oito pessoas do “Instituto José Figueiredo” de Lisboa, especialistas em conservação e restauro de Museus e de Igrejas, certamente enviada pela Direcção-Geral do Património Cultural ou outro organismo ligado ao património cultural, esteve vários dias a trabalhar na limpeza e conservação de todos os altares, particularmente na parte da talha dourada dos dois belos e imponentes altares-mor.
Foi pena que os dois quadros pintados a óleo sobre tábua que se encontram por cima dos altares colaterais de Nª. Senhora do Rosário, do lado da epístola e do e Sagrado Coração de Jesus, do lado do evangelho, que representam as imagens de São João Evangelista e Nª. Senhora do Desterro, respectivamente, talvez datados do século XVIII, não tivessem também sido restaurados (mas no local!……).
Em 1992, aproveitando o momento das obras de restauração, limpeza e conservação de toda a igreja, incluído portas e instalação eléctrica, o altar em madeira da imagem de Nossa Senhora de Fátima foi substituído pela mísula/consola actual, em virtude de já se encontrar bastante danificado e necessitar de trabalhos de restauro. Esse antigo e bonito altar foi mandado fazer e oferecido pelo marido de Claudina Cardoso, também conhecida por Claudina Ribeiro do bairro do Sobreiró.
Passado algum tempo, esse mesmo altar, foi todo restaurado e colocado na Capela de Nossa Srª. de Fátima que se encontra no adro do cemitério, inaugurada em 13 de Maio de 1988.
Também em 1992 o coro foi restaurado por já estar bastante danificado. Nessa mesma fase de obras de melhoramento, conservação e restauro, foi alterado o acesso da praça à igreja junto ao portão principal de ferro. Ainda nas mesmas obras, foi retirado o soalho por já estar bastante danificado, ficando a pedra à vista, a maior parte dela a capear antigas sepulturas.
Esse facto era desconhecido de todo o povo de Stª. Valha, tendo em conta que só sabia da existência de um cemitério antigo no (exterior) adro. Foi ainda nessa data adquirido o “Ambão” onde se fazem as leituras e a homilia, que se encontra junto ao Altar do Sagrado Coração de Jesus, o cadeirão e bancos, assim como o bonito e valioso cruxifixo de madeira que está no Altar-mor, este, oferecido por um cidadão da terra.
Na mesma altura foram também restaurados os dois enormes castiçais e os dois Serafins que se encontram no Altar-mor que já nessa altura lhes faltava uma “asa” a cada e que ninguém sabe explicar o motivo. Mais alguns bens da sacristia foram restaurados, bem assim como adquiridos outros.
Existia até 1980 ou 1981, no chão, logo à entrada do portão, um patamar com uma vala e uma grade de ferro, seguindo-se de imediato um ou dois degraus em pedra e uma rampa em terra bastante desnivelada para o adro e porta principal. Essa grade de ferro servia para limpar a sujidade do calçado mas dificultava bastante a entrada das mulheres, nomeadamente as que calçavam sapatos com saltos mais finos.
O actual portão de ferro da entrada principal que dá acesso da praça ao adro e à igreja foi mandado colocar pela Comissão de Festas em honra de São Caetano presidida na altura por Manuel Guedes por volta de 1982 ou 1983. Custou esse mesmo portão a quantia 20 contos (100,00€), que foi o saldo positivo que restou dessa Comissão que acabara de concluir o mandato para que tinha sido eleita.
Nas obras de melhoramento, restauro e conservação feitas em 1980/1981, a mesa (balcão) em madeira do Altar-mor encostada ao Sacrário que tudo levava a querer ser ainda a primitiva, foi substituída pela actual, devido ao seu mau estado de conservação, assim como adquirida também uma pequena mesa de apoio do cálice, dos galheteiros da água e do vinho e de outros bens que custaram bastante dinheiro e ainda restaurados outros objectos que estão junto ao altar.
A parte frontal dessa antiga mesa passou, desde essa data, a servir de frontal do Altar-mor, por baixo do Sacrário. Para cobrir a antiga mesa do altar, existiam umas toalhas com pregadores, todas elas bordadas com materiais estampados de cor dourados. Essa Comissão de melhoramentos foi constituída por Osvaldo Fernandes Ribeiro, na altura presidente da Junta; Manuel Guedes; Filipe Dionísio do Nascimento e Avelino de Jesus Delgado Botelho, entre outros.
Também o altar-mor da capelinha do Santo Cristo (dos Milagres) já não se encontra hoje de acordo com o original ou primitivo; falta-lhe a mesa frontal de pedra construída de forma um pouco tosca e alguma madeira que o completava, assim como também fico com algumas dúvidas quanto às imagens actuais do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora das Graças, se serão, ou não, as primitivas, ou seja: se remontam, ou não, ao tempo da construção da igreja, dada a forma de arquitectura e moldes artísticos de construção das imagens desse tempo, bem diferentes da imagem da nossa Padroeira, Santa Eulália (de Mérida), que certamente será ainda muito mais antiga e ter já vindo da primeira igreja situada a sul da aldeia nos montes de Santa Olaia ou Eulália junto ao Castro/Crasto, onde também existiu um cemitério público cristão. Era numa prateleira de uma das paredes dessa capela que se encontravam até há poucos anos as imagens dos Santos que agora estão na sacristia.
Se repararem no oratório do altar do Sagrado Coração de Jesus dá para ver que existe uma calha na madeira em toda a sua volta, provavelmente da existência de uma vitrina, assim como foi já mexido o arco de madeira na base. Conta a história que esse altar acolheu outrora a imagem do santo São Sebastião. Depois de a imagem ter sido retirada do altar – há quase 100 anos – para dar lugar à imagem do Corpo-de-Deus, foi transferida para a capela do Santo Cristo ao lado e ultimamente para a sacristia.
No manuscrito de 1758 das Memórias Paroquiais do Padre Domingos Gonçalves, Padre e Abade de Santa Valha, consta o seguinte: (…) A Igreja tem quatro Altares, o mor e dois colaterais, um da parte da entrada, de Nossa Senhora do Rosário, e outro da parte do Meio-dia, à direita, do mártire São Sebastião e uma capela ao lado esquerdo, do Santo Cristo com uma escada para o corpo da igreja (…). Os altares do Sagrado Coração de Jesus e de Nsª. Srª. do Rosário já não se encontram como antigamente. Faltam já aos dois algumas peças de madeira trabalhada que o embelezavam bem melhor, mais parecidas com umas escadas.
A pequena imagem que se encontra ao lado do Sagrado Coração de Jesus é de São Braz, padroeiro das doenças da garganta e a que está perto do brasão de armas e das escadas do velho púlpito é a imagem do Menino Jesus. O púlpito da nossa igreja deixou de ser utilizado por padres pregadores desde meados ou final da década de 1970. Os padres convidados para esse fim normalmente tinham bastante sentido elevado de oratória teológica cristã, homilia conhecida por sermão, a maior parte das vezes um pouco longa mas interessante.
Contaram-me, que em meados da década de 50 do mesmo século, algumas pessoas da nossa aldeia diziam o seguinte: toda a pessoa que estivesse com os olhos dois ou três minutos bem firmes e fixos sobre a imagem do Sagrado Coração de Jesus conseguia ver o dedo da imagem a mexer e que era um milagre de Deus. Então várias pessoas da aldeia fizeram essa tentativa, algumas afirmando mesmo ter visto o dedo a mexer e querendo acreditar no tal milagre ou mesmo intervenção divina. Ilusão óptica, nada mais do que isso.
Voltando novamente à capelinha do Senhor do Santo Cristo. Nessa capelinha existem três imagens de Jesus Cristo. Uma, por cima do altar com Cristo cruxificado e duas bastante grandes no chão, esculturas de Ecce Homo e do Senhor dos Passos. Numa delas do chão, Jesus Cristo tem uma corda de sisal envolta à cintura com uma extremidade dependurada que antigamente era maior e, na(s) mão(s) já lhe falta alguns dedos e parte deles. Ouvi dizer que esses estúpidos, irrefletidos e lamentáveis estragos na imagem, foram praticados por algumas pessoas que antigamente se dedicavam a fazer feitiçaria e/ou bruxaria. Alguns desses maliciosos cortaram pedações dos dedos e da corda da imagem para esses fins. As colunas do Altar-mor dessa capela são de uma beleza encantadora. De realçar, para além de outras, as uvas e as parras que já identificam nesse tempo a essência e a excelência do vinho de Santa Valha.
Encontram-se imagens de outros Santos na sacristia da nossa igreja: Santo Estevão; São Sebastião; Nsª. Senhora da Conceição (imagem antiga) também conhecida por Imaculada Conceição. Imagens mais recentes: Santa Rita de Cácia adquirida e oferecida por um grupo de senhoras há poucos anos; Santo António; Nª. Srª. de Fátima; Imaculada Conceição de Maria a pisar a cobra que simbolizar o mal, imagem nova adquirida e oferecida por algumas pessoas na década de 80 do século XX para a Legião de Maria – Sagrado Coração de Maria; Santa Teresinha do Menino Jesus vestida com manto de cor castanho e ainda o São Cristóvão, padroeiro ou protetor dos motoristas e viajantes, que, da imagem antiga desse Santo, só já resta actualmente a parte do pescoço e da cabeça. As cerca de uma dúzia de imagens do que resta do presépio já com muitas décadas também ajudam a encher uma das prateleiras, bem assim como vários antigos cruxifixos pendurados na parede e uma também muito antiga caixa de madeira que guarda três frascos dos Santos Óleos.
Dizem algumas pessoas que ainda se recordam de ver um braço ou uma mão da imagem do São Cristóvão na sacristia, mas ninguém sabe explicar o motivo de só existir esse pequeno pedaço do corpo, pescoço e cabeça. O que teriam feito à restante parte? O que resta actualmente desse Santo encontrava-se até á algumas décadas atrás em cima de um suporte de pedra no interior da casa paroquial. Penso que já foi o senhor Padre Alberto que transferiu a imagem para a sacristia.
É de lamentar que algumas das imagens atrás referidas se encontrem um pouco danificadas, fruto da falta de atenção e até de algum desleixo dos responsáveis aquando da colocação das imagens nos andores para as procissões das festas.
A bonita e antiga imagem de Santo Estevão, que dizem conservar ainda a pintura original ou primitiva esteve exposta na Diocese de Vila Real no aniversário da comemoração dos cinquenta anos de existência.
Existe ainda na sacristia dois guarda-fatos em madeira comprados há poucos anos (quase a rebentar) com actuais e antigos importantes valiosos paramentos, duas bandeiras, assim: a bandeira antiga da paróquia e uma outra muito mais nova com a imagem de Stª. Eulália comprada em 2003 por 890,55 € através de um peditório (manda) na aldeia e ainda um pálio comprado por volta de meados da década de 90 em virtude do antigo já estar muito estragado. Existe também uma bonita vitrina em madeira de construção recente contendo vários pequenos objectos de arte-sacra – único material que resta do vasto espólio secular – utilizados antigamente na igreja ainda em bom estado de apresentação e conservação. Nas prateleiras das paredes: várias antigas bíblias, missais, duas tenazes de ferro para fazer hóstias, três Anjos, o antigo relógio de cornetas, vários cruxifixos, assim como outros pequenos objectos.
Aproveito a oportunidade para dar aqui os parabéns ao senhor padre Alberto Gonçalves da Eira e à sua Irmã Bárbara da Eira, sacristã da nossa paróquia desde meados da década de 1990 e de outras tarefas acrescidas, pelo excelente trabalho que têm feito para preservar todo este pequeno museu de arte sacra; dedicação com muito gosto e carinho por coisas que servem para a posteridade e que enriquecem ainda mais o nosso acervo da história cultural e patrimonial da nossa terra.
De igual modo, à antiga zeladora e membro da Comissão Fabriqueira das últimas décadas, Fernanda da Mota (Barrosão), falecida recentemente, pela generosidade e solidariedade, trabalho, empenho, responsabilidade e sobretudo seriedade, dedicados muitos anos a esta causa nobre. Disse-me uma pessoa ligada às causas da nossa igreja nestas últimas quatro décadas, ter sido a Dª. Fernanda das melhores, senão o melhor membro da Comissão Fabriqueira e dos bens patrimoniais religiosos da nossa aldeia, onde sempre acumulou o cargo de tesoureira nessa Comissão.
A Dª. Fernanda foi, sem dúvida alguma, uma construtora da nossa identidade e que defendeu os nossos valores culturais, patrimoniais, entre outros, assim como uma ponte entre as velhas e as novas gerações. Deixou-nos essa senhora um legado muito importante de boas memórias, onde muitas delas que lhe ouvi com muito gosto fazem parte dos textos que escrevi sobre os diversos temas da história, datas e memórias da nossa aldeia.
Não posso deixar de referir todavia outras pessoas importantes que passaram neste último século pela nossa igreja quer pela Comissão Fabriqueira – a quem compete gerir o espólio e/ou inventário paroquial e a parte financeira – quer como Zeladoras: Na Comissão Fabriqueira – Filipe Dionizio do Nascimento, entre outros. Zeladoras: Maria Bárbara ..(?), ouvi dizer que essa senhora transportava permanentemente uma cruz ao peito e um rosário na mão; Rosa Bernardina; Maria Cândida da Costa; Claudina Cardoso (Ribeiro); Arminda Polide da Mata e sua filha Olga; Emília Lopes; Ermesinda Teixeira; Aida Pereira da Mata, Cândida Rocha; Olga Lopes dos Reis e Elsa Cardoso. Mais recentemente: Bárbara da Eira que também acumula o serviço de sacristã; Josefa Tender e Arminda Maia. Registo aqui também em particular o casal Filipe Dionísio do Nascimento e Olga da Mata, pela enorme dedicação e contribuição nas suas horas vagas ao serviço, quer da igreja, quer também quando necessário na abadia paroquial, mostrando-se sempre disponíveis quando necessário.
Recordo-me perfeitamente de, para além de várias tarefas semanais bem definidas a seus cargos, como o arranjo dos altares e respectiva, tratar da roupa e limpeza, a de um outro afazer: o de diariamente acender o lampadário a azeite do Sagrado Coração de Jesus e até de ainda, por vezes, tocar o sino às Trindades, Via-Sacra e mês de Maria quando o sacristão não comparecia. Esse toque era feito através da velha corrente de ferro que ligava ao sino junto à porta principal. Ontem, tal como hoje, ser zeladora e pertencer à Comissão Fabriqueira é um acrescer de responsabilidade perante a igreja e a comunidade local que a compõe.
Na nossa igreja, existiu até finais da década de 60 ou meados de 70, pendurado no tecto e perto do altar do Sagrado Coração de Jesus, um enorme candeeiro/candelabro, a quem o povo dava o nome de “Lustre”. Esse candeeiro com cerca de um metro de largura e todo ele em cristal, servia para iluminar toda a igreja através de velas de cera, em dias de celebração nocturna. Para o levantar e baixar, tinha uma corda e uma roldana. Ninguém se recorda onde se encontra esse vistoso e valioso candelabro.
Contaram-me algumas pessoas mais idosas, entre elas duas ainda actuais zeladoras da igreja, que esse candeeiro/candelabro (lustre) caiu do tecto e ficou estragado, ainda que com fácil reparação, mas nunca mais foi visto desde o tempo dos padres: José Ribeirinha Machado da paróquia de Vilarandelo ou António de Jesus Branco abade da nossa paróquia. Como também sou curioso, deixo uma pergunta: Se foi esse o motivo, então onde se encontra ele danificado para uma possível reparação! Certamente não criou asas e voou (!?). Todavia perto do altar de Nossa Senhora do Rosário, existiu nessa época, pendurado no tecto, um lampadário que iluminava através de vela de cera ou azeite(?) e que para o levantar ou baixar era feito por intermédio de um fio com uma roldana.
O pároco Alberto Gonçalves da Eira, que substituiu o padre António de jesus Branco oriundo do concelho de Montalegre, confirmou-me pessoalmente, de que quando chegou à nossa paróquia, (Agosto de 1977) nunca o viu na igreja nem nos aposentos da casa paroquial (abadia), nem nunca teve conhecimento da existência desse tal enorme e vistoso candeeiro “lustre”.
Acrescentaram também essas pessoas, que não só o candeeiro desapareceu nesse tempo, como também vários outros objectos do espólio da igreja e da casa paroquial, como, por exemplo, a imagem de São Vicente, vendida pelo padre José Ribeirinha não se sabe a quem, mas que o pai de Artur Feijão o viu nas mãos de um homem na praça juntamente com o padre, não tendo nesse momento desconfiado do acto. O mesmo aconteceu também nesses tempos idos, com um valioso quadro pintado a óleo que desapareceu da capela de São Miguel.
Também ninguém saber dizer o que foi feito às grades/gradeamento em madeira grossa torneadas e de cor escura (preto?) que dividiam a entrada principal e pia baptismal com o restante corpo principal da igreja, assim como também aos gradeamentos em madeira grossa torneada da mesma cor que dividiam o corpo da igreja destinado aos paroquianos com o corpo do Altar-mor, e a grade que dividia a capelinha do Santo Cristo. A maioria só se recorda que foram retirados no tempo dos mesmos padres, em meados ou finais da década de 1960. Onde parará também uma das quatro lanternas (em chapa e com cabo de suporte) muito antigas da nossa igreja que se utilizavam nos funerais. Ouvi dizer que alguém a viu, há alguns anos atrás, na igreja matriz de Vilarandelo, mas que passado algum tempo também lá deixou de a ver. Pergunto: Porque motivo também desapareceu de lá!?
De igual modo se sabe destino do bonito candeeiro que se encontrava pendurado no tecto em frente ao altar da imagem de Nsª. Srª. do Rosário, oferecido pelo senhor José Emílio, “Sarrá” como respeitosamente era conhecido. Era através de uma roldana e uma corrente que se baixava e levantada quando era necessário acendê-lo.
Em meados da década de 80 (1985 ou 86?) foi adquirido pela Comissão de Festas em honra de São Caetano o primeiro relógio e mostruário de ver as horas que está colocado na rosácea da fachada principal (respiro) ladeada por duas Pedras d`Armas ou Brasões entre a porta principal e o campanário. Essa máquina que hoje já não funciona transmitia o som do bater das horas através de uma corneta(s) ou altifalante(s) instalada no campanário. Custou a essa Comissão o valor de 52 ou 53 mil escudos (265 €). Os comissários eram, entre outros: Manuel Barrosão, José (Zé) Domingues, Jaime e Fernando Alves e Vicente Domingues. O actual órgão foi oferecido por Duarte Picamilho. Penso que também em meados da época dessa época de 80 foi instalado a aparelhagem sonora (interior) de marca Philips.
Em Outubro de 2015 e já com o regresso do actual pároco Alberto da Eira, que tinha deixado a nossa paróquia de 30 de Setembro de 2012 a 27 do mesmo mês de 2015 foram substituídos os antigos cabeçalhos dos sinos que eram de madeira por outros novos em ferro, por se encontrarem já muitos estragados, sobretudo a madeira que já estava podre.
Ouvi dizer a uma conterrânea nossa, Maria Raquel Barros Alves, que numa deslocação a Óbidos perto do castelo, visitou uma igreja com o Altar-mor rigorosamente igual ao da nossa igreja.
O primeiro padre desta igreja foi Nuno Álvares, natural da Vila de Azambuja, distrito de Lisboa, Abade do Padroado – Real da Abadia de St. Valha por mais de trinta e cinco anos. Foi ele que mandou construir a Igreja e a sua sepultura à sua custa como nos dizem os registos escritos dessa época, ou seja: sem pedir dinheiro ao povo. O seu túmulo encontra-se no interior da Igreja, ao lado ao Altar-mor. Nele encontra-se esculpido na pedra a sua identificação, a edificação da igreja à sua custa e o seu testamento após a morte.
Na parte triangular do túmulo diz: “Sª do LD Nuno Álvares natural da Vila da Azambuja do padroado real desta abadia que mandou fazer esta igreja à sua custa.” Na parte retangular diz:
“E deixou em seu testamento que, depois da morte de sua irmã Inês Monteiro, suas casas e cerca ficassem aos parochos vindouros desta abbadia com obrigação de duas missas em cada semana e dois ofícios em cada ano, para sempre, de seis clérigos como é costume, e deixou mais que os parochos dessem em cada ano aos frades de Chaves V almudes de vinho, pelas missas da fazenda da Cerca. Era de 1656”.
A data da construção da sua sepultura/túmulo também a seu custo, 1656, poderá não ter sido a data do seu falecimento, mas sim entre os anos de 1656 e 1662. Reza a história que o último registo por si assinado data de Novembro de 1656 e que a partir desse ano quem assina os livros paroquiais quase em exclusivo é o coadjutor Gonçalo de Morais Castro, provavelmente até á chegada de Martin Velho Barreto.
Junto a esse mesmo túmulo encontra-se a sepultura em “campa rasa” do também Padre Abade da paróquia de Stª. Valha, Martim Velho Barreto, que sucedeu ao Abade Nuno Álvares entre 1662 e 1704 e mandou reconstruir de novo e na totalidade a Capela de São Miguel no ano de 1697, com as esmolas dos devotos de São Caetano; a maior parte em passagem de peregrinação.
Na pedra que cobre a campa ou sepultura existe esculpida a inscrição do nome desse Abade, natural de Monção e de outras mais referências. Martin Velho Barreto, que ofereceu à nossa Igreja a Sagrada Custódia-Cálice ou Ostensório datada de 1690, Parâmetros e um Sino para o campanário. Em Abril de 1972, ou seja, na comemoração do aniversário dos cinquenta anos da Diocese de Vila Real, as nossas: Sagrada Custódia, Cálice de prata dourada do século VXIII e a imagem de Santo Estevão, tiveram a honra de estar expostos ao público na Diocese. Tendo em conta o valor patrimonial, beleza e importância religiosa a Sagrada Custódia e o Cálice, ambos em ouro, nunca estiveram expostos na igreja ao público, só presentes em dias especiais, como, por exemplo, na festa do dia do Corpo-de-Deus. Para a/os proteger, consta-se, que estão a ser guardados em vários sítios da aldeia.
Nota: Ver referência dessa inscrição esculpida na pedra, no espaço abaixo: “Capela de São Miguel”.
“Na página 63 do livro do Padre João Vaz de Amorim “ POR MONTES E VALES …,Terras de Monforte e Terras de Montenegro”, descrição de 11/V/1939, diz o seguinte: …. sobre o Padre/Abade Martin Velho Barreto: O nome deste Abade não figura exclusivamente na reedificação desta capela, para a qual ele concorreu, por certo, larga e generosamente. Ofereceu à igreja parâmetros, uma rica custódia ou ostensório e um sino para o campanário, cuja voz, brônzea e sonora, ainda hoje ecoa festivamente pela extensão deste vales e quebradas destas montanhas e outeiros……”
Ainda sobre o túmulo do Padre Nuno Álvares, contaram-me o seguinte: Que o pai do senhor Manuel António Alves, também conhecido por Manuel da Freixa, visa-avô materno do Dr. Agostinho Alves Nogueira, entre outros, que viveu até por volta de finais do século IX (1880?), contava, nessa época, que este túmulo tinha sido aberto há muitos anos, e que, quando o abriram por curiosidade, as pessoas ficaram estupefactas ao verem o corpo do padre totalmente intacto, visto já ter falecido há mais de um século, facto anormal que provocou enorme surpresa e admiração a quem assistiu e não só.
Acontece, porém, que alguém dos presentes mexeu no corpo e de imediato desfez-se parcialmente. Presumível ou certamente por terem colocado cal ao corpo quando foi depositado na sepultura! Perante o triste acontecimento e manifesto descontentamento popular, logo correu a notícia em toda a freguesia e vizinhas, de que o padre era Santo, e que se não tivessem mexido no corpo, daria porventura para colocar uma tampa de vidro por cima do túmulo, a notícia se espalharia com certeza, e iria, acima de tudo, dar muito rendimento à paróquia.
Na fachada principal da Igreja, por cima da padieira da porta, existe um pequeno painel composto por quatro azulejos que apresenta a imagem da virgem Maria e uma oração a ela dedicada, que é a seguinte: “À VIRGEM MARIA SENHORA NOSSA FOI CONCEDIDA SEM PECADO ORIGINAL”, o escudo nacional com as cinco quinas e a referência à data de 1940. Essa data, diz respeito ao aniversário comemorativo dos 300 anos da Restauração da Independência de Portugal do domínio de Espanha que ocorreu em 1640, e que assim refiro:
*A data do 1 de Dezembro está ligada à restauração da independência de Portugal que durante 60 anos (1580-1640) esteve debaixo do domínio espanhol, sob a dinastia filipina.
“Em Portugal, o dia de Nossa Senhora da Conceição (Imaculada Conceição) é comemorado a 8 de Dezembro, feriado nacional. A 25 de Março do ano de 1646, D. João IV fez uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a Restauração da Independência de Portugal em relação a Espanha. Dirigiu-se à igreja de Nossa Senhora da Conceição, que declarou P HYPERLINK “http://pt.wikipedia.org/wiki/Padroeira”adroeira e Rainha de Portugal. A partir dessa data, mais nenhum rei português usou coroa na cabeça, por se considerar que só a Virgem tinha esse direito. Nos quadros onde aparecem reis ou rainhas, a coroa está pousada ao lado, sobre uma mesa, num tamborete ou almofada de cetim – (Wikipédia)”.
Em todas as igrejas matrizes de Portugal foi colado nesse ano esta referência aniversaria (1940), mas infelizmente já muitas o não conservam, por negligência, ou desconhecimento de quem a retirou ou destruiu.*
A obra literária que nos deixou o Padre João Vaz de Amorim, natural do concelho de Chaves ( conterrâneo e amigo pessoal e de estudo do falecido padre Abade da nossa paróquia e Arcipreste de Monforte, Revº. João dos Santos Ferreira, para nós, Padre João), escrita entre 1939 e 1947, titulada “Por Montes e Vales ….. Terras de Monforte e Terras de Montenegro” refere, entre outros assuntos de Santa Valha, que o Padre Martin Velho Barreto ofereceu à nossa igreja parâmetros, uma rica Custódia ou Ostensório e um sino para o campanário.
De acordo com as actas antigas existentes nos arquivos da sede da Junta, as reuniões da Junta de Freguesia realizaram-se sucessivamente na sacristia da igreja matriz desde 1874 a 1910, ou seja, até ao fim da monarquia e implantação da república por golpe popular do partido do regime republicano, data onde as relações do Estado com a igreja começaram a azedar e a complicar-se. Posteriormente, até 1918, na sacristia da capela de São Miguel. De referir ainda, que até 1910, as relações (Igreja/Estado) eram de tal modo cordiais, que se chegava a confundir a Junta da Paróquia com a Junta de Freguesia. Em 1911 o Estado extinguiu todos os Padroados-reais com a Lei de separação da Igreja do Estado.
Brasões (2) da fachada principal da nossa igreja matriz:
MATERIAL: granito
DESCRIÇÃO: a identificação destas armas não é possível. Provavelmente são armas de fé e nesse caso pertencem a heráldica eclesiástica, que nada tem a ver com a heráldica familiar. Chapéu eclesiástico, com cordões e duas borlas envolvem o escudo. DATAÇÃO: 1655 – TIPO DE ESCUDO: francês.
METERIAL: granito
DESCRIÇÃO: armas reais: (de prata); cinco escudetes (de azul) postos em cruz, cada escudete carregado de cinco besantes em cruz (de prata); bordadura (de vermelho), carregada de sete torres (de ouro). DATAÇÃO: século XVII – TIPO DE ESCUDO: peninsular. Coroa real fechada.
Autor: Roger Teixeira Lopes – Valpaços Património Artístico – (João Azevedo Editor – Terra Transmontana 1997).
Em 15 de Junho de 2008 (domingo), a nossa igreja e a comunidade Santavalhense, teve o gosto e o privilégio de receber na missa dominical o prestigiado Grupo Coral do Banco Millenniumbcp (BCP) de Lisboa. Este Grupo Coral foi convidado pelo Senhor Felisberto da Mata para participar no dia anterior, nas Festividades Comemorativas em Honra de Camões, de Portugal e das Comunidades Lusíadas, por si organizadas no salão da Junta de Freguesia. Os cânticos da missa dominical foram de elevadíssima qualidade e muito bem interpretados por esse Grupo Coral de elevado prestígio nacional e mesmo internacional, composto por cerca de quarenta homens e mulheres funcionários desse Banco.
Recorde-se que a paróquia de “SantaAla, abreviado Santala” (agora Santa Valha) foi uma das seis que integraram, desde o início do concelho de Monforte de Rio Livre, instituído por foral de D. Afonso III, de 4 de Setembro de 1273. E aí se manteve como uma das mais importantes freguesias, especialmente em termos de rendimento paroquial e população, durante quase 600 anos.
O Decreto-lei Nº. 45/93, publicado no Diário da república nr.280 – Série 1-B, de 30 de Novembro de 1993, classificou igreja Matriz de Santa Valha, como Monumento Nacional: “Imóvel de Interesse Público” (IIP) – classificada no anexo II desse diploma -.
Obras de Conservação e Restauro do Interior da Igreja Matriz
Relativamente ao projecto é este o ponto de situação:
- No dia 4 de Junho foi celebrado contracto com a empresa Signinum sediada em Braga.
- No dia 28 de Junho foi enviado um cheque de adiantamento.
- No dia 5 de Julho a empresa Signinum enviou o relatório prévio do projecto de intervenção. O mesmo foi analisado e remetido no dia 10, via email e correio, à Direcção Regional de Cultura do Norte a fim de ser emitido um parecer favorável para que as obras se iniciem (por se tratar de um imóvel classificado de Interesse Público).
A Comissão fabriqueira agradece a todos que contribuíram com ajuda financeira ou trabalho (pessoas singulares, empresas, instituições). Esta ajuda permitirá iniciar a primeira fase de restauro. Nesta fase vão ser intervencionados os Retábulos colaterais do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora do Rosário, as esculturas associadas a estes dois retábulos e os respectivos painéis laterais, com o custo total de 42 050,00 euros.
Se pretender apoiar este projecto de Conservação e Restauro do património da Igreja Matriz, pode fazer o seu donativo para a conta bancária da Comissão Fabriqueira.
CGD – IBAN: PT50 0035 0840 00001666 830 93
Santa Valha, 26 de Julho de 2024 – Nota: Publicação da Comissão Fabriqueira da ”Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Santa Valha” na página do Facebook da Freguesia de Santa Valha.
É de louvar e saudar a iniciativa e até o arrojo desta -nova- Comissão Fabriqueira em levar avante todo este importantíssimo trabalho. Digo-vos, que não é fácil lidar com estes trabalhos do património religioso, quer a nível de intervenção para autorização das obras por parte do Instituto do Património Cultural e até da Diocese, tendo em conta que a nossa igreja está classificada como património de interesse público, quer mesmo relativamente à angariação de fundos para custear todo este caríssimo projecto. Da minha parte um bem-haja e uma saudação a todas as pessoas que deram corpo a este importantíssimo trabalho. Comentário de Amílcar Rolo
Informação das obras na Igreja de Santa Eulália.
Caros amigos,
Nesta jornada, que iniciamos em maio de 2023, fomos confrontados por diversos contratempos que retardaram o início do projeto de Conservação e Restauro do interior da Igreja Matriz.
Começámos com a criação do grupo os Amigos do Património (Maria Irene Paz, Maria José Gouveia, Marília Neves e Agostinho Nogueira) animados de boa vontade e disponibilidade.
O primeiro contratempo foi o estado de saúde do senhor padre Alberto da Eira, mesmo assim mostrou abertura para a ideia.
Aproveitando a visita pastoral do senhor Bispo da Diocese, António Augusto Azevedo, o grupo mostrou interesse de levar a cabo este projeto. Perante a autorização verbal do senhor Bispo e sabendo que só a Comissão Fabriqueira da Igreja podia ser a responsável pelas obras de Conservação e Restauro envidamos todos os esforços no sentido de ser criada uma nova comissão visto que a anterior se demitiu.
Constituída a nova comissão foi dado conhecimento ao senhor Bispo que a aceitou como consta do documento datado de 24 de novembro de 2023.
Em reunião, a nova comissão tomou posse e conhecimento das diligências já efetuadas pelo grupo Os Amigos do Património tendo delineado as estratégias a seguir.
Foram pedidos três orçamentos (Centro de Restauro da Diocese de Bragança-Miranda, Carvalho e Restauro e Signinum) e enviados no dia 19 de janeiro à Diocese de Vila Real a fim de serem analisados pela Comissão Diocesana de Arte Sacra que deu um parecer favorável em abril.
Em reunião de 21 de abril a Comissão Fabriqueira analisou as três propostas e escolheu, por unanimidade, o orçamento da Signinum por estar de acordo com os critérios constantes da lei. Posteriormente foi enviada a decisão à Diocese.
Em 4 de Junho, dois técnicos da empresa apresentaram numa sessão de esclarecimento, na Igreja Matriz, a todos os interessados o projeto de intervenção, tendo sido dada a oportunidade aos presentes de intervirem expondo as suas dúvidas.
No mesmo dia a Comissão Fabriqueira assinou o contrato. Posteriormente, no dia 27 de junho, foi enviado o cheque de adiantamento à empresa.
A empresa elaborou o Relatório Prévio, por se tratar de um imóvel classificado de Interesse Público, que nos foi enviado dia 5 de julho e remetido, no dia 10, à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) de Vila Real. No dia 16 de julho foi expedido, por esta entidade, para o Ministério da Cultura-Departamento de Conservação e Restauro. A Comissão Fabriqueira foi informada, no dia 9 do corrente mês, através de um ofício, do parecer favorável desta entidade pelo que as obras iniciar-se-ão dentro de duas a três semanas.
Enquanto decorria este processo a Comissão Fabriqueira fez a atualização dos dados na CGD, na Autoridade Tributária (Finanças), na Segurança Social e Conservatória dos Registos Civil, Predial e Comercial. Todo este processo foi moroso devido à necessidade de se obter novas senhas de acesso. Foi instalado o alarme na Igreja Matriz e substituídas as duas portas do anexo.
Em dezembro foi iniciada a elaboração do inventário do património móvel, constante da Igreja e Capelas, tendo já sido concluído o da Igreja Matriz. Relativamente ao inventário dos bens imóveis já constava nas Finanças e na Conservatória dos Registos Civil, Predial e Comercial de Valpaços.
A recolha de donativos (empresas, instituições, paroquianos, familiares e amigos) só se iniciou após a regularização da conta da CGD.
Para obter outras fontes de financiamento a Comissão Fabriqueira tem realizado algumas iniciativas: Venda de rifas, calendários, marcadores e imanes, passeio aos Lagos do Sabor e caminhada solidária. Até à presente data foram angariados cerca de 54 000 euros
Está prevista fazer a festa à nossa padroeira, Santa Eulália, em dezembro, em data a anunciar, e um novo passeio a pedido de alguns paroquianos.
A Comissão Fabriqueira agradece a todos os que contribuíram com donativos e trabalho.
Se pretender apoiar este projeto de Conservação e Restauro do património da Igreja Matriz, orçado em 139 303,01 com IVA incluído, pode fazer o seu donativo para a conta bancária da Comissão Fabriqueira.
CGD-IBAN: PT50 0035 0840 00001666 830 93
A Comissão Fabriqueira
Pároco José Carlos Reigada -Presidente
Nelson Fontoura- Secretário
Raul Picamilho- Tesoureiro
Domingos Pires-Vogal
Josefa Rodrigues-Vogal
Maria Irene Paz- Vogal
Marília Neves-Vogal
Santa Valha, 10 de setembro de 2024
Nota: Publicado na página do Facebook da Freguesia de Santa Valha.
Comentário de Amílcar Rôlo: Como anteriormente tinha referido, não foi/é e continua ser fácil caros Santavalhenses! Muito trabalho, preocupações e suor à mistura para lidar com tudo isto. Uma vez mais uma saudação especial a quem deu a cara por este importante projecto.
Caros Amigos.
Informamos que a empresa Signinum – Gestão de Património Cultural, Lda, (com domicilio em Braga) veio hoje (10 de Outubro) retirar os retábulos laterais, painéis e imagens para iniciar o trabalho de Conservação e Restauro.
Prevê-se que esta fase esteja concluída no espaço de cinco meses.
Temos um saldo positivo que nos permite avançar para a segunda fase (altar-mor ou teto do altar-mor) caso consigamos obter o apoio financeiro necessário.
Se pretender apoiar este projeto de conservação e restauro pode fazer o seu donativo para a conta bancária da Comissão Fabriqueira:
CGD- IBAN: PT 50 0035 0840 00001666 830 93
A Comissão Fabriqueira seguiu, desde o início, os trabalhos de remoção acima referidos.
Apresentam-se algumas fotos que documentam o momento.
P´la Comissão Fabriqueira
Marília Neves
Maria Irene Paz
Nota: Stª. Valha, 11-10-2024 – Publicação da Comissão Fabriqueira da “Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Santa Valha” na página do Facebook da”
Freguesia de Santa Valha”.
Capela de “ Santa Maria Madalena ”:
A Capela de Santa Maria Madalena está situada numa colina fragosa e é tão antiga quanto a história da nossa aldeia de Santa Valha. Maria Madalena é descrita no Novo Testamento como uma das seguidoras mais dedicadas de Jesus Cristo. É considerada Santa pelas diversas denominações cristãs e sua festa é celebrada no dia 22 de julho.
Quanto à edificação somente se sabe que 1555 é a data da pintura dos frescos (do pintor maneirista Tristão Correia) da Capela-mor e do altar do lado do Evangelho. Há quem defenda que poderá datar-se do princípio da fundação da nacionalidade portuguesa (1143), dada a sua humilde arquitectura e característica de construção primitiva e pré-românica, sem bem que nenhuma outra referência escrita foi encontrada anterior à data de 1555. As Inquirições de 1258 apenas referem a igreja matriz de SantaAla (Santa Valha).
No lado inferior dos frescos quinhentistas encontra-se escrito o seguinte: “ ESTA CAPELA SE REFORMOV COM SATISFAÇOENS (…) A MANDOV A (fons)º LUÍS CAPELAO FAZER (…) PINTO-VSE NA ERA DE 1555 E PIMTOVA TRINTÃO CORREA DE CHAVES ”.
É provável também que poderá ter sido ampliada para servir de igreja, antes da existência da actual Igreja Matriz (Ver Link- História do Site de Santa Valha), ou até que se poderá tratar de uma réplica da igreja primitiva localizada no monte de Santa Olaia e que terá sido mesmo a primeira construção ou edificação da nossa actual aldeia. Ouvi ainda contar, que há um ou outro historiador que defende, que as duas colunas de pedra que suportam a trave (de forma oval) de madeira de castanho que se encontra no interior entre o início do Altar-mor e os dois pequenos altares laterais, e ainda, as duas (pequenas) pedras quase soterradas que suportam as duas esquinas da parede exterior do fundo do mesmo Altar são de origem romana.
Para além da pintura dos frescos na Capela-mor que representam três passos na vida da padroeira e das figuras ao lado de São Mamede e Santo Amaro, existem também no interior da capela três imagens em madeira muito antigas: a da Capela-mor é de Santa Maria Madalena, a do Altar lateral esquerdo, é de Nossa Senhora de Belém (com menino ao colo) e a do altar do lado direito, é a Rainha Santa Isabel (com as suas rosas no regaço).
Tanto o interior, como o adro, tudo indica que chegaram a servir outrora de cemitério público até à construção do novo e actual cemitério de 1903, se bem que não existe registo de enterros nesse sítio em lugar algum. No interior da Capela junto à (pequena) porta lateral existem duas pedras de grande porte que tudo leva a querer tratar-se de duas sepulturas de duas pessoas importantes. Uma delas, será certamente do (tal) Capelão Aº Luís ……….(?), referido nas palavras escritas no painel (parede) dos frescos do Altar-Mor.
No adro que a circunda, situam-se cinco cruzeiros, onde se encontra representado o Calvário. Três cruzes no topo do adro, de tamanhos diferentes, a do meio, maior de todas, Jesus de Nazaré, à sua direita, o bom ladrão Dimas, à sua esquerda Gestas, o mau ladrão. A Via-sacra realiza-se anualmente na sexta-feira Santa e que percorre todos os restantes nove cruzeiros do interior da aldeia e termina aqui no Calvário. São 14 o total das cruzes ou cruzeiros da Via-sacra que memoriza e honra as 14 estações da paixão de Jesus Cristo.
Antigamente, mais propriamente até ao início da década de 1970, era normal, algumas pessoas nas primeiras horas da noite rezarem e fazerem a “Encomendação das Almas” com o intuito de vir também a contentar as almas penadas. Essa prece espiritual era feita por perto ou nos adros desta capela e da igreja. (ver Sub-Link. Memórias do Site de Santa Valha).
Contaram-me algumas pessoas mais idosas, que no tempo do Padre João dos Santos Ferreira, falecido em 1962, Padre João como vulgarmente era conhecido, quando havia uma seca prolongada ou período de muita chuva permanente ou outras intempéries, as pessoas da aldeia pediam ao pároco “Encomendações às Almas” (do purgatório).
De igual modo outras preces e/ou ladainhas de ajuda da proteção divina como, novenas ou ladainhas, para eliminar pragas de insectos ou outra bicharada qualquer nas culturas, tendo em conta que na época ainda não havia outros produtos a não ser o enxofre e o sulfato em pedra, bem assim como outras situações anormais que se passavam também na aldeia, sendo algumas dessas ladainhas feitas em vários sítios fora da aldeia, como a de falta de chuva. Quando havia as tais secas severas ou períodos de chuva muito prolongados, pediam ao Padre “João” Ferreira que fizesse uma procissão de fé com o pedido de ajuda da ajuda da graça de Deus e de Santa Maria Madalena para acabar com o flagelo. A imagem da Santa era transportada aos ombros da sua Capela para a Igreja Paroquial, onde só regressava quando o tempo voltasse ao normal.
Contaram-me ainda, se uma mulher tivesse dificuldade no nascimento (parto) de uma criança e para que ele corresse com normalidade, uma pessoa mais velha, normalmente uma mulher, ia à Capela de Santa Maria Madalena virar uma telha do telhado. Quando a criança nascesse, voltava a colocar a telha da mesma forma.
Era tudo isso, actos de fé, de generosidade e de tributo.
Em Setembro de 1984, uma equipa de oito pessoas vinda de Lisboa, do Instituto José Figueiredo, especialistas em conservação e restauro de Museus e de Igrejas, pôs à vista os dois painéis da pintura dos frescos existentes na Capela-mor e Altar, datadas de 1555, que estavam totalmente cobertas por pintura (tinta) de cal e por detrás de um muito antigo altar de madeira, provavelmente o primitivo. Essa equipa de especialistas encontrava-se na altura a fazer uma limpeza de conservação dos altares da nossa igreja matriz.
Estas pinturas “murais” eram desconhecidas de todos nós. Foram três jovens que residiam junto à Capela, as irmãs: Maria José (Zé) e João Barrosão, e outra amiga, Julieta Vieira (Leta) que as descobriram pouco tempo antes, num dia de limpeza e arranjo de um dos Altares que antecedem o Altar-mor.
Quanto ao Altar da Capela-mor de madeira, anteriormente referido, disseram-me, que foi nessa data arrancado, por já se encontrar muito danificado, mas também e sobretudo, para dar lugar às pinturas recentemente descobertas. Disseram-me ainda, que toda essa estrutura foi colocada no adro e que uma pessoa casada na terra, passado muito pouco tempo, juntou todas as tábuas que havia e a levou-as para Espanha, seu país de naturalidade e residência.
Contaram-me algumas pessoas, que ouviram dizer, que o sino primitivo da capela foi roubado há muitas décadas atrás e que a capela esteve sem sino até por volta da década de 1990. Nessa data foi comprada uma pequena sineta que mais tarde veio a ser transferida para o campanário da Igreja Matriz para ajudar o (segundo) relógio a anunciar as horas ao povo. O sino que hoje existe no velho campanário da capela foi adquirido em Braga no ano de 2003 por por Sezinando Vaz por 1.200€, coadjuvado por Alberto Silva, que se prontificaram a custear toda a despesa, incluindo as várias deslocações que fizeram a Braga, mas a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia vieram mais tarde a subsidiar com 1.000 € e 200 €, respectivamente.
Obras de melhoramento, conservação e restauro de que há memória:
1982 e 1983: substituição da telha, pintura e alteração do muro junto ao caminho e da entrada no adro, tornando o espaço do adro um pouco mais pequeno, assim como o novo acesso um pouco mais acima.
Por volta de 2006 foi substituída a porta antiga por uma nova, toda ela construída em madeira de castanho, denominada porta principal (grande). Custou 750 ou 780 € e foi oferecida na totalidade por Sesinando Vaz. O marceneiro/carpinteiro foi um filho da terra.
Nos anos de 2008 a 2010: Conservação interior e exterior, substituição completa de toda a estrutura do telhado, incluindo o forro de madeira (pintado) que era de forma oval passando para a actual, porta lateral pequena, e ainda, substituição da escadaria da entrada do adro para pedra rústica, voltando à primitiva origem, mas não regressando ao mesmo local, que era perto duas enormes e seculares ou quiçá quase milenares frondosas oliveiras que existiam na curva do adro e que rendiam anualmente à paróquia várias sacas de azeitona da qualidade lentisca. O povo ainda hoje lembra esse irrefletido acto de finais da década de 1980 ou início de 90, dizendo os responsáveis de então ser necessário para alargar um pouco mais o caminho público, quando na verdade não se justificava.
O chão lajeado interior da Capela, que tinha sido há uns anos atrás indevidamente revestido com areia e cimento, voltou às origens primitivas. Também há quem afirme, que sempre ouviu dizer, que as paredes interiores e até exteriores eram inicialmente revestidas a barro e pintadas a cal. Essas últimas obras foram orientadas pelos senhores Padres: Alberto da Eira, pároco da nossa freguesia e João Parente; este último (arqueólogo?), especialista da igreja em obras de conservação religiosas, por forma a manter toda a traça original e não voltar a cometer mais grosseiros erros populares de restauro e conservação. A pia baptismal que sempre esteve junto à pequena porta da entrada lateral foi transferida para junto da porta principal. No meu entender, deveria ter ficado no seu lugar.
Com todas essas últimas obras, tenho a certeza, que a Santa ficou mais orgulhosa.
Devido novamente à infiltração de humidades, em Abril de 2017, voltou a ser substituída a telha da cobertura, colocado novo estrado em madeira do chão do Altar-mor e feitas outras pequenas reparações também em madeira. De referir o apoio do Município e a preciosa colaboração, dedicação e empenho de Eduardo Quintela para a realização destes trabalhos.
Em Maio de 2009, num concurso promovido através da Internet – “Blog – Noticias de Valpaços” -, com um período de votação de três meses, para eleger as “7 Maravilhas do Concelho de Valpaços”, entre as melhores 20 a concurso, já pré-selecionadas, por votação que terminou em 16 de Fevereiro, a nossa Capela de Stª. Maria Madalena teve o privilégio de ser eleita em primeiro lugar na classificação final, com 35% dos votos. A nossa Igreja Matriz, também pré-selecionada, ficou classificada em 6º. Lugar, com 20% dos votos.
Para essa eleição, não só contribuiu o nosso Site (www.santavalha.com), como mensageiro da notícia no espaço “Notícias Breves”, como também os Santavalhenses residentes e não residentes como principal contributo, e ainda outros votantes que conhecem bem este património, e reconhecem o valor desta “maravilha” histórica religiosa.
Tendo em conta que a imagem de Santa Maria Madalena já se encontrava bastante danificada e necessitar de restauro por fazer sempre parte da procissão da festa anual de São Caetano e de outras que se fizeram anteriormente em honra de outros Santos, em Julho de 2011, foi mandado fazer a um santeiro do Porto uma réplica desta imagem.
O majestoso andor de Santa Maria Madalena da festa de São Caetano do dia 07 de Agosto de 2011 ergueu pela primeira vez essa nova bonita imagem. A iniciativa de a mandar fazer partiu da Santavalhense, Maria Raquel de Barros Alves, que contribuiu com o patrocínio pessoal de 90% do custo total de 370 euros. Uma excelente e brilhante iniciativa desta cidadã e devota desta Santa da terra.
Capela de São Miguel:
“São Miguel é considerado o guardião celeste, o príncipe e guerreiro, que defende o trono celestial. Ele é também o defensor e protetor do Povo de Deus e Padroeiro da Igreja Católica. São Miguel Arcanjo é o chefe supremo do exército celestial, dos anjos que são fiéis a Deus. Ele é conhecido também como o Arcanjo da Justiça e Arcanjo do arrependimento. São Miguel Arcanjo é o grande combatente e vencedor das forças do mal.” Os três Santos Arcanjos que a igreja católica reconhece, são: São Miguel, São Gabriel e São Rafael. A data comemorativa da sua celebração é a 29 de Setembro. Arcanjo significa, anjo de ordem superior.
A Capela de São Miguel (Arcanjo) e um património religioso já com alguns séculos de história que guarda no interior um belíssimo altar-mor em talha dourada. Desconhece-se a data da construção primitiva desse templo. É também chamada na freguesia por Capela de São Caetano por acolher a sua imagem, justificação esculpida na pedra da padieira da porta principal. Tal como a igreja matriz está situada no centro da aldeia, lugar da praça, o sítio mais nobre da nossa aldeia.
Foi reedificada de novo e na totalidade em 1697, com esmolas dos devotos de São Caetano “de Thiene”, a maioria certamente de peregrinos que passavam por Santa Valha a caminho de São Caetano no concelho de Chaves e ainda de Santiago de Compostela, obra essa, sob orientação do Padre Abade da nossa paróquia de então, “Martim Velho Barreto”, natural de Monção, trabalhos iniciados no início da década de 1690. Martins Velho Barreto
A passagem de peregrinos para Santiago de Compostela também se fazia por Santa Valha, caminhando a maior parte pela antiga via romana (Via Augusta) que ligava Braga/Astorga. De igual modo, antiga passagem de peregrinos devotos de São Caetano a caminho de Torre de Ervededo do concelho de Chaves, que já vinha do período romano e alta idade média.
Os “Marcos Miliares” que ainda existem no nosso concelho marcam a antiga via romana que liga Braga a Astorga (Espanha), denominada Via Augusta VII – Itinerário:….., Lamalonga, Torre de Dª. Chama, Ponte de Vale de Telhas, Poçacos, Lagoas/Valpaços, Vilarandelo, Sá, Ribeira de Limãos, S. Julião de Montenegro, S. Lourenço/Chaves…. .
A capela foi utilizada em substituição da igreja matriz (de Santa Eulália), quando esta se encontrava em construção.
O padre abade Martim Velho Barreto encontra-se sepultado em campa rasa junto ao Altar-mor da nossa Igreja matriz e ao túmulo do também Padre Abade da nossa paróquia, Nuno Álvares. Na pedra rectangular que está a capear a campa rasa/jazigo, encontra-se esculpido para além do sítio da colocação de uma argola de ferro o nome e as seguintes referências:
“ SA (Sepultura) DE MARTIN VELHO BARRETTO-NATURAL DE MONÇÃO INDIGNO-ABBADE QUE FOI DESTA IGREJA-ERA DE 1685 “. Foi Abade da paróquia de Santa Valha de 1662 a 1704.
A palavra lavrada “INDIGNO” suscitou-me dúvidas: Em conversa tida com o senhor padre Alberto da Eira, este informou-me o seguinte: que a palavra” INDIGNO” tem alguma razão de existir, uma vez que foi mesmo o próprio padre Martin Velho Barretto que mandou construir essa sua sepultura anos antes de falecer, daí o significado correcto dessa tal palavra.
Acrescentou ainda: se repararmos no que está esculpido na pedra/padieira por cima da porta principal da capela, as obras de reedificação total da Capela do tempo desse ilustre Abade só foram concluídas por ele alguns anos depois: 1697. O cruzeiro em frente também remonta à mesma data.
A data de 1685 esculpida não é certamente a data do seu falecimento, mas sim o da construção antecipada da sua sepultura, tendo em conta que o último registo dele nos livros paroquiais data de 27 de Julho de 1704. Terá provavelmente falecido entre 1704 e 1709, pois só em 1709 é que foi substituído pelo novo pároco-abade Miguel Carvalho de Almeida natural de Ribeira de Pena. Martim velho Barreto presidiu aos destinos da nossa paróquia e abadia desde 1662 a 1704, ou seja, desde logo a seguir à conclusão da edificação da igreja matriz em frente, que aconteceu em 1656. Era natural de Monção, Viana do Castelo.
(Sepultura na Igreja Matriz, junto ao túmulo do Padre/Abade Nuno Álvares e Altar-mor)
Consta-se, que a capela anterior ou inicial era de inferiores dimensões, mas nada se sabe sobre a data da fundação.
Também se consta, que antigamente chegou a existir uma casa ou dependência contígua à actual capela e que esse tal edifício conhecido na altura por casa da Tulha ou das Almas pertenceu ou foi propriedade da extinta Confraria das Almas. Provavelmente terá sido uma antiga dependência que existiu no lugar onde desde meados da década de 1990 está implantado o coreto filarmónico. Do meu/nosso tempo e do que conhecemos e sabemos é que existiu no exterior, na parte detrás da sacristia, até por volta de meados da década de 1980, uma pequena divisão com cerca de 4 m2, onde, até então, se costumava guardar alguns pequenos pertences da festa, assim como era o local onde era colocado o gira-discos que transmitia a música desses dias.
Também até 2006, data das penúltimas obras de conservação, existiu no adro por detrás da capela dois portões em ferro e, durante algumas décadas, até por volta do início da década de 1980, em frente à entrada principal da capela, existiu um pequeno patim em cimento com cerca de 20 centímetros de altura em relação ao piso do largo da praça e adro, com dois pilares (mecos) de pedra de cerca de 40 centímetros de altura nos extremos para não se estragar o patim, principalmente pelas rodas dos carros ou carroças dos animais de trabalho.
Há ainda alguns mais idosos que se recordam de ter existido até ao rompimento da estrada (1932-1934) uma escadaria em pedra com meia dúzia de degraus em frente à entrada da porta principal da capela, mas já não se recordam se as pedras dessa escadaria foram retiradas aquando do nivelamento da estrada ou se estão soterradas. Contaram-me ainda que nessa altura havia um desnivelamento irregular no piso térreo da praça de cerca de um metro de altura em relação à capela, e de cerca de meio metro em relação à entrada do adro da igreja.
Nas duas ombreiras em arco de pedra que se encontram no interior e que antecedem o Altar, encontra-se escrito a tinta “Ano de 1705”. Desconhece-se a origem dessa data, mas tudo leva a querer que se trate da data da reparação da talha e pintura do Altar ou da sua instalação. No ano de 1876 a Junta de Freguesia de então orçamentou a verba de 100.000 reis destinados a trabalhos de reparação provocados por um incêndio e pela acção do tempo.
“Na parte inferior do Altar-mor, perto do chão, encontram-se dois brasões (Pedras d`Armas) em madeira, um de cada lado. Descrição: esquartelado: no primeiro as armas da família Velho de vermelho com cinco vieiras de ouro; no segundo três animais, no terceiro uma águia estendida de vermelho armado de negro; bordadura de vermelho carregado de sete castelos, no quarto, as armas da família Cunha: de ouro, com nove cunhas de azul, postas 3, 3 e 3. Timbre: um chapéu de romeiro de negro com dois bordões passados em aspa e bocante sobre uma vieira de ouro na aba. Chapéu eclesiástico, com cordões de seis bordas em cada flanco, correspondentes à dignidade episcopal. Datação: 1697-Tipo de Escudo: peninsular. Autor: Valpaços Património Artístico de Roger Teixeira Lopes, livro/obra de 1997”.
Na capela existe ainda uma sepultura em campa rasa com duas argolas de ferro na pedra que a está a capear. Trata-se da sepultura de Francisco Xavier de Mariz Sarmento, natural de Bragança, abade de Santa Valha no período de 05-09-1947 a 1758, falecido em 18-09-1758. Existe ainda outros vestígios no chão, que tudo leva a querer tratarem-se de uma ou outra sepultura, mas certeza não existe.
“Martin Velho Barreto, natural de Monção – como atesta a inscrição da lápide da sua sepultura na capela-mor da igreja de Santa Valha -, foi durante o século XVII pároco de Santa Valha, de Fornos do Pinhal e provavelmente da Bouça. Há também inscrições desse padre gravadas no arco cruzeiro da igreja de Fornos do Pinhal. Pode aí ler-se que o arco e o tecto da capela-mor da igreja foram mandados fazer (à sua custa? Por Martins Velho Barreto, na era de 1682. Também se consta, que esse padre também mandou construir a igreja da Bouça. Por aí se pode concluir e imaginar a grandeza desse homem e a sua obra (não apenas material, decerto) por estas terras. A nossa homenagem, com o sentimento e a certeza de que há uma história por descobrir e escrever. Martin Velho Barreto: eis um nome praticamente desconhecido na (quase) totalidade dos habitantes do nosso concelho. No entanto, o nome dum homem grande na história deste concelho de Valpaços; um nome que devia ficar escrito, gravado com letras de ouro. (Fonte: Pª Jorge Fernandes 31/01/2011-Blog:http://saocousasdavida.blogspot.com) “
No interior da Capela, para além da imagem de São Miguel, que lhe dá o nome, encontram-se também no altar duas imagens de São Caetano, conhecidas pelo nosso povo, da seguinte forma: São Caetano “Velho” que datará da reconstrução da capela e, São Caetano “Novo”. São Caetano, que é tão-somente o “padroeiro da festa de verão” da nossa terra desde 1950. Nunca se constou que alguma vez tivesse sido festejado esse Santo na nossa aldeia, São Miguel, e só ultimamente (2013) é que começou a sair num nos andores da festa de verão em honra de São Caetano, seu companheiro inseparável. O dia de São Miguel Arcanjo é comemorado a 29 de Setembro. Já quanto a São Caetano, o dia comemorativo é a 7 de Agosto, data da sua morte, onde abaixo deixo um pouco da sua biografia.
Contaram-me algumas pessoas mais idosas, que ouviram dizer, que a imagem “nova” foi comprada na década de 1950, por uma comissão de festas presidida por Benjamim Picamilho e/ou Lafaiette Alves, para não virem a danificar mais a imagem mais antiga, aquando da colocação no andor para a procissão da festa. Também me disseram, que a imagem “nova” poderia por ventura ter sido comprada por essa tal comissão, em virtude da imagem mais antiga, ter sido enviada, nesse ano, para restauro.
Na sacristia desta capela, existiu até finais da década de 60 ou meados de 70, um valioso quadro pintado a óleo e uma cruz, que representavam as “Almas no Purgatório”. Dessas duas peças representativas do tema, ninguém mais se recorda de ver uma delas, o (valioso) quadro, desde o tempo dos padres de então: José Ribeirinha Machado da paróquia de Vilarandelo ou António de jesus Branco, padre de Santa Valha. Será que a exemplo do candeeiro/candelabro da nossa igreja, também criou asas e voou….. É caso para dizer: mistério!? Igual facto aconteceu nesse período com o desaparecimento de vários objectos de arte sacra pertencentes à nossa igreja matriz, nomeadamente, entre outros, um também (muito) valioso candelabro/candeeiro, todo ele em cristal, conhecido nesse tempo por “Lustre”, que tinha caído do tecto.
O candeeiro que actualmente existe no tecto foi oferecido pelo falecido senhor Amândio Morais. Foi ferreiro de profissão na aldeia antes de emigrar para os Estados Unidos nos primeiros anos da década de 60.
Todavia, outra dúvida me surgiu e que ninguém me conseguiu esclarecer: foi a falta do sino neste já velho campanário por cima da sacristia. Contudo e apesar do lugar cavado nas pedras laterais onde assenta a estrutura/cabeçalho de madeira que sustenta e faz movimentar o sino lá existir, ninguém se recorda de o ver no campanário/torre sineira, nem mesmo os mais idosos se recordam também de ouvir falar dele.
Consta em actas dos livros de actas de outros tempos que existem na sede da Junta, que a Junta de Freguesia reuniu na sacristia da capela de São Miguel desde 1910 a 1918. Anteriormente, essas reuniões eram feitas na sacristia da igreja matriz. Também reza a história que a capela foi utilizada para os actos religiosos entre 1654 e fim 1656, ou seja, entre o desmantelamento da velhinha igreja situada no monte de Santa Olaia e a conclusão da construção da igreja matriz.
Na nossa aldeia, as festividades em honra de São Caetano “de Thiene”, não se costumam realizar a 07 de Agosto, dia comemorativo oficial deste Santo, mas sim, no segundo domingo desse mesmo mês. Apesar, da Capela, pertencer a São Miguel “Arcanjo”, não se consta na aldeia, que tivesse havido, até à data de hoje, quaisquer festa religiosa ou profana em honra deste Santo, que a igreja católica comemora a 29 de Setembro, ou até mesmo em honra da padroeira (Orago) de Santa Valha, Santa Eulália “de Mérida, Virgem e Mártir”, que se comemora a 12 de Fevereiro.
Nota: A capela de São Caetano mais próxima fica situada no concelho de Chaves, mais propriamente na freguesia de Ervededo, local onde também se costuma realizar uma grande romaria em sua honra. Trata-se de uma capela muito antiga, com data de construção indeterminada. Festa em honra de São Caetano no concelho de Valpaços só existe a nossa.
Na aldeia de Água Revés do concelho de Valpaços, existe uma capela de São Caetano, com traços de arquitectura um pouco parecidos com a nossa de São Miguel (Caetano), mas de dimensões mais reduzidas. Trata-se de um bem particular muito antigo, propriedade da casa “Solar Rural Mariz Sarmento (Pimentel)”, que em 1737 foi transferido de outro local da aldeia. Quer a casa, quer a capela anexa, foram em 2012, classificados pelo estado (IGESPAR) como Monumento Nacional: Imóvel de Interesse Público (IIP).
Últimas obras de melhoramento e conservação de que nos recordamos:
1984: Arranjo e limpeza do telhado, conservação das paredes e pintura geral.
- Substituição da telha da cobertura e madeira do forro, revestimento das paredes interiores e exteriores, eliminação de humidades, pintura geral e verificação da parte eléctrica.
Fevereiro de 2017: Restauro da porta principal de duas folhas e colocação de porta nova de uma só folha na entrada da sacristia. Na porta principal foram colocadas quatro almofadas (das seis iniciais) e molduras novas. Quanto à mais pequena de uma só folha, a da entrada da sacristia, trata-se agora de uma porta quase totalmente nova, tendo unicamente sido aplicadas duas almofadas restauradas da antiga porta principal. Esta obra, custeada por duas beneméritas, foi a mando da Comissão de Festas em honra de São Caetano presidida por Eduardo Quintela.
Ainda em Abril do ano de 2017, a mesma Comissão presidida por Eduardo Quintela e com algum apoio do Município, substituiu a telha da cobertura do telhado devido à infiltração de humidades, o estrado do chão do altar que era em madeira por pedra, limpeza da pedra exterior e pintura geral. Foram ainda substituídos os dois focos de iluminação das paredes que incidem sobre o altar, custo eléctrico a cargo da Comissão Fabriqueira da Igreja.
Em 12 de dezembro de 2018 deixou de ser utilizada para velar os mortos em câmara ardente, acto fúnebre que já vinha a acontecer progressivamente desde finais da década de 1990 e de há uma década para cá na totalidade, tendo em conta que passou a deixar de ser hábito em todo o lado velar os mortos em casas particulares. Para além da falta de condições, nomeadamente espaço e conforto e até de alguma degradação notória na talha dourada devido às muitas utilizações com concentração de muitas pessoas no interior da capela quando do desse serviço fúnebre pesou na intenção.
Deixo aqui um pouco da biografia de São Caetano:
São Caetano de Thiene, nasceu em 01 de Outubro de 1480 em Vicenza, Itália e faleceu a 7 de Agosto de 1547 com 66 anos em Nápoles. Foi beatificado em 8 de Outubro de 1629 em Roma pelo Papa Urbano VIII e canonizado a 12 de Abril de 1671 eplo Papa Clemente X . É conhecido como Santo da Providência, Patrono do Pão e do Trabalho. É ainda Padroeiro dos Gestores Administrativos, assim como das pessoas que buscam trabalho e dos desempregados. Estudou Direito e em 1506 trabalhou como Diplomata para o Papa Júlio II. “Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.” O dia comemorativo de São Caetano é a 7 de Agosto, data da sua morte.
Capelinha do “Senhor da Boa – morte”:
A capelinha do Nosso Senhor da Boa-morte, local de culto onde muita gente se desloca para pedir a graça do Santo, localiza-se a poente da aldeia, num pequeno outeiro perto da estrada. Esta capelinha nasceu ou teve origem na transferência do cruzeiro (cruz) existente um pouco mais abaixo, situado no início do caminho que dá para o bairro dos Ciprestes e cruzamento das estradas para Vilarandelo e Fornos do Pinhal, local conhecido nessa data por “Cruz e mais tarde por Cruzeiro”.
Esse símbolo religioso de cerca de três metros de altura, base e cruz simples com os seguintes dizeres: “ S B / MORTE “ que data do século XIX, com as bonitas imagens de Cristo no cimo como principal e inscrição “INRI” (Na religião cristã, I.N.R.I é a sigla formada pelas iniciais da expressãoIenus Nazarenus Rex Iudaeorum – Jesus Nazareno Rei dos Judeus), inscrição que Pilatos mandou afixar na cruz onde Jesus Cristo seria crucificado)e de Nª. Srª. das Dores ao fundo pintadas a tinta de óleo, foi transferido para o local onde agora se encontra (antiga propriedade dos “Xamorros” do bairro dos Ciprestes rasgada pela estrada, mais tarde tornada pública) entre 1931 e 1932, ou seja, um ano antes do rompimento da Estrada Nacional (EN) que se deu entre 1932-1934.
Foi então nessa altura (1931/1932) edificada essa capelinha a mando de uma devota da terra com bastantes posses e proprietária desse sítio, Dª. Josefa Joaquina Lopes Carneiro, também conhecida na aldeia por “Dª. Zefa Russa”, que foi tia-avó de Dª. Marina Lopes de Morais Soares, do bairro dos Ciprestes. O pedreiro que o transferiu e que fez a capelinha foi Joaquim dos Reis Moreiras (avô dos primos: Toninho “Periquito”, Ricardo e Zé Moreiras, entre outros) especialista na arte de talhar e trabalhar a pedra.
Contaram-me também algumas pessoas mais idosas, que as falecidas, Dª. Marquinhas, (mãe da falecida Maria Cândida da Costa que morava junto à Igreja) e a Dª. Glória Augusta da Mata, antiga empregada da também falecida Dª. Albertina da Cunha, mais conhecida por Dª. Tute, e tia dos irmãos: Ana, João, Fernanda e Helena da Mata Barrosão, entre outros, chegaram também a contribuir nessa data, por promessa, com trinta escudos (0,15€) cada uma, mas só para a construção do telhado. Todo o resto foi a cargo da Dª. “Zefa Russa”.
Em 1967 ou 1968, foi substituída a cobertura inicial de zinco, por telha cerâmica. Desconheço se essas obras foram mandadas executar por alguém com promessa religiosa, peditório popular, ou outro. Quem executou esse trabalho foi António Patrocínio Teixeira e João Mota/Mata Barrosão, e quem lhes fez o pagamento foram Maria Cândida da Costa e Bernardina Rosa, vulgarmente conhecida por Rosa “Cega”, por falta de vista, ambas já falecidas.
Essa Capelinha do Senhor da Boa-morte voltou a ter obras de melhoramento em 2006, nomeadamente: conservação, limpeza e pintura das paredes, e colocação de novo telhado (madeira e telha) e, um ano mais tarde, foi melhorado o espaço envolvente e construída a imponente escadaria frontal; todos estes trabalhos a cargo da Junta de Freguesia.
Antes de 1950, data da primeira festa em honra de São Caetano, a festa ou romaria em honra do Corpo de Deus era feita junto ao cruzeiro, mais tarde capela um pouco mais acima. Chamava-se a esse evento a “festa do Senhor” com procissão e arraial. Era uma festa de verão que já vinha de antigamente; Para o efeito eram sempre nomeados três ou quatro mordomos.
Após essa data passou a festejar-se o São Caetano. Depois de 1962, quando o padre José Ribeirinha Machado paroquiou por um período muito curto na nossa paróquia, após o falecimento do Padre “João” dos Santos Ferreira e a chegada do padre António de Jesus Branco, era costume fazer-se uma pequena festa anual no dia do do Corpo de Deus junto a essa capela, denominada a festa do Senhor (da Boa-Morte). A bonita procissão saída da igreja com destino à capelinha e regressava para ser concluída no cemitério público. Houve anos em que a Banda Musical de Vilarandelo marcou presença por influência do padre Ribeirinha. De acordo com registos, antes de 1950, era a principal festa religiosa e profana da nossa paróquia.
Até ao início da década de 1970, todos os anos a 13 de Maio, após a missa da noite em honra de Nª. Srª. de Fátima era feito o ritual da procissão das velas; a procissão saia da Igreja, pela estrada, e o terço era concluído na capelinha.
Capela de Nª. Senhora de Fátima:
A Capela de Nossa Senhora de Fátima foi erguida em 1988 e teve Inauguração a 13 de Maio desse mesmo ano. Tratou-se de uma construção da responsabilidade da Junta de Freguesia, constituída na altura pelos seguintes elementos: Presidente: Manuel Guedes; Secretário: Augusto Fontoura Ribeiro e Tesoureiro: Hilário Cardoso. Estiveram presentes nessa inauguração, várias entidades públicas e religiosas.
A iniciativa desta construção partiu do senhor Manuel Guedes, na altura Presidente da Junta de Freguesia, que num período menos bom do seu estado de saúde e, a devoção a Nossa Senhora de Fátima, o levou a essa brilhante ideia, mas com consentimento do responsável da paróquia, Padre Alberto da Eira. Essa edificação foi feita com dinheiros públicos e particulares.
O altar que está na Capela serviu anteriormente de altar dedicado a Nª. Sª. de Fátima na igreja matriz. Havia sido retirado pouco tempo antes da Igreja por se encontrar bastante danificado. Foi restaurado, se bem que já não na sua totalidade, por algumas (poucas) peças já estarem bastante danificadas com a idade.
A imagem de Nª. Senhora de Fátima, fabricada em madeira, foi adquirida em Braga pelo preço de 195 mil escudos, ou 195 contos, como se costumava dizer, (agora 973,00€). Foi custeada através de um donativo da Câmara Municipal no valor de 100 contos, e a parte restante, por um peditório junto do povo feito pelas senhoras: Maria Cândida e Claudina Cardoso “Ribeiro”.
As duas cruzes de pedra que se encontram no telhado foram mandadas fazer na altura para esse efeito, mas a bola-oval também de pedra do cimo do telheiro, pertenceu outrora ao telhado da capela do Santo Cristo da Igreja Matriz. Estava colocada no topo da pirâmide de pedra esquinal esquerda da rectaguarda que caiu quando do grande ciclone de Fevereiro de 1941 e que se veio a partir.
Todos os anos, na noite de 13 de Maio e após terminar a missa, a procissão das velas, sai da igreja com a imagem de Nsª. Senhora de Fátima em direcção a esta Capela e, no percurso, os cristãos/devotos e o Senhor Padre, rezam o tradicional terço, finalizado neste local, com a Canção do Adeus a Nsª. Senhora.
As primeiras obras de conservação e melhoramento nesta capela deram-se em finais de Setembro de 2013 a cargo da Junta de Freguesia presidida por Jorge Augusto de Castro, tais como: Aplicação de um rodapé exterior e passadiço do adro em granito para eliminar humidades e substituição do mármore do chão da escadaria frontal por granito da região, assim como alargamento do mesmo, em virtude do antigo já estar muito danificado. Em finais de Outubro do ano seguinte (2014), a nova Junta presidida por Nuno Miguel Neves, votou a fazer obras de conservação, tais como: madeiras do tecto, pintura geral e infiltração de humidades. Em Julho de 2017, devido novamente à infiltração de humidades na cobertura, foi substituída a telha e pintadas as paredes exteriores, restauro a cargo da Comissão Fabriqueira.
Notas: ver fotos da inauguração da capela no Link: Junta de Freguesia “ Inaugurações”.
Lembro aqui que a última passagem da imagem peregrina de Nossa Senhora do Rosário de Fátima “ – Mãe de Deus e Nossa Mãe- pelo nosso concelho aconteceu no ano de 1954. Só em 10 de Julho de 2015, é que a mesma imagem de Nª. Senhora voltou a passar em peregrinação pelo nosso Concelho, vindo do concelho de Murça com paragem nas aldeias do Cubo, Carrazedo de Montenegro, Argemil, Argeriz e Vassal onde chegou à cidade de Valpaços por volta das 21h e 30m. Depois da bonita procissão, pernoitou no santuário onde foi venerada e, no dia seguinte, por volta das 13h retomou o caminho em direcção a Chaves, passando e parado em Vilarandelo, Sá, Tinhela, Nozelos e Lebução, entre outras.
Ao longo do percurso foram várias as paragens e recepções a Nª. Senhora de Fátima, sempre em ambiente de muita fé e devoção.
A imagem peregrina iniciou, no dia 13 de Maio, uma peregrinação de 12 meses às dioceses portuguesas, iniciativa que se integra nos preparativos para as comemorações do centenário das aparições, a realizar em 2017.
Nota: O adro da capela foi requalificado em meados do ano de 2024, assim como colocado um queimador de velas, quando da requalificação do logradouro que antecede o cemitério e limpeza e pintura do gradeamento e portões de acesso.
Nicho de “Alminhas do Jardim” ou da Praceta:
Desconhece-se a data e o motivo que originou a edificação desse antigo nicho de Alminhas com a imagem principal de Nª. Srª. das Graças ao centro. Nossa Senhora da Medalha Milagrosa é uma invocação especial pela qual é conhecida a Virgem Maria, também invocada com a mesma intenção sob o nome de “Nossa Senhora das Graças” e Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças.
Lembro-me desse nicho colocado em cima da parede do adro da Igreja, perto do agora cruzeiro e do antigo primeiro coreto da banda da música. Mais tarde, final da década de 1970, foi transferido para a parede da casa paroquial (Abadia), mais propriamente junto ao lugar da Curva das Adufas, ao lado da pedra padieira esculpida do aposento dos peregrinos, datada de 1692.
No início da década de 2000 o espaço foi totalmente requalificado e esse símbolo de culto religioso voltou a ser transferido pela Junta de Freguesia, e bem, para a então bonita ajardinada pequena praceta da Avª. Principal, mas com a autorização superior do pároco Alberto da Eira.
A pedra onde presentemente assenta, ou que lhe está a servir de base, serviu anteriormente de peso de uma prensa artesanal com fuso de madeira de fazer o vinho pertencente à casa agrícola de Celestino Domingues, “Nené” como era habitualmente conhecido, agora dos herdeiros de Hilário Cardoso e esposa Fernanda da Mota.
Foi o falecido Nené que vendeu essa antiga e histórica pedra à Junta de Freguesia no tempo da presidência de Manuel Guedes, mas foi só mais tarde na presidência de Jorge Castro que ela foi retirada da casa e utilizada para esse fim.
Tendo em conta que o painel de azulejos original estava já bastante danificado, a Junta tirou-lhe uma fotografia e mandou fazer o actual rigorosamente igual a uma casa da especialidade. Trata-se de um painel de azulejos bicromados de cor azul e branco que contêm as seguintes figuras: quatro anjinhos alados “Querubins”, ao centro a imagem de Nª. Srª. das Graças, em baixo: sete alminhas, envolvidas pelas chamas do purgatório. No fundo da base do nicho uma pequena caixa cavada na pedra já sem tampa de ferro para colocação de esmolas. A pedra da cruz partida num acidente de automóvel em 4 de Abril de 2015 foi posteriormente colocada no sítio.
Contou-me António do Patrocínio Teixeira que já conta 89 anos de idade e Emília Lopes, que já deixou os 91 para trás, que ainda se recordam da pintura das Alminhas serem a óleo e que foi uma mulher do solar dos Aciprestes que mandou fazer e colocar o painel de azulejos à sua custa por a pintura inicial já estar muito estragada. Ambos contaram-me, não se recordarem, se a imagem e os motivos que estão actualmente no painel são os mesmos da pintura primitiva. O senhor António acrescentou ainda, recordar-se de uma figura com uma balança, mas a memória já não lhe conferia certeza.
O espaço onde se encontra esse pequeno (triângulo) jardim pertenceu outrora à falecida Aglai de Jesus Ferreira Moura, Glaizinha Moura como era vulgarmente conhecida na freguesia.
Esse pequeno pedaço de terreno particular com três oliveira já com muitas décadas foi antigamente também sítio de encontro da rapaziada do meu e de outros tempos. Lembro-me, por exemplo, de ser o local de partida (a pé) para o campo da bola no Cruzeiro e para os mergulhos nas sestas de verão nos açudes do Barrosão no lugar da Ribeira e da Moleira (Srª. Palmira) perto da ponte do Calvo. Esse espaço foi tornado público pela Junta de Freguesia por volta de meados ou finais da década de 80, data em que essas frondosas oliveiras foram derrubadas, assim como a parede de suporte em pedra que existia junto ao caminho.
Em Dezembro de 2015 esse pequeno jardim-praceta voltou a ser novamente requalificado através de um projecto camarário solicitado pela Junta de Freguesia, vindo a dar ao sítio de culto e laser um aspecto diferente para melhor, moderno, digno e vistoso e com a saudosa parede de pedra (agora com escada de acesso interior) a voltar novamente às origens. As placas de calcário serradas colocadas no chão para servir de passadiço, é que não condizem como granito existente. A oliveira plantada, certamente já centenária, foi transferida em Maio de 2016 da casa do lado de Alexandrina Leite Contins, imóvel antigo de lavoura adquirido no seu todo no mês passado pela Junta de Freguesia.
“ALMINHAS – Autor: desconhecido.”
As alminhas são uma criação genuinamente portuguesa, sendo Portugal o único país que as possui no seu património cultural, tendo sido criadas na sequência do Concílio de Trento (1545-1563), com especial incidência a norte do rio Mondego. Não há sinais de haver este tipo de representação das almas do Purgatório (marcas profundas da religiosidade popular, pedindo para os vivos se lembrarem delas para poderem purificar e “subir” até ao Céu), em mais lado nenhum do mundo.
As alminhas são padrões de culto das almas do purgatório, hoje consideradas património artístico-religioso. São pequenos altares onde se pára um momento para rezar uma oração e, por vezes, uma esmola pelas almas. A morte repentina, a falta dos últimos sacramentos e a forte espiritualidade estão ligados a estes pequenos monumentos. É frequente encontrar velas e lamparinas acesas, deixadas pelas pessoas que passam no local, ou mesmo oferendas de flores.
Não são conhecidos registos escritos destes memoriais antes do século XIX, no entanto, podem encontrar-se exemplares de alminhas que remontam ao século XVIII. Formalmente, este painéis representam sempre as almas do purgatório em agonia, podendo representar anjos, São Miguel, a Virgem, Cristo ou Santos resgatando as almas.
Cruzeiros:
Dizem alguns registos, que a quase totalidade cruzeiros católicos existentes no nosso país datam dos séculos XVII e XVIII. Foram e são ainda lugares de culto e oração.
Na nossa aldeia existem “dezasseis” cruzeiros pertencentes à paróquia espalhados por toda a aldeia da seguinte forma: três no adro da igreja, três na praça, um no bairro do Sobreiró, um no bairro do Pontão, um na Avª. Principal próximo das Adufas e do caminho que liga ao bairro do Pontão e cinco no adro ca Capela de Stª. Maria Madalena, e ainda um no caminho agrícola que serve Valbenfeito e outro no lugar do cruzeiro, ou cruz, junto à estrada para Vilarandelo, local transformado entre 1932 a 1934 por uma devota numa capelinha, conhecida por capelinha do Senhor da Boa-morte. Até essa data o cruzeiro situava-se mais abaixo no cruzamento de caminhos agrícolas e para Vilarandelo, agora início da estrada com Fornos do Pinhal e caminho para o bairro dos Ciprestes.
Consta-se, que o cruzeiro que está no monte junto ao caminho para Valbemfeito, com dois petos para as esmolas na base, de granito de cor rosado ferruginoso, certamente devido ao aglomerado de cristais que têm provocado erosão e vão desagregando e decompondo a qualidade da pedra ao longo dos anos, que se situa num cruzamento de dois caminho, foi mandado fazer ou feito (finais do século XIX ou início do XX) por uma família que residiu outrora em Santa Valha de nome ou alcunha “Bentas”, provavelmente de apelido “Bento?” e que por esse local costumava passar também gente a caminho da anexa do Gorgoço, desconhecendo-se o motivo da edificação e localização. Porventura terá sido local de curta paragem e oração quando do transporte a pé dos mortos do Gorgoço até 1948 para serem sepultados no cemitério de Santa Valha. Essa família (originária de Lebução?) chegou a ter uma sepultura no nosso cemitério público (capeada por uma única pedra?).
Por volta da década de 1990 foi colocado nesse cruzeiro um cruxifixo construído em mármore branco com cerca de 70 cm, por um conterrâneo nosso já falecido, Agostinho Fernandes, avô materno do Miguel e Sérgio Pereira Neves, que possuía uma propriedade agrícola muito perto. Junto à base do cruzeiro existe um nascente de saborosa água fresca onde antigamente se costumava beber no verão, cujo local e respectivo buraquinho de beber cavado na rocha estão actualmente bastante danificados por descuido lamentável do operador de uma qualquer máquina que arranjou o pavimento do caminho à cerca de dois ou três anos atrás (2011?).
Até por volta do início da década de 2000 existiu um outro cruzeiro também antigo no caminho da quinta da Teixogueira, mais propriamente junto à entrada da moradia dessa quinta. Esse cruzeiro era muito bonito, dado ter a imagem de Cristo esculpida na própria pedra. Consta-se que foi o antigo proprietário que o retirou do local e o levou consigo para a região do Porto. Também há ainda quem se recorde da existência de um outro cruzeiro no mesmo caminho a cerca de duzentos e tal metros a sul deste último, ou seja: no fim do muro que cerca a quinta, mais precisamente na divisória do nosso termo com a freguesia de Fornos do Pinhal, mas ninguém sabe explicar onde foi parar esse tal cruzeiro.
De todos os cruzeiros existentes, há três que já não se encontram no mesmo local onde foram inicialmente colocados, ou seja: o da Praça, do lado direito da Igreja Matriz, construído em 1697 (data a reconstrução da capela de S. Miguel), que se encontrava até à década de 1960 no agora jardim, muito perto da cabina da luz eléctrica e de uma, ou duas, oliveiras aí existentes. Outro, também perto da praça, na travessa da rua que liga ao Br. dos Ciprestes, junto á casa de Armindo Parauta. Este agora encontra-se, desde meados da década de 1990, encostado à parede do lado direito da Capela de S. Miguel. Ainda, e por último, o que está no início da rua da escola, que liga o Br. do Pontão e que se situava anteriormente na curva das Adufas, mais propriamente na esquina que liga a rua o Br. do Sobreiró, com a dos Ciprestes, transferido no início da década de 1980, quando da construção do armazém de Mariano de Castro Domingues.
Contou-me Fernanda da Mota (Barrosão), que já conta 81 anos feitos no mês passado, que ouviu dizer ainda em jovem a antigos seus familiares, que existiu outrora um cruzeiro junto ao caminho/estradão que vai dar ao Gorgoço, mais propriamente no lugar de Entre-as Águas, no cruzamento ou início do caminho que serve para a Padaria e lugar dos Viduedos. Nos contactos que fiz junto de outras pessoas idosas da nossa terra, todos me disseram desconhecer o assunto e nem nunca terem ouvido falar da existência desse tal símbolo religioso. Será algum deles dos que se encontram no interior da nossa aldeia?
Existe outro cruzeiro numa propriedade particular, portanto (hoje) não pertencente à paróquia, situado no monte de Santa Olaia junto ao caminho que vai dar à Quinta da Teixogueira e Fornos do Pinhal, lugar antigamente do primeiro cemitério de Santa Valha e da primeira igreja. Não se conhece ao certo o motivo da mutilação de um dos braços da cruz do cruzeiro. Contou-me o Dr. Agostinho Nogueira, que ouviu falar de jovem ao seu avô materno, que ele também tinha ouvido falar, que a mutilação se deveu ao derrubamento do cruzeiro por parte de gente (de Possacos?), que estaria a fazer uma escavação para tentar encontrar moedas em ouro, por se constar que um tesouro estaria guardado no interior da base que o sustenta ou por debaixo dela.
Por perto ainda se pode ver hoje uma sepultura cavada na rocha conhecida por sarcófago.
Via-Sacra:
Santa Valha (Valpaços). Um Povo que reza e canta!
Na sexta-feira Santa, pela madrugada, tem início a Via-Sacra, acto religioso que mantém grande adesão da população.
As catorze cruzes esculpidas em granito localizadas em pontos estratégicos do povoado, nesta altura, encontram-se ornamentadas a preceito. Depois de percorridas em oração, a cerimónia religiosa termina na capela de Santa Maria Madalena, verdadeira joia arquitectónica, em cujo adro se encontra um grandioso Calvário, provavelmente contemporâneo da própria capela. Além de um acto religioso muito participado, apresenta-se também com elevada carga simbólica, pelo papel que é atribuído a Maria Madalena, como principal e primeira testemunha da Ressurreição de Cristo. Neste povo, existiu uma grande tradição das Endoenças e dizem-me, algumas pessoas mais antigas, que já vem dos seus antepassados a Via-Sacra, percorrendo as Estações dispersas pela aldeia.
Autor: Drª. Maria Aline Ferreira – (Via-Sacra de 30-03-2018)
https://terrasdemonforte.blogspot.pt/2018/04/santa-valha-valpacos-um-povo-que-reza-e.html
Segunda-feira, 02 de abril de 2018
Cemitérios de Santa Valha:
A construção do actual cemitério público de Santa Valha teve início em 11 de Janeiro de 1903 e terminou em 25 de Maio do mesmo ano na presidência da Junta de Freguesia e da Paróquia, padre/abade José Gonçalves Chaves.
Sabe-se que o povo contribuiu com dinheiro para a sua construção e até alguns donativos de filhos da terra emigrados chegaram, particularmente do Brasil.
O padre José Chaves foi o principal obreiro e grande lutador como pároco e como presidente da Junta da Paróquia pela construção do cemitério. Quem construiu o cemitério foi um pedreiro especialista na arte de trabalhar a pedra, chamado Joaquim Reis Moreiras, natural de Chaves mas residente em Santa Valha onde havia casado. Cobrou pelo trabalho 420.000 reis, excepto o gradeamento de ferro que foi fornecido pela Serralharia Rodrigues da cidade de Chaves, pelo valor de 160.000 reis. A bênção do espaço teve lugar no dia 30 de Maio de 1903. Os donativos para a construção do cemitério vieram de gente de Santa Valha, Pardelinha, Gorgoço e povoado de Calvo, que totalizou 1.023.340 reis.
O Sr. Joaquim Reis Moreiras casado em Santa Valha com Emília da Mata, avô paterno de Ricardo, Marina, Filomena e José Moreiras, para além do cemitério, construiu ainda vários jazigos, como, por exemplo, o da família Videira.
Foi nomeado um coveiro, José Cândido Catalão, tendo-lhe sido exigidas várias condições e responsabilidades para exercer esse trabalho, pelo valor de 24.000 reis anuais. Nessa data foi também nomeado um novo sacristão para a igreja, Manuel António da Mata, obrigando-o a todo o serviço da igreja com também várias responsabilidades, auferindo um ordenado anual.
A ampliação do cemitério deu-se em 2001 a cargo da Junta de Freguesia presidida à data por Jorge Augusto de Castro. A abertura lateral na fachada principal do adro junto à estrada destinada à entrada de viaturas fúnebres também se deu a sua presidência.
Anteriormente, pelo que se sabe através de informações dos nossos mais idosos, que por sua vez dizem também ter ouvido contar aos seus antepassados e pelos vestígios que ainda restam: sarcófago(s), cruz ou cruzeiro, pedaços diversos de telha grossa e outros fragmentos, o primeiro cemitério da nossa aldeia só de origem cristã, existiu no lugar ou monte de Santa Olaia ou Eulália, numa propriedade conhecida por nós por “Casal do Barrosão”, que foi outrora propriedade de João Manuel da Mata Barrosão (ex-Guarda Fiscal e ex-Regedor da nossa Freguesia), agora de sua filha Fernanda e genro Hilário Cardoso, por herança.
Dizem os mais antigos, ter ouvido contar, que esse antigo cemitério público cristão, com característica medieval, teve como companheira contígua a primeira igreja cristã da nossa aldeia acabada de desmantelar na totalidade em Agosto de 1654 (para dar origem ao início da construção da nova igreja matriz), localizada a ponte mesmo junto ao caminho no fundo do monte do Crasto numa propriedade hoje de vinha e olival que pertence a Baltazar de Castro Domingues. Que também ouviram dizer que chegaram a ser enterrados ou sepultados nesse primitivo cemitério os “cristãos” da aldeia da Bouça do lado de lá do rio, que pertencia na altura à paróquia e importante Abadia de Santa Valha.
Contou em 1983 o falecido senhor José Domingues, já na posse de 80 anos de idade, conhecido respeitosamente na aldeia por “Emílio Sarrá”, morador no Br. dos Ciprestes, que ouviu contar ao seu avô o seguinte: há cerca de século e meio atrás aquando da plantação da vinha inicial feita por um tal “ Zé da Avó” que cultivava na altura o casal, genro de Manuel António da Mata Barrosão, foram destruídas várias sepulturas intactas, ossadas de cadáveres e outros vestígios, assim como foram encontrados vários objectos em ouro.
Outra pessoa, a falecida senhora Clemência Gonçalves, que residiu na rua dos Ciprestes do mesmo bairro, e que em 1983 também já contava a bonita soma de 78 anos, disse, (a quem me contou), que na sua juventude ouviu falar de que o falecido Manuel António Mata Barrosão, pai do ex-Regedor João Barrosão e avô paterno de, entre outros, Ana, Helena e Fernanda Barrosão, chegou a destruir uma sepultura, conhecida por sarcófago, maior do que ainda hoje existe à superfície, para repor/plantar nesse local videiras (bacêlo) e até, de alguns factos anormais acontecidos nesse local, presenciados por quem andava a abrir os valados ou “buracos” para a plantação da vinha primitiva.
Acrescentou ainda que de pequena presenciou juntamente com seu pai Germano num dia que vinham do trabalho do campo de uma propriedade próxima, o (velho) Manuel António Mata Barrosão a cultivar a vinha e atirar para o caminho público duas caveiras ainda em algum estado de conservação, uma, que devia ser de pessoa idosa, e a outra, pelo aspecto, deveria ser de pessoa mais nova, dado o aspecto dentário ainda de boa conservação, e que seu pai, agarrou nelas, e atirou-as novamente para dentro das paredes de onde vieram. Ainda que terão presenciado a saída de fumo de algumas valas, por ventura de gazes devido à decomposição dos corpos, facto desconhecido e anormal para agente menos culta de então, chegando mesmo algumas pessoas do campo a deixar lá as ferramentas de trabalho e a fugir para casa.
Outro sarcófago em granito, que mais parece a parte de uma tampa de cobertura, encontra-se a servir de pia no pátio da habitação de Cândida Pereira e filho Mário António Neves no bairro dos Ciprestes. Dizem os proprietários que se constou antigamente ter vindo de lá quando da plantação da vinha primitiva do casal do Barrosão e que a casa contígua que lhes pertenceu foi anteriormente propriedade dessa família.
A sepultura ou sarcófago que ainda existe no antigo cemitério do lugar de Santa Olaia, mais conhecido por casal do Barrosão, atrás referido, monumento destinado à inumação dos cadáveres, é de construção igual a uma que (ainda) existe na aldeia próxima de Tortomil e outra(s) em Bouçoães/Bouçoais, limites e termo desta freguesia, bem assim como outra em Parada (freguesia da Castanheira) e nas Igrejas de São João e em várias outras povoações destas terras de Monforte a que outrora pertencemos.
Bem perto do sarcófago do casal do Barrosão, ainda se pode ver também outro vestígio do antigo cemitério, que é um cruzeiro ou cruz de pedra com quase cinco metros de altura, para além de outros pequenos fragmentos, assim como vários lagares rupestres cavados ou escavados na rocha de fazer o vinho do tempo dos romanos ou mouros, sem bem que me pareçam mais do tempo dos romanos. Não se conhece ao certo o motivo da mutilação de um dos braços da cruz do cruzeiro. Contou-me o Dr. Agostinho Nogueira, que ouviu falar de jovem ao seu avô materno, que ele também tinha ouvido contar, que a mutilação se deveu ao derrubamento do cruzeiro por parte de gente (de Possacos?), que estaria a fazer uma escavação para tentar encontrar moedas em ouro, por se constar que um tesouro estaria guardado no interior da base que o sustenta ou por debaixo dela.
É muito provável que se encontrem sepultados nesse antigo cemitério, agora propriedade agrícola de vinha e oliveiras, muitos dos nossos antepassados.
Também a Capela de Santa Maria Madalena e a Igreja Matriz serviram antigamente de cemitério público, se bem que não existem quaisquer referências escritas antigas de enterros feitos na Capela a não ser do Capelão, mas já na Igreja Matriz existem e bastantes. Isto aconteceu durante largos anos, até à construção do actual cemitério em 1903.
Até 1928, data da edificação do cemitério de Pardelinha e 1948 do cemitério do Gorgoço, os mortos dessas anexas eram enterrados nos cemitérios de Santa Valha.
As últimas obras no interior do actual “cemitério público” foram feitas em Julho de 2013, a cargo da Junta de Freguesia presidida por Jorge Augusto de Castro, assim: Pavimentação em cubos de granito do passeio central e passadeiras laterais de acesso às campas, assim como colocação de duas bicas de água também em granito. Com essa última requalificação, orçamentada em cerca de 15.000 € o espaço de culto religioso ficou mais apresentável e funcional, dando-lhe maior dignidade.
Em meados de 2024 deu-se a requalificação de todo o logradouro que antecede a entrada principal do cemitério, quer junto às velhas oliveiras que haviam sido transferidas dois anos antes da propriedade (perto da praça) onde está a ser construído o parque de lazer, quer do pequeno adro da capela de Nª. Sª. De Fátima agora embelezado com jardim, onde foi também colocado um queima-velas. Foi ainda decapado, zincado e pintado todo o gradeamento e portões de ferro do cemitério. Estas obras de melhoramento da responsabilidade da Junta de Freguesia presidida por Carlos Vieira orçaram em cerca de 11.000€.
Para que tudo fique complecto, falta unicamente a colocação de dois candeeiros de iluminação no logradouro e uma limpeza geral à fachada interior das paredes do cemitério.
Com os dois últimos melhoramentos de 2013 e de 2024 ficou o cemitério renovado por dentro e por fora, vindo a dar-lhe ainda maior dignidade.
Abadia – Casa Paroquial e/ou da Paróquia.
No século XIII, em toda a metade norte do actual concelho de Valpaços, isto é, na parte de Rio Livre, não havia senão quatro paróquias, pelo menos matrizes. As que existiam como iniciais no actual território do concelho de Valpaços são a «parrochia» de Santa Ala, como lhe chamam as Inquirições de D. Afonso III, a qual “SantaAla”, abreviado Santala, tem hoje ainda o título de Santa Valha, a «parrochia» paróquia de Santa Maria de Ripária, a «parrochia» de Santa Maria de Tiela (Tinhela) e ainda a de Sancti Michaelis de Fiães. As outras hoje existentes incluíam-se nestas quatro de podem considerar-se filiais ou sub-filiais.
Desconhece-se a data da edificação da residência da “Abadia” e de outros antigos aposentos e dependências da nossa nobre paróquia que se conservaram todos de pé até meados da década de 1970, outrora Abadia do Padroado-real da Vila e Concelho de Monforte de Rio Livre até 1910, data da implantação da República e da extinção dos padroados reais, hoje mais conhecida por casa da Abadia, Paroquial ou da Paróquia. De igual modo quem a terá mandado construir. De acordo com a história deverá ser anterior a 1656, data da edificação da actual igreja, como consta no testamento do Abade do Padroado-real de Stª. Valha, Nuno Álvares, que era natural da Vila da Azambuja, onde refere as casas em que vive e a fazenda da Cerca. Para além da casa da Abadia, consta-se que esse padre terá sido dono de uma casa senhorial que existe no bairro e rua do Sobreiró, hoje a maior parte dela dos herdeiros de José Inácio Teixeira, conhecida até há cerca de um século atrás por casa do convento e do Azambuja. Numa das divisões dessa habitação ainda é possível ver um belíssimo altar-cristão escavado na pedra de uma das paredes. Dizem também algumas pessoas mais idosas ter existido outrora uma pia de água-benta.
Existe uma pedra datada de 1692 que até meados da década de 1970 serviu de padieira da porta de uma divisão perto da antiga cozinha no cimo poente da ala-sul da entrada da residência da Abadia, conhecida pelo aposento de acolhimento (Albergue) dos pobres e peregrinos, mandado construir pelo Pároco/Abade da Paróquia de então, Martin Velho Barreto, conforme narra a esculpida inscrição. Está esculpido nessa pedra o seguinte: “pauperes sempre habet vobiscum (pobres tereis sempre convosco.) – Martin Velho Barreto. Abade neste lugar dedica a Deus esta casa para os pobres peregrinos. Ano de 1692”
A totalidade ou parte dessa importante instalação residencial da Abadia Paroquial, cujo início da sua edificação remontará provavelmente muito tempo antes da tal inscrição de 1692, foi durante alguns séculos a mais importante em posses do concelho de “Terras de Monforte de Rio Livre” onde pertencemos outrora.
Essa data (1692) esculpida na pedra é de cinco anos anteriores à reconstrução total da Capela de São Miguel (1697), também conhecida por nós, por São Caetano, e trinta e cinco anos depois da construção da actual igreja matriz (1656), mandada edificar a seu custo pelo pároco Abade- Real da abadia de Santa Valha, Nuno Álvares, natural da Vila de Azambuja. Atendendo às datas das edificações da Igreja matriz e da Capela de São Miguel Arcanjo, a edificação da Abadia ou Casa Paroquial, remontará certamente a data anterior, ou quiçá, muito anterior a 1656.
A reconstrução da residência paroquial, (de que nos recordamos), por já em estado de ruínas, deu-se em finais da década de 1960, para residência paroquial do Padre da Paróquia António de Jesus Branco. Mais tarde, 1976, foi demolida toda a ala (sul) junto à estrada, desde o início da curva das Adufas até à praça, incluindo a antiga cozinha, a sala ao lado do aposento dos peregrinos e da sopa dos pobres, para dar lugar ao alargamento da estrada por parte da Junta Autónoma das Estradas (JAE). Depois, nas décadas de 1980 e 1990, esta habitação, já bastante mais reduzida, chegou a ter algumas pequenas obras de melhoramento e conservação, ainda na residência do Padre Alberto da Eira. Refira-se que o rompimento inicial da estrada de 1932 a 1934 veio a dividir as duas partes nos actuais moldes, que outrora, certamente pertenceu tudo só à casa paroquial.
Os alpendres da ala-norte que se encontravam em ruínas totais por motivo de incêndio, desde as primeiras décadas de 1900, foram em 1976 reconstruídos, particularmente na parte da cobertura, obra essa a cargo da Junta Autónoma de Estradas (JAE) para, de algum modo, compensar a cedência dos terrenos da ala norte para o alargamento da estrada.
Existiu nessa ala-norte até por volta do início de 1964 um lagar de pedra de fabricar o vinho com um pio também em pedra. Esse lagar foi vendido pelo padre José Ribeirinha Machado logo após a morte do saudoso padre João ao falecido senhor Francisco Fontoura Fernandes do bairro da Madalena (Stª. Maria Madalena).Todas as enormes pedras desse secular lagar e respectivo pio foram transferidas para casa desse senhor Francisco, agora dos seus dois filhos, num carro de madeira de bois de quatro rodas puxado por duas juntas, ao qual costumavam chamar de “cambão?”, propriedade de Constança Videira (casa Videira) do bairro dos Ciprestes. Esse enorme carro de bois de madeira, certamente o único na aldeia, só servia para transportar coisas de grande porte, sobretudo peso.
Hoje, desse enorme imóvel urbano, só resta uma parte da habitação e outra do anexo da ala norte já um pouco remodelado. A restante, como por exemplo: a (enorme) cozinha no rés-do-chão, a divisão da antiga escola primária, que ficava quase por cima dela (ver link. Escolas) situada mesmo na curva das Adufas, a uns escassos cinco ou seis metros da casa onde hoje de Fernando Barreira/Café Barreira; a divisão/aposentos dos peregrinos e pobres, e ainda, os restantes e enormes anexos da casa paroquial, tanto o da ala norte, como o da ala sul do pátio, a maior parte deles, constituídos por adega, forno de cozer, alpendres, cavalariças, estábulos, palheiro e outras dependências contíguas de recolha de produtos e outros bens agrícolas, que estavam situados na agora Avenida, Sede da Junta de Freguesia e parte do agora jardim, a uns escassos metros do muro do quintal da casa de João Fernandes (Pedrinho) e esposa Alice Evangelista, desapareceram com a demolição de 1976, atrás referida .
A casa em frente ou parte dela do falecido Dr. Luís Lopes (licenciado em Direito), agora de Maria Raquel Barros Alves, professora aposentada do ensino primário, chegou a servir também de cavalariça dos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela e, bastante mais tarde, de comércio a retalho de miudezas de uma pessoa chamada por Salvador, que penso ter sido (antigo) familiar da falecida Srª. Maria Cândida(?). Tinha a porta de acesso do comércio, mais conhecido popularmente nessa época por “soto ou loje(a)” virado para a igreja.
A imponente entrada principal da Abadia e de parte da sua Cerca, com aproximadamente quatro metros de altura e pouco mais de dois de largura, toda construída em granito, ficava situada no agora jardim, mais propriamente perto do lugar onde existe o actual moinho de ferro antigo de fazer o azeite. A maioria do povo ainda se recorda da existência de uma cruz e dois pilares/pirâmides e outras pedras, todas elas construídas em granito trabalhado/escavado, que existiam por cima da padieira da porta carral da entrada. Porém, nem mesmo os mais idosos, sabe dizer, qual o destino a que foi dado a parte dessas pedras da entrada e, particularmente, aos três símbolos e respectivas bases, retirados do local, quando da demolição da parede e dessa entrada, motivado pelo incêndio da última divisão dos aposentos (antigo espaço de teatro), que tinha acontecido em 1962 ou 1963. Todavia, vemos algumas (poucas) pedras das ombreiras dessa antiga entrada, nas laterais da agora porta de entrada do pátio da Abadia que dá para a estrada.
Todos esses trabalhos de demolição da foram da responsabilidade do padre José Ribeirinha Machado da paróquia de Vilarandelo, que a essa data (1963/1964) rezava missa em Santa Valha por falta de Abade – (outro mistério!? -). (ver essas imagens no Link: fotos antigas). Esse aposento/armazém danificado e toda a parede que ligava a entrada foram retirados, para dar lugar a uma nova parede em granito bastante mais baixa, vindo a aumentar e alargar substancialmente a estrada e o espaço da praça.
A pedra com a inscrição esculpida de 1692, que se encontra presentemente na curva das Adufas, mais concretamente no muro da Abadia Paroquial, em frente à habitação de Fernando Barreira/Café Barreira, estava anteriormente a servir de padieira da porta de um aposento denominado “aposento dos peregrinos e sopa dos pobres”, no rés-do-chão, junto à cozinha da casa paroquial, lugar esse, situado sensivelmente no mesmo local onde se encontra agora (ala sul). – *Tradução da inscrição esculpida: “Sempre tereis pobres convosco – Martim Velho Barreto – Abade neste lugar dedica a Deus esta casa – Pobres Peregrinos – 1692 “. De certeza absoluta, que a cozinha da casa paroquial (abadia) foi um local onde “matou” a fome a muitos pobres e se serviu uma sopa (malga de caldo) a quem necessitava, aquando da passagem de peregrinos por St. Valha, a caminho de Santiago de Compostela, um dos Santuários mais importantes da Europa e do mundo. Nessa época, ainda não se tinha dado o milagre de Fátima, que só veio a acontecer a 13 de Maio de 1917, data da primeira das três aparições da Virgem Maria aos Pastorinhos.
Santa Valha outrora localizava-se na rota do caminho de Santiago de Compostela da época românica. Há pessoas da nossa terra que dizem ter ouvido falar, que o nome de “Santa Valha” está inscrito/esculpido algures, na catedral/igreja de Santiago de Compostela. Não tenho certeza que essa inscrição exista, mas, se verdade, seria porventura o reconhecimento de algum ou de alguns peregrinos desse tempo, que passaram por cá, e que teriam sido bem acolhidos na nossa Abadia Paroquial que foi até há uns séculos atrás, Padroado – Real da Abadia de St. Valha, pertencendo-lhe as seguintes paróquias: Lugar de Santa Valha da Freguesia de Santa Eulália, Gorgoço, Pardelinha, Fornos do Pinhal e Bouça. O pároco era abade, representava o Padroado que tinha de renda patriarcal um conto [1 000 000 de réis]. Era esse o rendimento da abadia do Padroado-Real da Abadia de Santa Valha, no ano início do século XVII. Recorde-se, que os párocos do Padroado-Real eram da confiança do Rei e nomeados por si ao Bispo da Diocese, que lhes dava posse.
Dizem também os registos, que em 1653-1655, a contribuição dada pelos padres da paróquia para os rendimentos da Abadia de Santa Valha foram distribuídos da seguinte forma, Santa Valha: Reverendo Abade Nuno Álvares 6.700 reis; Padre António Álvares, cura do Calvo, 300 reis e Padre Gerónimo de Morais, 300 reis. Fornos do Pinhal: Padre Leonardo Teixeira, 400 reis e Padre José Teixeira, 300 reis. Bouça: Padre Francisco Fernandes, 400 reis.
Por volta de 1962 ou 1963, deflagrou durante a noite um grande incêndio que veio a consumir toda a última divisão (armazém) da ala-sul, situada muito perto da Capela de São Miguel, local esse onde era costume realizar algumas acções culturas da época, como, por exemplo, peças de teatro apresentadas por pessoas das nossa aldeia. Esse incêndio foi provocado por um cigarro mal apagado de um pobre, que pernoitou nesse local.
Numa das divisões de um dos dois armazéns ficava a adega e o celeiro, que serviam para guardar/armazenar os géneros da côngrua, tais como: vinho e cereal (centeio, milho, etc), que os paroquianos pagavam ao pároco anualmente para a sua sustentação, pois nesse época (+-) até finais da década de 1970 ou início de 80, poucos eram os que lhe pagavam em dinheiro.
Consta-se, que até ao século XIX, as casas vizinhas (quarteirão) de: João António Fernandes, “Pedrinho” como era respeitosamente conhecido, e esposa Alice Evangelista, “Aglai Ferreira Moura, e Fernando Alves, antigamente uma só moradia”, pertenceram todas à (Abadia) casa Paroquial, sem bem que na maioria delas a arquitectura inicial já foi alterada, particularmente a de João Pedrinho e Fernando Alves.
No cimo da padieira da porta carral da casa hoje completamente em ruínas por motivo de um incêndio em finais da década de 80 que pertenceu até à pouco tempo aos herdeiros de Aglai Ferreira Moura, agora também de Fernando Alves (2011), por compra, existiu até há dois ou três anos atrás, uma cruz e duas pirâmides em pedra. Essa senhora foi também antiga proprietária (por herança de seu avô “Cego da Coutada”) de um lameiro junto à eira das Lages, ainda hoje denominado por algumas pessoas mais idosas de “lameiro do Senhor” (assim como outras propriedades agrícolas próximas) por ter pertencido há mais de um século aos bens da Abadia Paroquial.
Na parede nascente da casa de habitação de Fernando Alves e esposa Aida, existe uma pedra rectangular em granito com a seguinte data romana esculpida: “ MDCCLXX “, equivalente ao tempo remoto de 1770. Esse antigo casarão pertenceu outrora, todo ele (incluído também todo o espaço agora da casa de Fernando Alves), ao “Cego da Coutada” de nome João Evangelista Fernandes e esposa Carlota Ferreira, mais tarde dos herdeiros, por compra, constando-se antigamente, ter sido essa compra menos clara e de contornos duvidosos bastante lesivos à Igreja, por parte de quem vendeu e de quem poderá ter ajudado no negócio da venda, adiante identificado.
No tocante à casa que pertenceu a João Pedrinho, sua esposa, Dona Alice, chegou a confirmar-nos pessoalmente o seguinte: que o imóvel , em tempos compreendidos entre de 1800 a 1900 (século XIX) foi propriedade da Abadia Paroquial, como aposentos de convento, colégio e casa de cultura só de padres e, que os exames eram feitos em Bragança.
Acrescentou todavia, que ainda existem alguns vestígios de referências a esse tempo, apesar de na nessa altura ter havido um incêndio que destruiu parte da casa que serviu também de ensaio de uma banda de música desse tempo. Já quando à casa, ou casas, que foi pertença antiga de João Evangelista Fernandes “Cego da Coutada”, já não temos essa certeza. Nota: João Evangelista Fernandes, mais conhecido por “Cego da Coutada” e João António Fernandes, também conhecido por “João Pedrinho”, apesar de terem o mesmo apelido não eram do mesmo laço familiar.
A (agora duas) propriedade agrícola e pinhal, delimitada pelo regato contíguo, que se prolonga para norte até à estrada para Pardelinha, agora pertencente a Agostinho Parauta e família herdeira de Cândido dos Santos, conhecida por “Cerca da Abadia” e ainda outras bastantes parcelas mas distantes, como alguns lameiros, terras de cultivo, vinha, etc., pertenceram à Casa Paroquial/Abadia. Existe mesmo um lameiro no lugar das Lages, perto da Eira que lhe dá o mesmo nome, agora propriedade dos herdeiros de Albino dos Santos, vulgarmente conhecido por “Carrazedo”, que ainda hoje é conhecido por muitos, por “Lameiro do Senhor”.
Consta-se, que nos finais da década de 1800, (Século XIX) ou princípio de 1900 (Século XX), esta enorme propriedade da Cerca da Abadia e de outras mais, doadas à Igreja, foram usurpadas e vendidas, em negócios menos claros, com documentos falsos e outras vigarices, com a possível cumplicidade de um tal “Contador de Fiães”, (espécie de Guarda Livros da Fazenda Pública/Chefe), de nome Miguel Machado, natural de Fiães, nascido em 1845 e falecido em 1916, proprietário agrícola, pessoa de posses, de influência pessoal e poder político, que exerceu várias vezes (até 1915) o cargo de Presidente do Partido Regenerador no Concelho de Valpaços, e ainda, Administrador/Autarca do nosso Concelho (Presidente da Câmara). Há ainda um ou outro que diz ter ouvido também que foi o próprio Estado, na altura de costas viradas com a igreja, que tido os bens à paróquia e os vendeu ficando com esse proveito e que o tal Contador de Fiães era boa pessoa, na altura muito respeitada, portanto, nada teve a ver com esses negócios.
Disseram-me algumas pessoas mais idosas, que se constava também, que essa propriedade conhecida pela “Cerca”, fora parar às mãos de uma família de Fornos do Pinhal, de nome António Gonçalves Pereira (agora pertencentes aos herdeiros de Cândido dos Santos), e outra parte (agora de Agostinho Parauta), a uma família de Barreiros, de nome Carminda Pereira Areias, mas que, quem adquiriu, poderá também ter alguma culpa, pois sabia com certeza, das vigarices de quem vendou e/ou ajudou a vender.
O testamento dessa propriedade encontra-se lavrado no túmulo do Padre Abade do Padroado-Real da Abadia de Santa Valha, Nuno Álvares, primeiro padre abade da nossa igreja matriz. Essa sepultura encontra-se junto ao Altar-mor e que diz o seguinte:
“E deixou em seu testamento que, depois da morte de sua irmã Inês Monteiro, suas casas e cerca ficassem aos parochos vindouros desta abbadia com obrigação de duas missas em cada semana e dois ofícios em cada ano, para sempre, de seis clérigos como é costume, e deixou mais que os parochos dessem em cada ano aos frades de Chaves V almudes de vinho, pelas missas da fazenda da Cerca. Era de 1656”.
Por volta por início da década de 1950, chegou mesmo a haver uma revolta popular na aldeia com tomada de posses dessas propriedades, liderada pelo Senhor. Lafaiette Alves e outros conterrâneos, como por exemplo: Manuel Guedes, Augusto Ervões (Soqueiro), Clemência e Cândida Gonçalves, etc., etc., com sentido único de repor a legalidade desse (falso) negócio. Chegaram a ocupar esses terrenos para os devolver de imediato ao seu legítimo dono, a Igreja. Alguns populares chegaram mesmo a construir lá um campo de futebol, e extrair parte da cortiça dos sobreiros da quinta/cerca, armazenando-a, escondida, na Capela de Santa Maria Madalena. Essa cortiça foi maioritariamente transportada pelas fianças da aldeia. De referir ainda que o rompimento da estrada de 1932/1934 veio a cortar uma pequena parcela da quinta, encostada ao bairro de Santa Maria Madalena, local onde se encontra a residência e quintal de Luís Mofreita e esposa Olga Lopes.
Porém, os novos donos de então, ao tomarem conhecimento da situação, comunicaram de imediato às autoridades e à justiça, tendo vindo a ser detidas e espancadas várias pessoas, e ainda, obrigadas a pagar algum dinheiro de multa pelo acto de ocupação. Disseram-me ainda muitas pessoas que assistiram e participaram, ter o sino da igreja tocado várias vezes a rebate para o povo se ajuntar, tendo em vista a ocupação dos terrenos, assim como ter havido uma grande zaragata, aquando da intervenção das autoridades.
Ainda se recordam também de uma frase que todos diziam em voz alta no momento da concentração, revolta, e ocupação, e que era a seguinte:: A Cerca é da Igreja!!!. A Cerca é da Igreja!!!. A Cerca é da Igreja!., bem assim como de uns versos cantados alusivos ao facto:
*A Cerca!, A Cerca!, A Cerca!, – A Cerca é da Igreja,. – O Povo assim o diz, – Deus queira que assim seja.
Nem Fornos, nem Barreiros, – Vencerão a questão, – Mas sim os de Santa Valha, – Que têm toda a razão.
**Certo é, que a nossa Igreja, acabou por ficar sem esse valioso património, que lhes pertenceu por direito e que deveria estar hoje registado nos termos da Lei, conjuntamente com os actuais bens imóveis na Repartição de Finanças e Conservatória do Registo Predial, em nome da actual “FÁBRICA DA IGREJA PAROQUIAL DA FREGUESIA DE SANTA VALHA” COM O NIF: 502259299.
No centro do pátio da casa paroquial, existe um lagar cavado na rocha, com a superfície de (+-) 2mx2m, que se consta ter sido um lagar antigo de fazer o vinho, parecido com alguns que existem nos montes da nossa aldeia, de origem castreja ou romana. Esse lagar foi soterrado no final da década de 1970 ou início de 1980, aquando do arranjo/nivelamento do pavimento do pátio, por parte da Comissão de Festas.
A casa antiga de habitação com pátio e dependências de frente para o largo da Igreja, talvez de construção de finais do século XVII a meados de XVIII, que pertence hoje aos herdeiros de Augusto Parauta, respeitosamente mais conhecido na freguesia por “Augusto Fragueiro: família Parauta”, foi antiga propriedade da “Casa dos Sarmentos ou (A)Ciprestes”. Esta casa foi vendida ao novo proprietário por volta de 1976. Ninguém consegue explicar, nem mesmo a gente mais idosa da verdadeira história inicial deste imóvel, principalmente o que levou os antigos morgados da casa dos Ciprestes a adquirir imóvel, uma vez que nunca se constou ter sido habitado por eles ou alguém da família. Deixo aqui registada também a seguinte dúvida: será que não chegou a pertencer também ele há um século ou mais atrás ao património da nossa Abadia Paroquial, também inexplicadamente vendido(???) da mesma forma de tantas outras propriedades que conhecemos já referidas anteriormente, onde a Igreja nunca foi tida nem achada, nem veio a receber um cêntimo desse produto.
Se repararmos nas esquinas da casa construídas em granito lavrado de cantaria fina, verificamos, que são bem-parecidas com as da Capela em frente de São Miguel e até de certo modo com as da Igreja. Também o reboco das paredes em barro da época se assemelha.
Enfim, negócios duvidosos de alguns políticos e de outros interesseiros com poder da época que já vinha do tempo do Marquês de Pombal, que se foi estendendo aos gulosos do tempo da transição do regime monárquico para o republicano, onde a igreja foi altamente saqueada de parte do seu património. Todavia, tal como as anteriores, não tenho a certeza.
Seria de todo desejável que a parte residencial da Abadia que ainda resta fosse novamente restaurada ou até mesmo requalificada para outro qualquer nobre fim.
Abadia de St. Valha: Igrejas e lugares que outrora lhe pertenceram:
Consta num livro do século XVII (primeira metade do século VXIII), abaixo identificado, que pertenciam nessa data à Abadia de St. Valha, os seguintes lugares, bem assim como os respectivos rendimentos paroquiais: Santa Valha, Fornos do Pinhal, Pardelinha, Bouça e Gorgoço.
“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
(1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre [pp. 432 – 433]
[conforme o original]
Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem.
Santa Valha he cabeça da Abbadia do Padroado Real, que rende setecentos mil reis: tem este lugar, & a quinta de Calvo da sua Freguesia cento & trinta visinhos, & demais da Igreja Matriz tem huma Ermida, & vinte fontes.
Fornos tem noventa visinhos, Igreja Paroquial da apresentação do Abbade de Santavalha, mais huma Ermida, & oito fontes.
Paradelinha tem 16. Visinhos, nenhuma Ermida, & seis fontes.
Bouça tem cincoenta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, nenhuma Ermida, & huma fonte.
Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.
***Nota pessoal: Não obstante o nascimento da paróquia de Fornos do Pinhal ter acontecido aos (11/01/1505?) 11/01/1545, pela descrição da certidão do contracto de atribuição de certa autonomia de desanexação da matriz paroquial com Santa Valha, algumas obrigações, como, por exemplo, o pagamento da dízima anual, continuou a ser paga dos mesmos moldes, dado continuar a ser o abade de Santa Valha o representante legal dessa nova paróquia.
Penso, que só passado um ano, ou seja: por volta de meados do século XVII, é que essa autonomia se tornou definitiva, feita e assinada já pelo Licenciado Abade e Padre Nuno Álvares, que administrava a Paróquia e a Abadia de Santa Valha.
Quanto à desanexação parcial ou definitiva da paróquia da Bouça, na altura pertencente ao concelho de Monforte de Rio Livre (hoje do concelho de Mirandela), também nesse temo integrada à paróquia de Santa Valha, nada consegui saber.
Oragos ou Padroeiros de quem pertenceu à Abadia-real de Santa Valha no início século VIII:
Santa Valha: Santa Eulália; Fornos do Pinhal: S. João Batista e Bouça: Nª. Senhora da Assunção
*** Recorde-se que a paróquia de “SantaAla, abreviado Santala” (agora Santa Valha) foi uma das seis que integraram, desde o início concelho de Monforte de Rio Livre, instituído por foral de D. Afonso III, de 4 de Setembro de 1273. E aí se manteve como uma das mais importantes freguesias, especialmente em termos de rendimento paroquial e população, durante quase 600 anos.
*** De acordo com as Inquirições, foram identificadas em 1258, as seguintes seis paróquias, no então julgado de Rio Livre:
Incipit parrochia sancti Pietri de Batocas; Incipit parrochia sancti Johannis da Castineyra; Incipit parrochia sancti Michaelis de Feeaes; Incipit parrochia sancti Marie de Riparia; Incipit parrochia de Santala; Incipit parrochia sancte Marie de Tiela.
No passado remoto, Monforte foi conhecido por Batocas – civitate de Batocas – considerado um importante aldeamento romano, tal como a Cota de Mairos.
Com as freguesias assim descritas: S. pedro de Batocas; S. João da Castanheira; S. Miguel de Fiães; Santa Maria da Ribeira, mais tarde de Bouçoais; Santala (Santa Valha) e Santa Maria de Tiela (Tinhela), foi criado o concelho de Monforte de Rio Livre, passados 15 anos, com foral atribuído por D. Afonso III, em 4 de Setembro de 1273.
Pelas Inquirições em análise, podemos concluir que estamos perante seis “igrejas próprias” nascidas durante o período de Reconquista Cristã desenvolvido, entre nós, do século IX ao século XIII. Concluímos também, que as mesmas igrejas se encontravam organizadas, sob forma de paróquia, no julgado de Rio Livre, já naquela data. Nas igrejas próprias que vemos aparecer, nos territórios reconquistados, nos finais do século IX, os direitos dos seus fundadores transformaram-se, nos finais do século XII, em direitos de padroado.
No que respeita à antiguidade das seis igrejas, existe referência à igreja de Santa Maria da Ribeira, como sendo muito antiga, provavelmente a mais antiga das seis.
De acordo com o testemunho de Martinho Rodrigues, prelado da mesma igreja, ….. ipsa ecclesia fuit facta de veteri tenpore ….
* Fonte: Texto publicado no Livro “ Monforte de Rio Livre – História, Lugares e Afectos – 1273 – 1853 de Maria Aline Ferreira, Editado em Março de 2015.
Abades Residentes na Casa Paroquial da nossa Nobre Paróquia:
Que se saiba, desde 1515, foram 20 Padres/Abades a residir na casa paroquial da nossa nobre paróquia.
O abade mais antigo de que há registo foi Aires Gonçalves. Encontrava-se provido na igreja de Santa Olaia, em 1515, quando foi solicitado para presenciar as formalidades de integração da igreja respectiva, na ordem militar de Cristo.
Desde 1873 a 1910 foi o (pároco colado) Dr. José Maria da Cunha, doutorado em teologia pela Universidade de Coimbra onde nasceu. Veio para Bragança como secretário do Bispo. Este padre foi pároco em Santa Valha até à entrada da República durante quase 40 anos, sem que o povo quase desse por conta. O padre José Gonçalves Chaves, coadjutor da igreja nesse tempo, desempenhava todas as funções religiosas da paróquia, assim como a representação do titular da mesma na Junta de Freguesia em que era presidente. Mas são várias vezes em que José Maria Cunha é referido como participante nos custos das obras e alfaias da igreja, sob a forma de donativos. A construção do cemitério em 1903 foi de sua responsabilidade de acordo com os registos da época.
José Gonçalves Chaves era tio do padre abade João dos Santos Ferreira.
De 1908 a 1962 João dos Santos Ferreira, Cura e Coadjutor da Freguesia e Presidência da Junta da Paróquia, “padre João” como era mais conhecido (pároco colado e titular da paróquia e Arcipreste de Monforte de Rio Livre). De 1962(?) 1965 a 1976, António de Jesus Branco (Titular). Por último, Alberto Gonçalves da Eira (Titular), desde 14-08-1977 até 1999 ou 2000, data da construção da sua residência particular em Santa Valha.
Depois do pároco Alberto da Eira, ninguém mais residiu na habitação da casa paroquial.
Refira-se, que a designação de “Abade” foi extinta por Lei por volta de 1833, data também da extinção das dízimas. Com a (tumultuosa) extinção da monarquia (constitucional) e implantação da República em 1910 (pela força), o Estado em 1911 criou a Lei de separação da Igreja/Estado e extinguiu todos os Padroados-reais.
Nota: Informação colhida do livro “Freguesia de Santa Valha – História e Património” de Maria Aline Ferreira (Drª.) publicado em 09 de Abril de 2017.
Padres da nossa Paróquia:
Desde 1908, foram estes os padres da nossa Santa Valha, sede de freguesia e de paróquia:
João dos Santos Ferreira, natural de Santo António de Monforte do concelho de Chaves, desde 1908 a 16 de Abril de 1962, data de seu falecimento em Santa Valha. Padre João, como sempre foi conhecido e chamado. Reverendo Abade da nossa paróquia e Arcipreste de Monforte durante muitas décadas e Cura Coadjutor da Freguesia e Presidente da Junta da Paróquia. Chegou também a participar de figurante nas Endoenças em Santa Valha que se realizaram até à década de 1940.
O padre João e dos pobres como era conhecido, foi sepultado na sua terra natal, Curral de Vacas, agora denominado Santo António de Monforte, do concelho de chaves. A lápide a indicar a sua sepultura encontra-se cravada numa das paredes do túmulo de família.
Com a extinção da Monarquia e a implantação da República de 1910, a Lei da Separação de 1911 extinguiu todos os Padroados-reais.
Antes da vinda do Padre João dos Santos Ferreira para a nossa paróquia, terá sido o tio dele, chamado José Gonçalves Chaves – penso que natural do concelho de Chaves – Curral de Vacas, agora Santo António de Monforte(?) – a exercer esse cargo durante quase quatro décadas por conta do padre (oficial) Dr. José Maria da Cunha e que o corpo desse padre José Gonçalves Chaves está sepultado num túmulo do nosso cemitério, chamado túmulo ou jazigo dos padres (?), recentemente adquirido pela família Barreira do bairro dos Ciprestes. Para além desse sacerdote ninguém se recorda de lá ter sido sepultado mais ninguém.
O padre José Chaves foi ainda durante muito tempo (1890 a 1908), Presidente da Junta de Freguesia. Dizem ter sido o principal obreiro e grande lutador, como pároco e como presidente da Junta, pela construção do novo cemitério, em 1903.
Seguiram-se os padres: José Azevedo e José Ribeirinha Machado, ambos de Vilarandelo, desde 1962 até por volta de 1965; António de Jesus Branco, natural do Concelho de Montalegre, desde meados da década de 1960 até 1976; José do Nascimento Bernardo, até 1977. Alberto Gonçalves da Eira, natural de Azeveda, freguesia de Limões do Concelho de Ribeira de Pena, desde 14 de Agosto de 1977 a 30 de Setembro de 2012; para além de padre foi também professor do ensino secundário em Valpaços até se reformar como tal. José Carlos dos Anjos Reigada, natural de Roriz do Concelho de Chaves. A posse foi-lhe conferida pelo Sr. Bispo na nossa igreja a 30 de Setembro de 2012. Nesse mesmo acto também tomou posse das paróquias de Bouçoães, Sonim e Barreiros. É ainda sacerdote das paróquias para além de outras, das freguesias Lebução e Fiães, onde já vem exercendo há algum tempo. João Filipe Pires Dias, natural de Valverde, Selhariz – Chaves, ordenado padre a 07 de Julho de 2013 pela Diocese de Vila Real. A posse foi-lhe conferida pelo Senhor Bispo da Diocese na nossa igreja a 29 de Setembro de 2013, onde vai também acumular funções sacerdotais nas paróquias de Fornos do Pinhal, Rio Torto, Água Revés e Crasto e Sanfins. O padre Alberto Gonçalves da Eira, que tinha saído para outras paróquias em 30 de Setembro de 2012 e com a sua nomeação de novo Arcipreste do Arciprestado da Terra Quente desde essa data, regressou à nossa paróquia em 27 de Setembro de 2015, tendo a posse sido conferida pelo senhor Bispo da Diocese, Dom Amândio, na missa dominical desse mesmo dia.
Nota: Recorde-se, que até por volta de 1965, as missas eram -obrigatoriamente- realizadas em latim, sendo provavelmente o padre Alberto da Eira, o ultimo padre da nossa paróquia, a o ter feito numa ou outra missa até uns anos mais tarde. Duas décadas mais tarde,1983, deixou se ser obrigatório o uso do véu na missa por parte das mulheres.
Sacristães da Paróquia e Sino da Igreja:
O último Sacristão “à moda antiga” da nossa paróquia foi Victor Fernandes, Kiko, alcunha que já vinha de criança após chegar do Brasil e que alguns respeitosamente lhe chamavam. Exerceu esse cargo religioso desde a década de 1930, até meados da década de 1990. Durante esse período, ainda chegaram a ser também Sacristães, – mas por períodos relativamente curtos -, Cândido dos Santos, Francisco Batista, conhecido também por “Roque”, Celestino Domingues, também conhecido pelo Néné e o irmão Artur, também conhecido por “Praça ou Zé Velho”.
A substituição da pessoa “Sacristão” aconteceu com a entrada em funcionamento das novas tecnologias, tais como a do relógio automático de dar horas, associado ao sistema também automático do toque do sino para os vários serviços da igreja que o sacristão anteriormente (muito bem) executava, quer através da secular corrente de ferro que existia até há poucos anos atrás pendurada junto à porta principal e que ligava aos sinos, quer através do (saudoso) toque pessoal dos sinos no campanário, que o Victor Fernandes fazia com aquela mestria que só ele sabia fazer, apesar de bastante dificuldade de visão.
Em finais da década 1960 e até meados de 70, o sacristão recebia (5$00) cinco escudos por cada vez que subia ao campanário da igreja para tocar sinais por falecimento de alguém. Por norma costumava tocar três: de manhã, de tarde e ao fim do dia, o que equivalia a 15$00 por óbito.
Com a saída então de Victor Fernandes como sacristão em meados da década de 90, a substituta foi a irmã do Senhor Padre Alberto, Bárbara da Eira, que se tem mantido a auxiliar o senhor padre até ao presente (2015), se bem que já com tarefas mais reduzidas e um pouco diferentes, fruto do progresso e modernidade que também tem acompanhado a igreja.
Ainda sobre a corrente de ferro que servia para fazer tocar os sinos, somos de opinião, de que a mesma deveria voltar o seu local de origem, mesmo que não voltasse mais a ser utilizada para o fim religioso, pois trata-se de uma peça de ferramenta que já vem do tempo da construção da igreja e que faz parte do seu/nosso património cultural.
Quando o sacristão, por qualquer motivo, não podia tocar o sino no campanário para os serviços religiosos, havia sempre algumas pessoas que o fazia através da corrente que existia.
O sino era e, continua a ser, uma peça fundamental e imprescindível nas igrejas do meio rural como a nosso, pois para além do serviço da igreja, serve ainda para avisar as pessoas de alguma situação anormal que se está a passar na aldeia. Serve ainda para reunir de urgência todas as pessoas disponíveis quando há incêndios em habitações ou outros bens em perigo com motivos de grande urgência e de imediata acção. Chama-se a isto: tocar o sino a rebate.
No início da década de 2000, foi instalada no telhado da Sede da Junta de Freguesia, por esta, uma sirene eléctrica, destinada a avisar o povo da freguesia de qualquer eventual situação de emergência. Contudo, esta máquina, pode avariar a qualquer momento ou até não haver electricidade no momento da utilização para a fazer funcionar. Aí está a “corrente e o sino” para a substituir.
O sino da igreja teve e, continua a ter, uma função muito importante junto de todas as comunidades, principalmente nos meios mais isolados do nosso país.
Juventude Agrária e Rural Católica (JARC):
A “JARC” é um movimento de jovens católicos residentes em zonas rurais cuja função é a evangelização e o desenvolvimento do meio rural. Foi fundada na década de 1930, com a criação de movimentos de Acção Católica. Inicialmente denominada “JAC” (Juventude Agrária Católica), atingiu o auge de implantação e participação na década de 1960. Em 1985 passou a chamar-se “JARC”, com estatutos aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa.
Em Santa Valha também chegou a existir até ao início da década de 1950 essa organização de jovens católicos, na altura denominada por “JAC”.
As principais tarefas ligadas às actividades da igreja e da nossa comunidade eram as seguintes: Arranjo da Igreja e Capelas; Catequese; Cânticos Religiosos; Participação na organização de Comunhões, Crismas, Procissões, e outras festas da igreja, e ainda, visita aos enfermos.
A maioria dos jovens participantes era raparigas. Nas actividades oficiais católicas tinham obrigatoriamente de usar o seguinte vestuário: saia, blusa e lenço ao pescoço, tudo de cor azul.
Entre outras(os), lembro aqui alguns elementos dessa tal organização:
Cândida Garcia “Daniela”; Maria “Ferreirinha”; Maria Conceição Lopes; Leonor e Clementina Lopes; Emília Lopes; Mariazinha e Celeste Lampaça; Margarida Ferreira Cagigal (Carlota); Cândido dos Santos e José Maria (Cagigal). As Mascotes do “último grupo” que existiu na nossa aldeia foram: Olga Lopes Reis, mais conhecida por Guida Lopes e Marina Lopes Morais Soares.
Primeira Festa em Honra de São Caetano e Outras:
São Caetano “de Thiene” é o padroeiro ou patrono da festa de Santa Valha, Santo protector que o nosso povo venera com muita fé e devoção. A sua imagem encontra-se, e muito bem, no interior da capela de São Miguel, mais propriamente no Altar, ao lado de São Miguel. No altar, existem duas imagens de São Caetano, assim conhecidas: São Caetano “Velho” e São Caetano “Novo”.
Consta-se, que a imagem “nova” de São Caetano foi adquirida na década de 1950, por uma das comissões de festas, em virtude da imagem antiga já estar um pouco danificada porventura devido à colocação no andor nas procissões das festas, ou ainda, por ter sido enviada a imagem antiga para restauro por esse ou outro qualquer motivo.
Há ainda algumas pessoas que confundem o padroeiro da festa de Santa Valha, que é São Caetano, com a Padroeira da Paróquia (Orago) de Santa Valha, que é Santa Eulália “de Mérida”, cuja imagem desta Santa encontra-se no Altar-Mor da nossa Igreja Matriz.
São Caetano de Thiene, nasceu em 01 de Outubro de 1480 em Vicenza, Itália e faleceu a 7 de Agosto de 1547 com 66 anos em Nápoles. Foi beatificado em 8 de Outubro de 1629 em Roma pelo Papa Urbano VIII e canonizado a 12 de Abril de 1671 pelo Papa Clemente X . É conhecido como Santo da Providência, Patrono do Pão e do Trabalho e Pacificador dos Populares. É ainda Padroeiro dos Gestores Administrativos, assim como das pessoas que buscam trabalho e dos desempregados. Estudou Direito e em 1506 trabalhou como Diplomata para o Papa Júlio II. As suas relíquias estão guardadas em Munique (Alemanha) e em Nápoles. A data da sua comemoração ou celebração católica é a 7 de Agosto, data da sua morte.
A primeira festa na nossa terra em honra desse Santo data de 1950. Para essa primeira festa, foram eleitos 10 Comissários, quase todos eles com algumas posses: António Avelino da Cunha (Toninho), Francisco Luís Alberto “Ferruge”, João Cardoso “Ribeiro”, José Domingues (Sarrá), Domingos Lopes, Cândido dos Santos, Lafaiette Alves, José Vicente Gonçalves (Feijão),
Francisco Batista (Roque) e Maurício Morais. Todos estes comissários, excepo um, entraram com uma manda ou donativo pessoal de 100 escudos (moeda de agora 0,50 €), cada um, bastante dinheiro na época. Contudo há divergência de memória, por parte alguns desses mais idosos, quanto à primeira Banda Musical a actuar nesse ano de inauguração: Banda Musical de Valpaços, de Vilarandelo, de Rio Torto, ou ainda de Mateus (Vila Real)?
No contacto que tive com essas tais pessoas idosas, contaram-me todavia, que antes de se realizar em 1950 a primeira festa em honra de “São Caetano”, era costume festejar anualmente na aldeia “Santa Bárbara”, “ São Sebastião” e “ Senhor (da Boa-Morte) ”. Mas era a festa do Senhor da Boa-Morte” que se realizava no lugar do cruzeiro, mais tarde (1941/1942) capelinha do “Senhor da Boa-Morte”, no dia do Corpo de Deus a mais popular por haver festa religiosa e profana. A festa em Janeiro do mártire São Sebastião era, para além de vários festejos associados, a festa do leilão do fumeiro e de outras partes do porco curado no sal, tudo a favor do Santo. Para todas essas festas eram nomeados mordomos, sendo um para a festa a Santa Bárbara, outro para a de São Sebastião e três ou quatro para a do Senhor da Boa-Morte.
As bonitas imagens de Santa Bárbara e São Sebastião encontram-se na igreja matriz.
Não obstante o dia de São Caetano ser celebrado no dia 7 de Agosto, na nossa aldeia, que nos recordamos, nunca coincidiu com essa data. Foi sempre realizada no “segundo domingo” do mês de Agosto, excepto uma única vez, no ano de 1983.
A comissão de festas desse ano, cujos mordomos eram, entre outros: Manuel Barrosão, José (Zé) Domingues, Jaime e Fernando Alves e ainda Vicente Domingues, resolveu, por iniciativa própria, antecipar o dia festivo para o domingo da semana anterior, se bem que de não muito agrado da maioria da população. Aconteceu, porém, que por volta das 15 horas da tarde desse dia, antes de se realizar a procissão, despenhou-se uma enorme tempestade de trovoada, tipo tromba de água, com mais incidência sobre a parte poente e centro da aldeia e com vários prejuízos para muita gente, particularmente nos comerciantes. A água chegou a atingir em certos locais da aldeia mais de meio metro de altura, mas há hora da procissão (18 horas), nem uma pequena nuvem se via no céu ou vestígio de tempo menos bom.
Desde a primeira festa de 1950 até á data de hoje (2013), só por duas ou três vezes é que se não realizou festa na nossa aldeia em honra do nosso São Caetano. O motivo deveu-se à não-aceitação ou tomada de posse dos comissários ou mordomos que tinham sido eleitos.
As quatro bocas de altifalantes da música de gira-discos que enchiam de som toda a aldeia eram colocados no cimo da torre frontal da capela, com duas bocas viradas para a frente e duas para trás. Nos primeiros anos de festa houve só banda filarmónica.
Por volta de 2003 ou 2004 a majestosa procissão da festa deixou de ter o trajecto habitual e tradicional, que passava pelos quatro principais bairros da aldeia, ou seja: saía da igreja em direção ao bairro da Madalena, hoje e bem, Stª. Maria Madalena; descia pela estrada, entrava no bairro dos Ciprestes pela mesma rua em direcção à rua do Vilar; por esta até à curva das Adufas; subia e seguia pelas ruas do Sobreiró e Fontela até ao bairro do Pontão, pela mesma rua e das escolas até novamente à praça/igreja, onde finalizava. Os andores até esse tempo eram de bastante maior porte, obrigando por vezes no trajecto ao corte de várias pernadas de árvores que se encontravam viradas para os caminhos.
Desde então, continua e continuará a existir certamente um enorme descontentamento e lamento por parte dos residentes dos bairros dos Ciprestes e Sobreiró pela alteração desse trajecto, que diz o povo ter sido alterado por imposição única do pároco Alberto da Eira. Se ouve influência de mais alguém, não se sabe.
Os mais idosos não sabem explicar nem se recordam de terem ouvido falar aos seus antepassados, o motivo ou razão pelo qual nunca se festejou até 1950 na aldeia São Caetano, nem mesmo São Miguel e Santa Maria Madalena até à presente data de hoje (2015), cujas imagens sempre tiveram um espaço próprio edificado de acolhimento. A imagem de São Miguel saiu pela primeira vez à rua num andor para fazer parte da procissão da festa de São Caetano de 2013. O andor desse Santo foi todo ornamentado em pano. No ano seguinte foi ornamentado em flores naturais.
Que se tenha conhecimento, só em 10 de Dezembro de 1994, dia de seu aniversário, é que se realizou pela primeira vez na nossa aldeia um pequeno festejo religioso em honra da nossa Padroeira, Santa Eulália (de Mérida), composto por uma missa cantada, seguida de sermão prégado pelo padre e Arcipreste, Dr. Manuel Alves, da paróquia de Valpaços.
No fim do festejo foi atirada uma descarga de fogo-de-artifício pelo senhor Filipe Dionísio do Nascimento que pertencia à Comissão Fabriqueira da Igreja.
As mordomas e angariadoras do peditório de perto de vinte e nove mil escudos (144€) para esse bonito festejo foram as senhoras Dª. Josefa Tender e Dª. Bárbara da Eira. Desse peditório e depois de contas feitas, restou perto de nove mil escudos, saldo entregue pelas mordomas à Comissão Fabriqueira.
De referir ainda, que a bandeira estandarte dedicada à padroeira Stª. Eulália foi comprada em finais de Março de 2003 também por peditório popular das mesmas pessoas, que juntou 897,55€.
Santa Valha, 2008/2018
Santa Eulália, Padroeira da Paróquia de Stª. Valha- Festa de Homenagem, Origem e Nome:
Que se tenha conhecimento, só em 10 de Dezembro de 1994, dia de seu aniversário, é que se realizou pela primeira vez na nossa aldeia um pequeno festejo religioso em honra da nossa Padroeira, Santa Eulália, composto por uma missa cantada, seguida de sermão prégado pelo padre e Arcipreste, Dr. Manuel Alves, da paróquia de Valpaços.
No fim do festejo foi atirada uma descarga de fogo-de-artifício pelo senhor Filipe Dionísio do Nascimento que pertencia à Comissão Fabriqueira da Igreja.
As mordomas e angariadoras do peditório de perto de vinte e nove mil escudos (144€) para esse bonito festejo foram as senhoras Dª. Josefa Tender e Dª. Bárbara da Eira. Desse peditório e depois de contas feitas, restou perto de nove mil escudos, saldo entregue pelas mordomas à Comissão Fabriqueira.
De referir ainda, que a bandeira estandarte dedicada à padroeira Stª. Eulália foi comprada em finais de Março de 2003 também por peditório popular das mesmas pessoas, que juntou 897,55€.
Santa Valha, 2008/2018
15-12-2024: Cartaz do “2º. Festejo em honra da Padroeira, Santa Eulália”
Homenagem à Padroeira, Santa Eulália.
Foi com toda a pompa e circunstancia que se realizou no passado domingo, dia 15, o festejo de homenagem à nossa padroeira, Santa Eulália (de Mérida/Espanha).
Que se tenha conhecimento na aldeia, esta foi a “segunda” festa religiosa dedicada à nossa Padroeira. A primeira homenagem, também a cargo da Comissão Fabriqueira de então, realizou-se a 10 de dezembro de 1994, dia de homenagem litúrgica ou oficial.
A eucaristia, por volta das 10 horas e com a igreja cheia de fiéis, foi presidida pelo padre da paróquia José Carlos Reigada que, na sua bonita homilia, abordou a história completa da vida desta imaculada Santa, virgem e mártir, assassinada no ano 290 D.C. com cerca de 14 anos de idade, a mando do imperador romano Maximiano, por confessar e divulgar o seu cristianismo e não lhe ter obedecido para que viesse a desistir.
Para abrilhantar ainda mais a Santa Missa, o Rancho Folclórico de Santa Valha fez-se representar com o seu Grupo Coral trajado a rigor, onde ajudou aos cânticos das canções religiosas e espirituais, com destaque para o Hino da Padroeira de Santa Valha e de outra canção muito bonita para rematar a missa, merecedor de uma salva de palmas por parte fiéis.
No fim da eucaristia o Sr. Padre aproveitou a oportunidade para mostrar a quem não conhecia, dois objetos sagrados de elevada importância e valor que fazem parte do património da nossa igreja, que são a Sagrada Custódia, o Cálice e a bandeja, todos em ouro, que foram outrora oferecidos pelos padres abades da nossa paróquia, Nuno Álvares e Martin Velho Barreto, respetivamente. Consta-se que, por motivos de segurança, este património com muito valor e significado, encontra-se guardado em lugar desconhecido na aldeia.
Deixo aqui uma especial saudação a todos os elementos da Comissão Fabriqueira pela forma como estava tudo muito bem organizado, nomeadamente o Stand da Quermesse à entrada da igreja, com inúmeros produtos agrícolas e outros variados para venda oferecidos pelo povo e ainda rifas para sorteio, onde se incluía também um saboroso café bem quente nesta manhã fria de 3/4 negativos, e os restantes comes e bebes durante todo o dia.
De referir por último, que os fundos angariados destinam-se às obras de restauro dos altares já em curso e de outros de conservação da igreja.
Uma vez, mais uma saudação e um bem-haja à Comissão Fabriqueira e a todos os que colaboraram com ela para tornar possível esta majestosa homenagem. A nossa Padroeira agradece e vai rogar certamente por nós, sempre.
Nota: As fotos publicadas foram tiradas antes da celebração da missa ainda na preparação e organização final do Stand da Quermesse.
(Amílcar Rôlo/Lilo) – 16-12-2024
Origem da Imagem da nossa Padroeira ou Orago, “Santa Eulália”, e seu nome.
Desde sempre se ouviu na aldeia várias versões sobre a origem da imagem de Santa Eulália (de Mérida), Padroeira ou Orago de Santa Valha, que está no Altar-mor da igreja matriz e que são as seguintes:
*Terá sido adquirida no tempo do Padre Nuno Alvares, natural de Vila de Azambuja, Abade Licenciado do Padroado Real da Paróquia e Abadia de Santa Valha, que mandou edificar a igreja à sua custa entre os anos de 1655 e 1656.
*Terá sido trazida por pregadores do Evangelho de Cristo, antes da construção da actual igreja matriz.
*Terá vindo já como nossa Padroeira ou Patrona de uma outra igreja que existiu antes da actual, a primeira igreja de Santa Valha, de arquitectura pobre, localizada a sul da aldeia, no conhecido monte de Santa Olaia (Eulália), contíguo do vizinho Crasto/Castro, construção que poderá remontar aos séculos XII ou XIII da Baixa Idade Média, ou seja: muito antes da Idade Média Medieval, cujos únicos vestígios que existem são, o de um antigo cemitério público cristão, local onde se encontra ainda uma cruz ou cruzeiro, um sarcófago e inúmeros fragmentos de tijolo ou telha artesanais da época com bastante espessura.
Dada a antiguidade da imagem desta Santa e da longínqua história da nossa aldeia em particular, nomeadamente o seu provável primeiro nome “Santaala” (como nos contam os documentos ou manuscritos das Inquirições de 1258), seguido mais tarde de “Santa Valha” a partir do início do século XVI (1515), é esta a versão que consideramos mais credível de todas.
De acordo com os registos antigos que existem, ao longo dos séculos, a Padroeira foi conhecida e chamada na nossa aldeia da seguinte forma: Santaala, Santa Ovaya/Ovalha, Santa Olaia e por último, Santa Eulália. A evolução fonética do nome é algo contraditório, Santa Eulália: Sant` Olaia> Santabaia>Sant`alha>Santala>Santaala>”Santa Valha”.
A imagem de Santa Eulália poderá ser tão antiga, como a nossa aldeia primitiva. Chegou mesmo no início, o seu nome a confundir-se com o nome da própria aldeia e freguesia. Se pouco ou quase nada se sabe do porquê desta Santa ter sido adoptada como Padroeira, muito menos do motivo do nome da Aldeia, cujo seu nome e forma como se chamou foi evoluindo ao longo dos séculos.
Santa Valha, 2008/2018
Festa de São Caetano da minha terra, “contada por Carlos Sá”.
A nossa festa foi e, continua a ser, no segundo domingo do mês de Agosto.
Em tempos passados, nesse dia, era mesmo dia de festa, com muito gosto, animação e também alguma ansiedade, particularmente para a rapaziada.
Adornavam-se muitos andores, cada qual inspirado no mais bonito Santo da Paróquia, com o de São Caetano a marcar diferença, estes, a cargo, quase sempre, do andoreiro de Fornos do Pinhal, senhor Pinheiro. Eram tão grandes que era preciso força e habilidade para continuar o passo, mas a mestria dos orientadores no percurso dos quatro bairros, Benjamim Picamilho, Aniceto Picamilho, Amador e António “Arrobas”, fazia com que tudo corresse afinado.
Começava o dia com o mais entusiasta e melhor pirotécnico da nossa terra, o Toninho Rolo, que nem dormia na véspera, para nos deleitar com a sua alvorada de morteiros e muitos mais ao longo do dia. De tão entusiasta nesta arte, penso, que nem tempo tinha para ver o grandioso espectáculo.
Eram dois fogueteiros – de fama – ao despique, num arraial digno de ver e apreciar, e o CHARRUA de Vilarandelo até só p’lo nome, fazia estremecer as redondezas.
Havia copos por todo lado e a “pucarinha” nunca faltava para os amantes deste jogo, que só conseguiam ver os dados e as cartas com a ajuda do gasómetro ou lampião. A roleta dos realejos, navalhas e outros utensílios, fazia “cegar” os mais jovens.
Havia também duas bandas de musica ao desafio.., qual a melhor. Havia também uma “planta” de eletricidade “portátil”, para fornecer o gira-discos de quatro “bocas” de altifalantes instalados no cimo da Capela e da iluminação da bonita Igreja e Capela do nosso devoto São Caetano, e ainda, as fracas lâmpadas dos lugares adjacentes.
O motor que a gerava essa luz ficava instalado por traz da Capela, pois nem o barulho e os cântaros de água que gastava para o arrefecer, incomodavam o pessoal. A aparelhagem sonora tocava e dedicava discos às namoradas(os), e a poeira do baile do arraial era sinal de uma festa viva e muito animada, que nunca terminava antes das três ou quatro da madrugada, com, por vezes, uma ou outra intervenção pelo meio da Guarda Republicana a repor a ordem em alguns com copos a mais.
No dia seguinte, logo de manhã cedo, os miúdos, ainda com o sabor na boca de alguns pirolitos ou outro refresco açucarado com água da fonte de bem perto, apanhavam molhos de canas dos foguetes rebentados no arraial, olhando ao mesmo tempo para o desgaste dos sapatos – de pano, é claro – e restante vestuário, que teria de durar até à próxima festa. Enfim…, memórias de outros tempos que jamais esquecerei.
A bênção dos rebanhos do gado bovino e de outros animais era feita logo pela manhã. Cada pastor ou proprietário levava o seu rebanho ou outros animais para a bênção; davam umas voltas à capela, conforme a promessa feita, e todos estes ficavam benzidos. Por vezes tornava-se difícil segurar alguns rebanhos de gado, só conseguido com a ajuda de vários populares que assistiam. O produto de algumas destas promessas, -centeio, vinho, etc. – , era leiloado em conjunto com outros artigos de outras promessas ao Santo na parte da tarde, onde também não faltava grande animação e até alguma disputa à mistura de quem arrematava e contribuía mais para o Ele.
Nesse dia, os tradicionais CORDEIRO e ALETRIA enchiam por um dia a farta mesa de todos, bebia-se o melhor vinho pré-reservado e tudo era em honra de SÃO CAETANO, da minha terra, Santa Valha, que julgo que ainda continua a ser a única festividade em honra deste Santo no nosso Concelho.
Carlos Sá.
Endoenças em Santa Valha:
Foi por volta de 1950 que este ritual cultural religioso vivo, conhecido por “Endoenças”, realizado no calendário religioso na Quinta-Feira Santa, imediatamente anterior à Sexta-Feira da Paixão da Semana Santa se realizou na nossa aldeia.
Última representação do Auto: O palco principal desse Auto e dos vários actos de representação da peça de parte dos últimos dias da vida de Jesus, foi na praça, em frente à entrada da Abadia (agora jardim) e de um cruzeiro que se encontrava muito perto, presentemente situado junto à entrada da igreja. Os ensaios foram efectuados no bairro do Sobreiró, mais concretamente no pátio dos Fernandes e num salão dessa casa. Também há quem se recorde de alguns ensaios terem sido feitos no Br. do Pontão, numa casa onde habitou e teve a alfaiataria Manuel Guedes, ultimamente pertencente à família do falecido Manuel “Mudo”.
No dia da celebração, o cortejo teatral com perto de uma centena de figuras representativas, saía do pátio dos Fernandes, em direcção à praça, principal local da representação da peça. A parte final, conhecida pela crucificação de Jesus no Calvário (via sacra), foi concluída no adro da Capela de Santa Maria Madalena, onde o cortejo seguia em procissão teatral, desde a praça, até esse local. Foram três dias de representação: Quinta e Sexta-feira da parte da tarde, e sábado de manhã.
O ensaiador foi um homem residente em Vale de Salgueiro do concelho de Mirandela, conhecido por “João Bessa” e os versos da peça eram todos cantados/proclamados em voz alta. Já quanto ao vestuário dos figurantes e alguns utensílios utilizados, ninguém se recorda da origem; contudo, tudo leva a querer que tivessem sido alugados a alguma casa da especialidade de Braga.
Todavia, contaram-me, que o “cavalo branco” que transportava o figurante que fazia de São Longuinho, pertencia à casa de Dª. Alice Fernandes Teixeira e marido Mário Neves, pais de Victor e Rui Neves, entre outros, e ainda, que os manuscritos dessa peça teatral, se encontram ainda na posse de uma pessoa, filha ou sobrinha de um ex-serralheiro da nossa terra entre as décadas de 1940/1960 de nome António Ferreira, mais conhecido por António Chelas.
Refiro aqui, entre muitos outros, alguns conterrâneos nossos (a grande maioria já falecidos) que fizeram parte dos figurantes da última representação religiosa, nos dias de Quinta e Sexta-Feira Santa, ambos da parte da tarde:
Ensaiador: João Bessa, de Vale de Salgueiro – Narrador: João/Joãozinho Bessa, filho do Ensaiador
Cristo: “Ensaiador da peça” João Bessa de Vale de Salgueiro; Nossa Senhora: Adelaide da Mata (Xila); Pôncio Pilatos: Manuel Guedes; Acusador: Artur Pereira (Vila); São Longuinhos: Herculano da Mata; São Pedro: João José Cardoso (João Ribeiro); São João: Aniceto Picamilho; Diabo: Cândido “Polide”; Jesus ou Anjo: “Mandino ou Mandinho“ Fontoura (Cantarinhas); Maria Madalena: Noémia “Clérguinha”; Verónica: Zéfinha “Passarica”; mulher de Pilatos: Maria Garcia da Mata; criada de Pilatos: Benvinda da Cunha Cagigal (Bindinha) com também os papeis Pajem e Menina de Jerusalém; Judeu da Corda: “Zortor”; Rei Herodes: Domingos Lopes; Pajem do Rei Herodes: Artur Picamilho; Espia: “Dico” Fernandes; Judeu dos pregos para a crucificação de Jesus: Manuel Catalão “Capela”; Judas e Bom Ladrão: José Maria (Cagigal); Bom Ladrão: Cândido dos Santos; Mau Ladrão: Cândido Catalão (Capela); Velho Anás: João Fontoura (Cantarinhas); Alberto Fontoura Fernandes ( rep.?); …. Meninas de Jerusalém: Maria Garcia da Mata; Generosa da Mata Barrosão; Fernanda da Mata Barrosão; Isabel Picamilho; Clementina Clerguinha; Benvinda Cagigal e Mariazinha Lampaça. Os figurantes que faziam de criadas e mulheres de Soldados Romanos e Judeus eram mais de duas ou três dezenas.
O Padre da nossa paróquia nessa altura era o reverendo João dos Santos Ferreira, Padre João como todos lhe chamavam, também com o título de Arcipreste de Monforte, que não só autorizou a apresentação da peça como ainda colaborou no acto.
Foram muitas mais pessoas a representar os vários actos que a peça contemplava na totalidade e que não estão aqui referidos, tais como: Reis Herodes, Barrarás, Caifás, etc. Contudo, foram só o nome destas pessoas que de momento vieram à mente de quem nos contou nostalgicamente esta memória. Acrescentaram ainda, que vieram muitas centenas de pessoas de fora assistir à peça, que durou a tarde dos dois dias, e que, quem assistiu e já tinha visto outras, afirmavam ter sido a melhor representação já mais vista no nosso concelho.
Disse-me Fernanda da Mata Barrosão, que também participou na representação como figurante de “Menina de Jerusalém”, que a totalidade dos manuscritos dos actos do auto da peça (casco), todos escritos em versos, ainda se encontram guardados desde essa data, e que se encontram na posse da família “Chelas”, mais concretamente junto duma filha de António Ferreira, mais conhecido por António Chelas e de Adelaide Mata (Xila), chamada Dulce também conhecida por Lulu, a residir actualmente em França mas com casa em Valpaços. Se é realmente verdade, trata-se de um importante acervo cultural a preservar.
*Recorde-se, que até à década de 1980, o povo, particularmente o rural, guardava com muito respeito e devoção o (feriado) dia-Santo compreendido entre as 12 horas de quinta-feira Santa até às 12 horas de sexta-feira Santa, para refleção e penitência. Nesse período de meditação e oração, até os animais de trabalho entravam em descanso e certos rituais pessoais eram religiosa e sagradamente cumpridos; recordo-me, por exemplo, de haver mulheres que não lavavam a cara e não se penteavam, entre outros. Só a partir das 10 horas do dia seguinte, sábado de Aleluia, agora chamada de sábado-Santo, é que se podia mostrar alguma alegria, particularmente pela chegada do dia seguinte, domingo de Páscoa, ou seja, pela ressurreição de Cristo. A partir da década de 1980 passou a ser só sexta-feira feriado e dia Santo.
Encomendação das Almas e Oração do Responso:
É uma manifestação popular de carácter religioso, onde, até finais da década de 1970, também era praticada por várias pessoas na nossa aldeia, sobretudo a nível pessoal.
Havia alguns “encomendadores“ que rezavam regularmente em voz alta algumas preces a Deus, entre outras pessoas espalhadas por toda a aldeia um senhor chamado Vieira, pai do Sr. Augusto Vieira e da Srª. Gertrudes, e ainda, João “Cantarinhas” Bernardina Rosa, respeitosa e carinhosamente conhecida por nós por “Rosa Cega” (por estar cega das duas vistas desde que nasceu) que habitavam todos eles muito perto da Capela de Santa Maria Madalena.
Ainda há pessoas entre nós que se recordam do apego às crenças e rituais desses dois homens: Vieira e João “Cantarinhas”, tendo-nos dito, que o fizeram até meados do século passado (1930 ou 1950), pois já eram na altura, pessoas de bastante idade. A senhora Rosa, pessoa de muita religiosidade, que só veio a falecer na década de 1990; a reza da encomendação das Almas era normalmente feita dentro de sua casa, assim como também fazia “Responso às Almas do Purgatório”, que é uma reza feita a pedido de alguém, quando algum objecto é roubado.
O ritual de orações da encomendação era sempre feito à noite, ou na varanda de suas casas, ou junto a um enorme sobreiro que existiu na eira desse bairro, agora largo da cabina dos telefones, mas este, mais utilizado pelo Senhor João “Cantarinhas”.
Algumas, entre muitas orações:
Meus irmãos; Pensai na Morte; E no dia do Juízo; O inferno é muito feio; Deus nos leve ao paraíso.
Paraíso! Paraíso! Paraíso bom lugar! Uns vão para o paraíso, outros vão para mau lugar!
Ó Almas do purgatório, que no outro mundo estais; Nessas chamais acendidas; Cada vez se acendem mais.
Meus irmãos que estais dormindo; Acordai, não durmais mais; Que as almas se estão queixando; Que lhes não rezais.
Ó Almas que no outro mundo estais; Mandai-lhes dizer uma missa no ano; Dai-lhe essa consolação. Lembrai-vos dos herdeiros e testamenteiros que se encarregaram dos bens que cá deixaram.
Era rezado um Pai-Nosso e uma Ave-Maria por cada oração intercalada.
Oração do Responso:
“Ó almas do Purgatório; Eu com nove tenho mistério; Três dos enforcados; Três dos mal -sentenciados; Três da morte a ferro frio; Para que todos os três, os seis, os nove; Vão ter ao coração dessa pessoa que me tirou (dizer o nome do objecto roubado); Não possa estar, nem dormir, nem descansar; Se as almas assim fizerem; Eu, um terço lhes vou rezar”.
(Depois, aguarde e esteja atento aos sinais).
Responso ao Santo António para perdidos e achados:
Santo António se levantou, se vestiu e se calçou, e o Senhor lhe perguntou:
Onde vais António Santo! Senhor, convosco vou, tu comigo não irás, tu no mundo ficarás, os perdidos achados, os esquecidos lembrarás, e todos os bichinhos vivos guardarás. Em louvor e honra da Virgem Maria, um Pai-Nosso e Ave-Maria.
Gente da nossa terra que conservou e nunca esqueceu o apego às suas tradições e crenças, tais como estas.
Escritos (receitas) do Livro de São Cipriano:
O livro de São Cipriano, conhecido por algumas pessoas, e do qual muita gente já ouviu falar, é um livro que, para além de outras coisas e ciências do culto, fala e descreve assuntos de magia negra, rituais e muitos outros feitiços, defumadouros, etc., etc., até alguns bastante perigosos, se bem que há quem afirme que os verdadeiros manuscritos originais estão muito provavelmente arquivados na biblioteca do Vaticano, ou noutro lugar qualquer de uma universidade antiga, ou ainda, nas mãos de algum coleccionador de manuscritos recolhidos em campanhas de arqueologia, e que estes manuscritos do livro agora conhecidos, sofreram bastantes adulterações em relação aos originais.
Mas há quem afirme também, que esses manuscritos de feitiçaria foram supostamente destruídos/queimados quando o Santo, que nasceu em 250 d.C., (anteriormente bruxo e feiticeiro), decidiu abandonar a magia negra e abraçar a fé cristã e distribuir os seus bens entre os pobres.
Em Santa Valha também havia até há escassos anos atrás (finais da década de 2000), quem “passa-se” esses tais escritos em papel, ou, o fizesse em reza, a pedido de várias pessoas, com base nos descritos desse tal livro, mas, só se constando sobre alguns assuntos, tais como: afastar os espíritos das pessoas, mau-olhado, inveja, ou ainda, para protecção dos bens das pessoas.
Havia também quem recorresse a esses escritos em momentos que a vida lhe corria menos bem, ou tivesse algum assunto importante para resolver.
Essa pessoa foi, Judite de Castro (falecida em Outubro de 2008), que residia no bairro dos Ciprestes, tida por toda a comunidade como pessoa honesta, de bem e de certa influência social na freguesia. Nunca foi pessoa que a pedido de alguém acedesse “passar” esses escritos com sentido de praticar o mal ou prejudicar a alguém que fosse. De todo o modo também nunca o praticou pessoalmente, pois nunca se constou ter quaisquer inimigos. Acrescentou ainda quem me informou, que também nunca se constou ter pedido dinheiro, ou outro interesse por tal prestação de serviços, e que o Livro de São Cipriano que tinha na sua posse, se constava, ter pertencido inicialmente a um carpinteiro residente no mesmo bairro, chamado de Amador, mais conhecido na aldeia por “Mador”.
Até final da década de 1950, houve uma pessoa na nossa aldeia que também teve o livro de São Cipriano, e que costumava passar escritos do mesmo género, chegando mesmo a ter uma boa fonte de receita desse expediente. Chamava-se Manuel António Alves (ex-regedor), mais conhecido por Manuel da Freixa, avô materno de Joana, Lucília e Agostinho Alves Nogueira (Dr.), pessoa de quem nos falaram também muito bem e que gozava de muita simpatia na comunidade; acrescentaram ainda, que esse homem era uma pessoa de muito respeito, muito crente nos escritos que passava, e, acima de tudo, que levava muito a sério o que estava escrito no tal livro.
Todavia, ouvi dizer, que outro livro existiu, ou ainda existe em algures, o do falecido “Cerieiro”, que residia no Br. do Pontão, vindo-o a deixar a uma familiar também já falecida de nome Ermesinda quando foi morar para Angola, que, por sua vez, o ofereceu há muitos anos atrás ao seu vizinho Artur Augusto dos Santos Morais , mais conhecido por Artur Maurício. Em conversa pessoal recente com o senhor Artur, foi-me contado pelo próprio, que só chegou a passar cinco escritos e que foram cópias de uns manuscritos que a senhora Ermesinda lhe forneceu e lhe ter pedido para o fazer por ela já se encontrar um pouco debilitada para fazer esse trabalho e que o deixou de fazer logo a seguir principalmente por ser pouco crente nessa matéria de crenças e superstições e outros do género.
Acrescento dizendo o senhor Artur, que se recorda ainda bem do destino de um desses tais “escritos, que se destinava aos filhos/leitões de uma porca que tinha acabado de nascer na aldeia que não mamavam e que essa pessoa lhe terá dito que logo que chegou a casa já estavam a comer da mãe. Também que nunca chegou a ver o tal livro de São Cipriano que diziam ter sido do senhor Cerieiro e estar na posse dessa senhora que era familiar e morava na mesma casa.
Poderão, muito provavelmente, ter existido, ou mesmo ainda existir, mais livros e/ou pessoas que tiveram ou têm na sua posse estes escritos e praticado de alguma forma estas ciências do culto, mas foram só esses, os que vieram à memória a quem mos contou.
Orações Diversas:
Ainda há hoje em dia, se bem que muito menos que antigamente, pessoas que se socorrem de alguém na terra, que saibam rezar orações para curar determinadas feridas no corpo, como, por exemplo:
Oração para cura do Coxo, mais conhecida por “Reza do Coxo”:
Primeiro faz-se o sinal da cruz com uma faca (em cruz) em cima do coxo, dizendo/exclamando: Jesus; Jesus; Santo nome de Jesus.
Após, reza-se o seguinte:
Sapo, sapão – Cobra, cobrão – Lagarto, lagartão – Aranha, aranhão – Rata, ratão – Aranha, aranhão – Salamandra, salamandrão . Bichos maus de toda a nação, deixa este corpo são, em louvor e honra de Deus e da Virgem Maria, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
Esta reza faz-se três vezes ao dia, sendo nove vezes de cada vez, durante três dias seguidos. Mistura-se água e azeite numa tigela, juntamente com nove pontas de silvas, molhadas da tigela no coxo sempre em cruz.
Oração para curar as Lombrigas:
Mil lombrigas, mil compridas, mil (ap)alastradas(?) . Que estas mil lombrigas se transformem em nove, nove em oito, oito em sete, sete em seis, seis e cinco, cinco em quatro, quatro em três, três em duas, duas em uma (numa), e no corpo desta menina/menino (dizer o nome) que não fique nenhuma. Em louvor e honra da Virgem Maria, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
Reza-se com uma faca fazendo uma cruz em cima da barriga, três vezes ao dia e nove rezas de cada vez, durante três dias seguidos.
Na nossa aldeia, ainda existem pessoas, nomeadamente algumas (poucas) mulheres, que o sabem fazer da forma que acima referimos, e que nos contaram, como também lhes ensinaram. Adelaide Moreiras, é uma delas.
Também algumas pessoas nos contaram algumas orações que lhes foram ensinadas pelos seus antepassados ou amigos:
Oração para quando alguém vai em viagem, para que Deus o guarde ou proteja:
Diz-se o nome da pessoa que vai em viagem, por exemplo:
____(nome)_______ , salvo chegues como saíste, na Arca de Noé te meto, com as chaves de São Pedro te fecho, e te entrego a Jesus Cristo. Em louvor e honra da Virgem Maria, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
Repete-se a oração e o Credo nove vezes seguidas, ou não, antes da viagem.
Oração que se reza antes da confissão:
Ó meu Senhor Jesus Cristo ; Eu queria-me confessar; São tantos os meus pecados; Que não os consigo nomear; Confesso-vos a voz Senhor; Que bem sabeis quantos são; Por piedade vos peço; Que me deiteis a vossa absolvição.
Oração que se reza quando se entra na Igreja:
Por esta porta vou entrando; Jesus Cristo vou buscando; Água-benta que me lave; Jesus Cristo que me salve.
Oração que se reza quando nos ajoelhamos, após entrar na Igreja:
Aqui me ajoelho Senhor; Com o poder da minha vida; Vós sois o Divino Pastor desta ovelha perdida; Dá-me a Tua salvação pr´a minha alma e remédio para a minha vida.
Reza-se de seguida o Pai-Nosso e Ave-Maria.
ORAÇÃO CONTRA O MAU-OLHADO
(Para destruir a inveja e a cobiça alheias)
O Olho da Luz me envolve. Seu brilho me protege.
Quebre mau-olhado! Desfaça-se toda a intriga e a
perfídia. Estou com a Bênção do Senhor. Estou dentro
do Manto do Senhor, nada me destruirá. Amém
ORAÇÃO CONTRA PESADELOS
(Para afastar os maus sonhos e os terrores da noite)
O Senhor é meu refúgio e minha rocha. Ele me livra da rede dos caçadores, das coisas funestas
e com as plumas de suas magníficas asas me protege. Não temo mais o terror nocturno, nem a seta que voa durante o dia. Caminharei sobre as serpentes e leões, porém nada me passará. Pois eu Te invoquei e Tu me ouviste! Amém.
Reza para afastar as trovoadas:
Santa Bárbara se vestiu e calçou
Santo caminho andou
Jesus Cristo encontrou
Onde vais Bárbara santa?
Vou ao céu Meu Senhor
P’ra afastar as trovoadas
que no mundo estão armadas…
Lendas, mistérios, mezinhas, cultos, bruxas, fadas, coisas de Deus e do diabo, são coisas que se vão perder nas próximas gerações. É pena, porque tudo isto faz parte da história e dos usos e costumes da gente do nosso povo.
Rituais fúnebres:
Pelo número de badalas no sino da igreja sabia-se quem morria: Se fossem duas badaladas era por morte de mulher, se fossem três era por morte de homem.
Uma sátira do povo: Se é rico e tem dinheiro; Faz-se-lhe um ofício por inteiro; Se é pobre e não tem nada; Apenas uma missa rezada. Outra versão no último verso: “ uma trapalhada”.
“Esmola por Alma do Morto e Extrema-unção”.
Até finais da década de 1980 era costume dar esmola no dia do funeral de algumas pessoas da nossa e de outras aldeias. Chamava-se a esse ritual, dar “Esmola por Alma do Morto”.
Essa esmola, em dinheiro à saída do portão do cemitério, era oferecida pelos herdeiros do morto a todas as pessoas que estivessem presentes no funeral, não só pela alma falecido, como também de agradecimento pelo acompanhamento do corpo até à sua última morada.
Para além dessa oferta, havia ainda quem deixasse desejo ou promessa de dar aos mais necessitados da aldeia, grão de centeio para o pão ou azeite, como, por exemplo, entre outros, João Evangelista Fernandes, conhecido na nossa freguesia por “Cego da Coutada”, que para além da esmola distribuída pelos herdeiros pela sua alma, pediu a eles, antes de falecer no ano de 1924, que dessem às pessoas que viessem a transportar à mão o caixão com seu corpo de sua casa na quinta da Coutada de Stª. Valha até à aldeia de Tinhela, local onde pediu para ser sepultado, quatro alqueires de grão de centeio a cada um.
Ouvi contar a meus familiares e não só que foram muitos os voluntários que se ofereceram para prestar esse serviço.
O valor da esmola em moedas ou outros bens variava de acordo com a posse do falecido, mas só poucos da aldeia o faziam, tendo em conta a pobreza na comunidade.
Recordo-me bem, de haver quem desse cinquenta-centavos, um escudo, dois escudos e cinquenta-centavos, moeda também conhecida à data por dois-e-quinhentos e até mesmo um ou outro mais tarde, cinco escudos, e o jeito que dava nessa altura a muitas pessoas. Também de haver por vezes uma ou outra criança ou já rapazola que saltava o muro do cemitério para voltar a recebe, é claro, se não fosse reconhecido pela pessoa que distribuía o dinheiro.
De igual modo a “Extrema-unção” também se perdeu com o tempo. Quando os fiéis estavam doentes em perigo de vida ou por velhice em fase terminal mandava-se chamar o senhor padre para lhe dar o sacramento da “Extrema-unção”, um dos sete sacramentos da Igreja Católica, que consiste na unção com óleos santos. Se ainda fossem portadores de alguma consciência também se podiam confessar.
** É tudo isto um testemunho de memórias que me contaram. Certamente outras já desvanecendo ou até mesmo totalmente esquecidas pelos anos que já carregam ou carregaram essas mesmas pessoas, que também gostaria(mos) de saber para agora vos contar. Um Bem-haja a todos.
OS JUDEUS EM TRÁS OS MONTES
INQUISIÇÃO – Lista dos processados no distrito de Bragança
In OS JUDEUS ,de Francisco M.Alves
DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – SANTA VALHA
Por Leonel Salvado (Clube História de Valpaços)
Nota prévia: Esta série documental que se encontra entre o acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo do qual subscrevemos aqui no Clube de História de Valpaços a designação genérica de “Tribunal de Santo Ofício” será apresentada em duas categorias distintas designadas, também em conformidade com ANTT – Digitarq – DGA, como “Diligências de Habilitação” e “Processos” referentes a pessoas que nasceram e/ou viveram em Valpaços e noutras freguesias do actual concelho e se viram envolvidas, em situações opostas, no Tribunal do Santo Ofício. No primeiro caso os documentos relacionam-se com pessoas que se propuseram à admissão entre os “familiares do Santo Ofício”, às quais, uma vez reconhecidas as suas habilitações completas, cabia a responsabilidade de assegurar o funcionamento da máquina inquisitorial nas localidades ou regiões em que residiam, denunciando e executando as prisões dos suspeitos de heresia, confiscando os bens dos condenados e cumprindo com todas as diligências ordenadas pelos inquisidores. Inserem-se ainda nesta categoria documental as diligências de habilitação para outros cargos de prestígio, contemplando também as senhoras. No segundo caso, os documentos referem-se às pessoas que se encontravam no campo oposto, o dos acusados de crimes de heresia, em função de uma multiplicidade de actos praticados, acusações que podiam variar entre a blasfémia, o perjúrio, a bigamia, práticas de feitiçaria e judaizantes, entre outras estigmatizadas pela Igreja católica e seus mais acérrimos devotos. Estes documentos são um claro indicador da existência de numerosas comunidades de cristãos-novos (cripto-judeus) em certas freguesias do actual concelho de Valpaços pelos séculos XVII e XVIII, com mais representatividade em Carrazedo de Montenegro e, sobretudo, Lebução. Convém que se diga que estas duas últimas localidades adquiriram nos séculos XVIII e XIX particular dinamismo e prosperidade para o que muito contribuiu, decerto, a presença, nelas, dos “cristãos-novos” que, como se sabe, eram, na generalidade, pessoas abastadas e ligadas aos ofícios mais proveitosos e dinamizadores da economia local e regional (haja em vista nos documentos que se seguem as suas referências profissionais mais comuns: “mercadores”, “rendeiros”, “homens de negócios”…) e que se foram integrando no tecido social das mesmas localidades e da província de Trás-os-Montes, não obstante a repressão que sobre eles exercia a Santa Inquisição, como primordialmente se conclui dos mesmos documentos. Os documentos que não dispõem de representação digital, que são a maioria, são aqui apresentados na forma sinóptica e, portanto reproduzidos directamente a partir da fonte. Os restantes são apresentados em transcrições realizadas para o Clube de História de Valpaços e da responsabilidade do respectivo autor da dessas transcrições. O caso presente de SANTA VALHA é sintomático da clivagem social que se vivia em muitas localidades do reino nos séculos XVII e XVIII, uma franja social benquista e habilitada à promoção e outra sujeita às malhas da implacável máquina da Inquisição.
A – DILIGÊNCIAS DE HABILITAÇÃO
1. DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE MARIANA JOSEFA
RELAÇÃO COM SANTA VALHA: Filha de Natural
DATAS DE PRODUÇÃO: 1715 a 1715
ÂMBITO E CONTEÚDO
Mariana Josefa, pretendente a ama [do Paço], natural e moradora em Lisboa, filha de Bartolomeu Rodrigues, natural de SANTA VALHA, termo da antiga vila de Monforte de Rio Livre, do bispado de Miranda do Douro, e de Maria da Conceição, irlandesa; neta paterna de Mateus Gonçalves e de Catarina Rodrigues, naturais e moradores em Santa Valha.
Casada com Mateus Spadini, natural de Livorno (Itália).
COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Oficio, Conselho Geral, Habilitações de Mullheres, mç. 4, doc. 17.
B – PROCESSOS DA INQUISIÇÃO
1. PROCESSO DE DUARTE CHAVES
DATAS DE PRODUÇÃO: 1704-06-25 a 1705-05-11
ÂMBITO E CONTEÚDO
Duarte Chaves, CRISTÃO-NOVO , com 46 anos de idade, sem ofício, solteiro, natural de SANTA VALHA, termo de Monforte de Rio Livre, bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Luís Chaves, cristão-novo, sapateiro, e de Mécia Álvares, cristã-nova, acusado de culpas de JUDAÍSMO, foi preso em 19/07/1704.
O réu FALECEU NOS CÁRCERES DA INQUISIÇÃO, em 11/05/1705.
Sentença: Auto-de-fé de 24/07/1706. Seus ossos enterrados em sepultura eclesiástica, oferecer a Deus, por sua alma, sacrifícios e sufrágios da igreja. Foi ordenado que a sentença do mesmo fosse lida em auto-de-fé.
O réu dizia ser judeu, não queria ser nomeado por cristão-novo, porque considerava que só os mouros, depois de baptizados, eram cristãos-novos.
COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, processo 533.
2. PROCESSO DE MARIA CHAVES
DATAS DE PRODUÇÃO: 1679-04-18 a 1682-02-05
ÂMBITO E CONTEÚDO
Maria Chaves, MEIA CRISTÃ-NOVA, com 46 anos de idade, natural de SANTA VALHA, termo Monforte de Rio Livre, bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de Baltasar de Chaves, cristão-velho, e de Branca Dias, cristã-nova, casada com António de Tovar, parte de cristão-novo, mercador, acusada de culpas de JUDAÍSMO, foi presa em 18/04/1679.
Sentença: Auto-de-fé de 18/01/1682. Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penitências espirituais.
Por despacho de 05/02/1682, foi-lhe tirado o hábito penitencial, dada licença para ir para qualquer parte do reino, donde não poderia ausentar-se sem licença da Mesa, e foram-lhe impostas penitências espirituais.
COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, processo 1007.
Fonte: http://digitarq.dgarq.gov.pt (publicação autorizada para o Clube de História de Valpaços).
Publicado por Clube de História de Valpaços em 18:00 – 02 de Janeiro de 2012
Categoria: Documentos Históricos, Santo Ofício
Santa Valha, dados colhidos entre os anos de 2008 e 2018.
(Amílcar Rôlo)
